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 | O PRIMEIRO INTERNAUTA BRASILEIRO?
Até que alguém me desminta (e isto pode acontecer ao final desta frase), fui o primeiro brasileiro a navegar na Internet. Sei que o fato é pequeno, além de pouco provável. Não fiquei famoso como Santos Dumont, o primeiro brasileiro a levantar vôo. Nem tive o meu feito eternizado pela mídia como o de Pelé, o primeiro brasileiro a completar mil gols.
Ano de 1988. Morava em Nova York com uma bolsa da Fundação norte-americana Fulbright. Um dia dentro do elevador da universidade, tive um clique. A porta se abriu num andar em obras. Sem comandar meu próprio corpo, saltei antes que a porta se fechasse novamente. Não sei se foi intuição ou atração pelas enormes caixas com o logo da Apple empilhadas num longo corredor. Detalhe: naquela época nem eu nem ninguém tínhamos computador. Muito menos conhecia o logotipo, nem sabia o significado da maçãzinha que levou uma dentada da Apple.
O nome do departamento, que existia desde 1979, era intrigante: ITP- Interactive Telecommunications Program. Naqueles dias, a coisa mais interativa que eu conhecia era a troca de cartas, telefonemas ou beijos.
Com muita cara-de-pau, escrevi para a Fulbright pedindo uma prorrogação da bolsa. Minha justificativa era simples: precisava conhecer aquela história de Interactive Telecommunications antes de voltar ao Brasil. O pessoal da bolsa foi generoso e eu ganhei uma sobrevida de dois meses dentro do prédio glamouroso das Artes Visuais da NYU, Broadway 628, onde circulava gente como Martin Scorcese e Spike Lee (um como professor, o outro como aluno).
Fui apresentado a várias máquinas de babar (entre elas, o novíssimo lançamento da Apple, o computador Macintosh SE, tela em preto e branco). Modelo revolucionário, o monitor e a CPU formavam um só objeto. Uma espécie de totem indígena beje de plático estrategicamente posicionado para adoração dos estudantes sobre as mesas da sala de aula. Quem tinha vinte e poucos anos naquele final de anos 80, e conheceu o Mac SE, sabe do que estou falando. Quem não tinha nem nascido, esquece. A gente era mesmo bobo e se contentava com pouco.
Mas o inacreditável estava para acontecer. Sem cerimônia, o instrutor da classe nos informou que ia entrar num chat com a turma da UCLA- Universidade da Califórnia, em Los Angeles. Chat, como assim? Yes, vamos teclar com os caras ao vivo numa sala de bate-papo. Sala de bate-papo, como assim? É, assim mesmo. Olha só, e começou a teclar “hi, how are you?”. Ficamos todos ali, incrédulos, espremidos diante da tela esperando qualquer resposta que viesse de dentro daquela máquina.
Abre parêntesis: é bom lembrar que em 1988, a internet não tinha essa interface gráfica sexy como a de hoje. Era só texto. Uma coisa horrenda, com cara de DOS, mais feia que os óculos do Bill Gates. Fecha parêntesis.
Pronto. Todo mundo ali na espera. De repente, pimba! Letrinhas se movem sozinhas na tela. São os caras teclando de São Francisco. Uau, Califórnia, gente teclando do outro lado do país ali na tela, ao vivo! Depois do espanto inicial, começa finalmente a conversa on-line sobre... o tempo! Tá quente, tá frio, vai chover, talvez sim, talvez não… enfim o mesmo papo furado de sempre. Mas de qualquer maneira, boys and girls, isto é a Internet!
Voltei pro Brasil sem ter com quem dividir meu feito histórico. O único que entendeu o alcance da minha aventura pioneira foi um engenheiro eletrônico, ex-colega de faculdade, promissor executivo de uma grande instituição financeira de São Paulo. Impressionado com meu relato, perguntou se eu topava contar tudo para o chefe dele. Mas é claro! Marcou um almoço num restaurante importante da cidade. Couvert servido, meu amigo sorri confiante e puxa a conversa: vai Marcelo, conta para ele aquela história da internet. É o seguinte, Dr. Chefão, a Internet é uma grande rede que vai ligar um dia todos os computadores do mundo. Os de casa, os das empresas... Enfim, uma rede mundial de computadores. Cada um de nós vai poder trocar mensagens instantâneas de qualquer parte do planeta sem sair de casa ou mesmo da mesa do escritório! Um longo silêncio indicava que minha história não agradava o homem de negócios. Acabou o almoço, veio a sobremesa, o cafezinho… Na saída do restaurante, me mandei de fininho. Assim que se viu a sós novamente com seu subordinado, o chefe virou para o meu amigo e disparou: da próxima vez que você me fizer perder tempo com esses seus amigos artistas maconheiros, você está despedido.
(*) Esta história versão completa vai estar num livro de causos que alguns precursores da internet BR estão escrevendo à muitas mãos. A internete BR já tem história? Você tem alguma pra contar? Você conhece alguem que navegou antes de mim na Internet? Clique e conte. |
25/09/2003 às 04h05 - Marcelo Tas - 70 comentários |
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