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POLÍTICA CULTURAL

Trópico na Pinacoteca 3: Museus
Por Ana Paula Cohen

Saiba como foi o debate de Sonia Salzstein,
Roberto Teixeira da Costa e Marcelo Araújo

Após quase duas décadas de prática das leis de incentivo fiscal e do gradativo abandono da esfera cultural por parte do Estado, as instituições culturais no Brasil apresentam uma urgente necessidade de reestruturação. Nesse sentido, discussões como a realizada na Pinacoteca do Estado (São Paulo), no último dia 31 de agosto, mostram-se como uma primeira mobilização para gerar mudanças efetivas.

A terceira edição da série de encontros "Trópico na Pinacoteca" enfocou os problemas relativos às "Políticas de museus". Foram convidados o economista Roberto Teixeira da Costa, conselheiro de diversas empresas, presidente do conselho deliberativo do Museu de Arte Moderna de São Paulo e vice-presidente da Sociedade Amigos da Cinemateca Brasileira, e a crítica de arte e professora da Escola de Comunicações e Artes da USP, Sonia Salzstein. A mediação coube ao museólogo Marcelo Araújo, atual diretor da Pinacoteca.


Limites entre o público e o privado

Marcelo Araújo introduziu as palestras enfatizando a necessidade de reelaborar "estratégias possíveis para os museus", no atual contexto brasileiro "em que a afirmação do modelo neoliberal e a consequente refração do papel do Estado tem tornado absolutamente fluidos os limites entre o público e o privado".

Entre as questões colocadas por Araújo, uma delas seria pensar o que torna, hoje em dia, uma instituição pública. Citou o conselho internacional de museus (Icom), para o qual é necessário que o museu seja "voltado para o interesse da população". O simples estatuto jurídico dessa instituição, ou o fato dela manter as portas abertas ao público, são, portanto, insuficientes.

O museólogo considerou a Lei Rouanet responsável pela "verdadeira tragédia" em que se encontram a maioria dos museus no país. "A preponderância da lei Rouanet na estruturação das atividades culturais resultou na concentração de empreendimentos desenvolvidos pelas próprias empresas patrocinadoras". Tal situação "acabou ditando uma subordinação das instituições museológicas aos interesses do mercado".

Marcelo Araújo citou uma advertência feita há alguns anos por Maurício Segall (diretor do museu Lasar Segall por 30 anos): "A grande ameaça não é a existência das estratégias de marketing, mas a maneira como a médio e longo prazo essa prevalência acabará por determinar o próprio pensamento curatorial, em função desses interesses de marketing". Tal afirmação se confirmou nas falas, embora antagônicas, de Roberto Teixeira da Costa e de Sonia Salzstein, marcando um dos raros pontos de concordância entre os debatedores.

O curador Ivo Mesquita, demitido em junho último da direção do Museu de Arte Moderna (MAM) de São Paulo, estava na platéia, bem como outras pessoas que pensam ou exercem cargos em instituições de natureza museológica, como Cristina Bruno, Denise Grinspum e Stella Teixeira de Barros. As razões dessa demissão motivaram a Pinacoteca do Estado e Trópico a organizar o encontro.

Como parte da introdução, Araújo leu trecho de um artigo do crítico e curador Paulo Sérgio Duarte (também presente no auditório): "uma leitura crítica do museu deveria ser uma rotina realizada por seminários transdisciplinares, onde críticos, historiadores, cientistas sociais, curadores, designers, arquitetos e museólogos colaborassem com subsídios para traçar a estratégia da instituição. Os seminários quadrienais deveriam se tornar uma exigência dos museus de arte no Brasil, que muitas vezes estão mais interessados em macaquear as bem sucedidas operações dos homens de marketing do que pensar sobre si mesmo e seus destinos".


Popularização dos museus

Roberto Teixeira da Costa apoiou-se nas afirmações de Thomas Krens, diretor do Museu Guggenheim, para quem "um museu sintonizado com os novos tempos precisa atrair o público com cinco divertimentos: grandes coleções permanentes, grandes exposições especiais, grande arquitetura, espaço para alimentação e oportunidades para fazer compras". Essas plataformas de atuação demonstram uma total subordinação da reflexão curatorial à lógica do mercado e do lazer. Segundo Teixeira da Costa, tal modelo, "em maior ou em menor escala, está sendo seguido no Brasil".

Teixeira da Costa ressaltou a popularização dos museus, ao tratar a instituição como lugar que "deixou de ser um espaço dedicado às elites e tem um objetivo na sociedade muito mais amplo do que ser um espaço refinado, onde as elites se encontram para questionar obras de arte". Na sua visão, os museus são um elemento de aproximação de segmentos menos favorecidos da sociedade, na qual a arte pode exercer um mecanismo de diminuição dos problemas sociais. Nesse sentido, chamou a atenção para a importância do "museu como centro de educação".

Desenvolvendo um dos princípios de Thomas Krens, de que "a função do museu é criar uma situação tal em que o público não se sinta tiranizado", Teixeira da Costa observou que "o museu deve ser um ambiente em que as pessoas fiquem completamente à vontade", "em que elas vão para relaxar, para absorver idéias, conceitos e não se sintam tensas ou obrigadas a um ambiente na qual não estão acostumadas".

As três principais questões colocadas pelo economista foram extraídas de artigos publicados sobre o tema dos museus hoje. A mobilização de recursos foi um assunto tratado exaustivamente ao longo de sua apresentação. Em seguida, indagou como seria a sobrevivência dos museus no século 21: "Será que seu papel está reservado a fazer parte da indústria do entretenimento? Será que o museu do futuro passa a ser exclusivamente uma disneylândia cultural?" Por fim, questionou se a arquitetura dos museus não estaria ganhando mais importância do que o objetivo propriamente dito do museu.


Norte-americanizados

Segundo Teixeira da Costa, "a experiência brasileira é muito mais inspirada -como quase tudo que nós fazemos aqui- no modelo americano do que no europeu". Comparou diversos exemplos de museus nos Estados Unidos e na Europa para avaliar a situação brasileira. "Uma coisa que difere muito do sistema americano para nosso sistema é a questão do endowment".

O endowment é uma receita -gerada a partir de um volume de recursos, aplicado a taxas de mercado a riscos relativamente baixos- que ajuda a custear as atividades da instituição. "Nos Estados Unidos, por exemplo, o Metropolitan tem um endowment que cobre onze anos de atividades do museu, a parte que o Guggenheim tem um endowment muito baixo, o que, de uma certa maneira, explica a agressividade comercial, o marketing violento do Guggenheim se comparado ao do Metropolitan. Ou seja, na medida em que você não tem recursos que garantam manter uma personalidade do museu, você parte para experiências um pouco mais agressivas, mais pirotécnicas, que talvez se distanciem do objetivo ideal do museu".

Nessa etapa da palestra, levantou diferentes problemas relacionados à arrecadação de fundos em museus. Por exemplo: "quais são os artigos compatíveis para serem vendidos em uma loja de museu? Seriam coisas ligadas àquela exposição, à atividade artística, cultural, ou simplesmente trata-se de transformar a loja num shopping center?" Tratou também do tema da filantropia: "4/5 dos recursos de filantropia nos Estados Unidos são de pessoas físicas. Então, há um conceito de filantropia que o brasileiro ainda não tem, até pelo seu nível de renda, ou porque aqueles que têm renda talvez não tenham essa motivação".

Finalmente, levantou a questão sobre a coerência de criar um setor de arrecadação de fundos nas instituições brasileiras, seguindo o modelo do British Museum. Teixeira da Costa assinalou que "a fortuna mudou, de tal maneira, de mãos em São Paulo, que é preciso descobrir quem são estes novos entrantes que estão aí com o dinheiro, e que talvez queiram ter uma participação maior na arte e na cultura".

O economista indicou, ao longo de sua exposição, algumas taxas de visitação, dando exemplos nacionais: a mostra do Monet no Museu Nacional de Belas Artes atraiu 432 mil pessoas, durante dois meses, em 1997; a de Dali, 245 mil; a de Rodin, 226 mil; Picasso, no MAM do Rio de Janeiro, 136 mil; Camille Claudel, 120 mil. O MAM do Rio de Janeiro, em 2001, teve 177 mil visitantes, já o MAM de São Paulo, 280 mil visitantes.

Os dois últimos temas abordados por Teixeira da Costa foram: a "cultura como mecanismo de aproximação" e a" falta de planejamento sobre cultura na pauta dos candidatos à presidência do país e ao governo do Estado de São Paulo". Lamentou a falta de uso da arte e da cultura como mecanismo para conhecerem melhor o Brasil. Segundo ele, "temos a pretensão de saber o que são os Estados Unidos, mas não sabemos. E os Estados Unidos evidentemente não sabem o que é o Brasil". "É preciso que o Brasil faça um esforço também de se apresentar melhor e de vender melhor sua arte e cultura, porque o que nós temos para oferecer é de grande relevância".


Fisionomia popular e de elite

Sonia Salzstein não quis apresentar sua comunicação sem antes fazer as ressalvas que anotou em relação a palestra anterior. Adiantou que o horizonte de sua fala contemplaria a questão do "museu como lugar que tenha uma fisionomia mais popular do que uma fisionomia de elite", mas ponderou que caberia "problematizar o que entendemos por abrir o acesso e dar esse caráter popular à fisionomia do museu".

Salzstein criticou um certo hábito, criado nos anos 90, de confundir "grandes cifras de público" com "um museu que se populariza". Assim sendo, "temos perdido de vista a questão da formação. Formação não só como o trabalho de cativar novos contingentes de público, de ter setores de monitoria bem montados, mas há um trabalho de formação em um museu que privilegia, num conjunto de ações hierarquizadas, um trabalho de pesquisa sobre o seu próprio acervo".

Salzstein considerou a posição de Teixeira da Costa "uma visão otimista do papel do marketing cultural". Disse acreditar nesse "extraordinário aporte de recursos, que começou a aparecer para a área de artes a partir dos anos 90", mas pontuou um problema maior: com isso, "abdicamos de quaisquer políticas públicas que fossem capazes de hierarquizar, de disciplinar, a distribuição desses recursos". "O fato de nós sabermos que o Estado já não parece capaz de financiar sozinho a vida desses museus, das instituições públicas, não implica que elas devam capitular totalmente perante as estratégias de marketing".


O exercício da crítica

A discussão da esfera institucional foi feita a partir de um exame simultâneo da situação da crítica nos anos 90. Partiu da constatação de que "a própria compreensão da disciplina da crítica está em crise", referindo-se ao gênero consolidado desde a modernidade do século 19 com o poeta francês Charles Baudelaire. Salzstein levantou a premissa de que os problemas da esfera institucional provém justamente do "esvaecimento do gênero da crítica".

Na "crítica moderna", segundo Salzstein, "havia um ecletismo de origem que a tornava um exercício do risco", que a permitia "escapar ao enrijecimento num gênero estável e aos interesses do mundo da cultura". Nesse sentido, a dimensão pública não se subordinava às suas "prescrições" ou "imperativos".

Salzstein esclarece que, ao contrário do que possa parecer, sua intenção não é fazer um "discurso niilista, desqualificando o presente", mas pensar "alternativas a esse lugar", que vê "comprometido para o exercício da crítica".

A primeira constatação baseou-se na percepção de uma "dissociação entre a atividade da crítica e a da curadoria, ao longo da década de 90". Justificou: "as curadorias, introduzindo-se no cenário contemporâneo como uma nova forma de intervenção crítica, vieram, progressivamente, privilegiando, ao invés de um objeto de arte, abordado em sua singularidade, conjuntos permutáveis de objetos, que fossem capazes de representar este ou aquele enunciado tomado pela curadoria como uma motivação".

 
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