É necessário que sejas jovem e bela
as pernas entre a flecha e a curvatura.
Mas isso não basta
se não houver cabelos longos e dóceis
qual um cálice negro
descendo por trás
o rosto
avesso de boca e olhos
figura rara
como seria uma sibila dos infernos.
Então nos diga: que conquista é essa
de recriar tronco e membros
sem obedecer ao engenho do corpo
metade femina metade monstro?
Não te iludas: os aplausos do circo
são tingidos de medo quando chega a tua hora.
Ofereces dobras
que as pupilas rejeitam
o espaço nega. Temos um tremor
de desequilíbrio.
Palmas cegas.
O teu corpo visitado por flores do mal
Como afastá-las das retinas?
MERIDIANOS
Se a pátria continua então
o nome do pai
território que dele emana
para um bater de asas
desgarrado
(mesmo quando
os cotovelos meditam
num balcão)
se a pátria se faz procriar
no muro das casas
em números
becos cidades e rios
à espera de uma coreografia
de nuvens
se a pátria mantém
o sono
confidente
por montanhas e mares
abreviado
no silêncio do elevador
na vadiagem dos cães
nas frutas de hoje
o vento e os rostos confundidos
pedestres de marquises e praças
somos um coletivo
espelho
de que paisagem?
Tantos são os anúncios
Insistentes
(as árvores próximas que se calem)
a repetir as novas velhas ordens
de consumo
uma espécie de ferrugem ocupa
palavras
em público
efeitos que giram em falso
aceleram
o automóvel e os desejos
(mudos)
esquivo ao catálogo de rostos
recolhido
perco-me dos deuses
encontro refúgio nos detalhes:
deparo o sinal da pátria
nos talheres
no aproximar da gata
numa camiseta amassada.
Fernando Paixão
É poeta, autor de “Fogo dos Rios” (ed. Brasiliense), “25 Azulejos” (ed. Iluminuras) e "Poeira" (ed. 34, prêmio APCA 2001), entre outros.