CINEMA
O viajante Bernardo Vorobow, por Walter Salles
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prosa.poesia
MELODRAMA

Amor em fúria
Por Tata Amaral

Era forte e lindo, bad boy, cabelos longuíssimos. Tinha uma Brasília cor-de-abóbora

Ela tinha acabado de fazer 14 e achava que era gente grande. As meninas, às vezes, ficam com esta impressão: quando menstruam aos 10 anos, chegam aos 14 já tendo convivido 4 anos com seus hormônios, aqueles. Os peitos se desenvolvem, a bunda adquire contornos voluptuosos, a barriga se define, enfim, tudo adquirindo forma, ganhando espaço… Antônia era alta, morena, escultural da cabeça aos pés. Exalava vigor de uma maneira quase impúdica. Radiante!

Arrumou um namorado de 22 anos. Barra-pesada, sujeito casado e tudo, morava com outra, fumava maconha. Era forte e lindo, um tipo soturno, bad boy, cabelos longuíssimos. Tinha uma Brasília cor-de-abóbora. Antônia estava nas nuvens: o namorado, o carro… Além do mais, estava louca para transar. Viu neste rapaz mais velho, vindo de São Paulo para passar as férias de julho, a possibilidade de se libertar definitivamente dos grilhões da sua virgindade. É agora. Desta vez não passa! Na cidadezinha pequena, onde morava, todas as suas amigas (algumas virgens, outras nem tanto) vaticinavam: "Chegou a tua vez!".

Às vezes, de dia, ficava em dúvida se era isto mesmo que queria. Será? Mas só de dia. De noite, quando encontrava o Espeto -era este o nome do novo namorado-, as dúvidas se dissipavam. Ele arrasava. Era um tesão! Sempre se encontravam em algum ponto da cidade, junto com a turma toda: ora no clube, ora num bar, ora no coreto da praça, ora na casa de alguém. Feitas as confraternizações, suas amigas iam se distanciando, seus amigos deixando de puxar assunto; todos solidários, cúmplices. Separavam-se do grupo. Saíam sozinhos. Espeto a levava a lugares bacanas: à beira da represa, ao pé da pequena floresta virgem subtropical que ainda restava intacta na região… Ficavam ali, no interior do carro, malhando, ouvindo a fita de rock pauleira, passando frio. Rolava beijo, abraço, mão no peito, às vezes ele a masturbava por cima da calça jeans.

Isto era tudo. Nada mais. Dia após dia.

Depois de tanta esfregação, tanta libido, acabou por ficar obcecada: queria, sim. Tinha certeza! Absoluta! Queria dar pro Espeto!

Uma noite muito fria ele resolveu: "Vou te levar para um lugar especial". Seu coração pulou. Já esperava por isto. Batata! 1+2=3. Era o mirante da serra, fodódromo oficial da cidadezinha e redondezas. Todos iam até ali foder. Ela também iria. Hoje! Daqui a pouco!

O caminho para o mirante era íngreme e de terra. Já o chacoalhar do carro a excitava. Além do mais, Espeto dirigia, uma mão na direção, outra no meio das suas pernas. Só faltava chegar. Aliás, nem precisava chegar: por ela paravam o carro ali mesmo. Mas não queria estragar o ritual.

Chegaram, depois de muita subida, muita curva, muita chacoalhada. O frio era incrível e a Brasília cor-de-abóbora, evidentemente, não tinha aquecedor. Espeto parou o carro, colocou "Stairway to heaven" e convidou-a para descer e ver a vista. Tudo bem, pensou, vamos ver a vista. A paisagem estava maravilhosa. A noite límpida, luzes ao longe, muitas estrelas... Mas ela não estava para romantices. A fumaça saía das suas bocas, quando falavam. Ele, divertido, brincava de comê-las. Numa destas ela acabou mordendo seus lábios. Ele gritou de dor (talvez não muita dor). Depois deu-lhe um beijo de língua daqueles. Ela fervia. Ele também. Ela fingiu um frio que não sentia e pediu pra voltarem ao carro.

Entraram. Recomeçam o malho. Maldito câmbio! Espeto tinha especial apreço pelos seus peitos: tocava-os, mordia-os delicadamente sobre o pullover grosso. Precavidamente, ela havia saído sem sutiã. Criou coragem e foi conduzindo a mão gelada do Espeto até seus peitos. Sentiu um arrepio que ficou zanzando pela sua espinha. Seu corpo todo transpirava desejo. Espeto enlouquecia: com uma mão tentava reclinar o banco e com a outra terminava de tirar o casaco, arrancava o pulôver e a blusa de Antônia. Beijou seus peitos e o contato da boca quente no seu corpo fez Antônia ver estrelas. O carro ficou todo embaçado, parecendo uma nave espacial no meio do nada. Antônia se empolgou. Puxou Espeto pra cima e começou a abrir o zíper da sua calça. Espeto parou, rígido. Ela também. "Que é que foi?", perguntou, buscando dar-lhe um beijo. "Sei lá", disse ele esfregando o nariz e encostando-se na porta da Brasília. Depois procurou um cigarro. Achou. Acendeu. Tragou. Soltou a fumaça. Ela ali, peitos de fora, o maior tesão do mundo, começando a esfriar. "Quantos anos você tem?", quis saber o Espeto. Parecia que a coisa podia esfriar muito. Ela resolveu se aproximar para retomar os beijos. Felizmente ele correspondeu. Não resistiu. Sempre beijando-a, ele abriu a janela e jogou o cigarro. Fechou. Ela relaxou. Continuaram a esfregação mas ele evitava seus peitos.

A situação era morna e ela estava gelada. Pensou em sentar-se no seu colo. Se ele a abraçasse o frio podia passar. Desistiu. Deu um espirro. Ele pegou sua blusa e estendeu-lhe. Ela vestiu. "Quantos?", ele insistia. Ela, transida de frio, de tensão. "Essa, agora?" Espeto esticou o braço para o banco de trás. Voltou com a garrafa de conhaque. Abriu. Bebeu um gole grande. Depois ficou ali, parado, olhando-a. Ela também ficou olhando pra ele. Foi para pegar a garrafa da mão dele. Seria bom esquentar e relaxar. Espeto reteve a garrafa bruscamente: "Você não bebe!" "Como assim?" "Não bebe." "E você manda em mim?" Espeto fecha a tampa, joga a garrafa de volta no banco de trás, liga o carro e dá marcha à ré, num gesto só. "É muito pequena." Manobra. Acelera. "Mas o que aconteceu? O que foi que eu fiz?", pergunta a menina. Ele não responde. Só dirige, olhar fixo na estrada, siderado. "Você é muito pequena… não tem juízo?", balbucia mais uma única vez enquanto despencam estrada abaixo.

Deixou-a em casa e nunca mais falou com ela. Ela chorou de tristeza, de decepção, rejeição, tesão. Ele viajou de volta a São Paulo poucos dias depois, interrompendo as férias. Ela lembrou desta história por muitos anos. Nunca soube o porquê de não terem transado naquela noite. Imaginava várias coisas: desde pau pequeno, doença venérea, até medo de incorrer em crime de sedução de menores. Não chegava a uma conclusão. Mas uma coisa é certa: hoje mesmo, ainda que ele aparecesse na sua frente desdentado, ela tinha certeza de que dava pra ele.

Tata Amaral
É diretora de cinema, realizadora de "Céu de Estrelas", entre outros.

 
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