CINEMA
O viajante Bernardo Vorobow, por Walter Salles
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É importante saber se houve esvaziamento de recursos públicos de dentro das instituições públicas, porque esses recursos que são alocados para esses eventos externos são absolutamente públicos. Eles são resultado de renúncia fiscal! É dinheiro que deixa de ir para o Tesouro Nacional para ser alocado em projetos privados, para a promoção de marcas comerciais! E com recursos públicos, porque são resultados de renúncia fiscal!

Então, essa legislação de renúncia fiscal e de incentivo à cultura que existe no Brasil, ela precisa ser profundamente revista, porque ela não transforma o empresário num patrocinador da cultura. Eu acho, portanto, que há muito o que fazer, há muito o que desenhar sobre esses projetos culturais, mas particularmente com relação aos museus eu acho que, desde já, é hora de nós convocarmos o seminário nacional quadrienal de museus de arte.


Cacilda Teixeira da Costa: (historiadora da arte) Quero falar de uma pesquisa sobre os livros patrocinados por empresas. Passei dois anos rastreando tudo que foi possível dessa produção editorial (pesquisa publicada pelo Instituto Itaú Cultural). E para a grande surpresa, desses livros -que, como o disse Paulo Sergio, não são patrocínios, é renúncia fiscal, é dinheiro público- eu não consegui dado nenhum no Ministério da Cultura! Portanto, eles liberam o selo da lei Rouanet para as empresas, mas não tomam o cuidado nem de saber que livro foi feito. Eles não têm no Ministério uma estante com os livros que foram patrocinados, para ver qual foi o resultado da renúncia fiscal, que foi liberada por eles!

Na verdade, o que eu senti, e que foi a maior surpresa ainda, é que havia maior nível de responsabilidade da parte dos patrocinadores, dos empresários, que lógico que uma grande porcentagem faz livros errados, repetidos, desnecessários, mas porque se orientaram mal, talvez, não por negligência. Enquanto no Ministério da Cultura há uma total negligência, eu chegava a irritar as pessoas quando pedia informações. Depois, eu publiquei um livro sobre essa pesquisa e nunca tive nenhum retorno do Ministério.

Fiz recomendações, como disse a Sonia, que houvesse um controle, que vissem o que vai ser patrocinado, que vissem que a bibliografia da história da arte no Brasil tem lacunas, tem períodos mal estudados. Mas o Ministério da Cultura nunca orientou ninguém a esse respeito.


Sonia Salzstein: A situação, especialmente em São Paulo, as instâncias técnicas dos museus estão totalmente desprestigiadas, têm muito pouca capacidade decisória. Isso é um problema que se impõe. Acho que o Paulo Sergio tem a sorte de trabalhar numa cidade que não se deixou avassalar por essas estratégias brutas e incultas de mercado, você tem uma outra experiência da cidade com as suas instituições públicas.

Lá tem um fenômeno maravilhoso: a despeito da penúria, você tem muito claramente posto o dado de que as instituições foram produtivas porque houve pessoas que emprestaram a sua libido. Então, está muito ligado a essa capacidade de ação de indivíduos. A situação em São Paulo tende a abafar essa eclosão das vontades individuais. A situação institucional aqui é muito mais autoritária.


Paulo Sergio Duarte: Em São Paulo existem duas instituições que têm muito bem desenhados os marcos de um museu de arte para prosperar e servir de exemplo para o país. No âmbito federal, o Museu Lasar Segall e, no âmbito estadual, a Pinacoteca do Estado. Eu não reconheço na situação atual do Rio de Janeiro (...) é porque você, Sonia, não tem visto nossas exposições "blockbuster". Em geral, começam lá. Depois vêm pra cá. Pode anotar que começam lá, sempre. É um desastre.

Ana Paula Cohen
É curadora independente e crítica de arte. Foi assistente da curadoria no Museu de Arte Moderna de São Paulo, durante a gestão do diretor Ivo Mesquita. Em 2003, trabalhará como curadora assistente no Kunstverein München, em Munique.

 
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