CINEMA
O viajante Bernardo Vorobow, por Walter Salles
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prosa.poesia
Inéditos

Caverna e outros poemas
Por Heitor Ferraz

Caverna


Alguém poderia argumentar
que o quarto está esvaziado
que somente a luz
e o escuro
poderiam habitá-lo
Que o desenho não é de um rinoceronte
mas que manchas fortes
se parecem com rinoceronte
Uma coisa e outra
o desdobramento de seu duplo
ao longo do muro
Muitos outros seriam os argumentos
provas
e contraprovas
Mas o rinoceronte se alastra
dentro de seu corpo inocente
o rinoceronte preto
de três patas
que nasceu por acaso

04/08/2002

O homem na contraluz


Visto seu impermeável
para chuva
seu chapéu cinza
para chuva
(pois sempre volta a chover)
Não é possível
ressarcir
as vítimas enfadonhas
o corpo cruzado
de um homem morto
dentro de uma geladeira
nem outras imagens
que chegam
até minhas mãos
Sou também estes prédios
que desabam sem remorsos
dentro das calçadas
e são outros
sempre outros
impermeáveis à chuva
Não vi que eram tantos
que voltavam
para o mesmo quarto
com os olhos fixos nos pés

10/08/2002

Não fume


Tudo é novo
não me entusiasma
sequer
esta estrela
sobre o luminoso
do supermercado
Na hora
de fumar
dou a volta inteira
ao prédio
Observo
a luz opaca
dos vidros
nos corredores
de fumantes
Fumam
sem entusiasmo
Reencontro
a mesma estrela
sobre o luminoso
Mais tarde
quando voltar
a fumaça aflita
entre dois
prédios
ela já terá sumido
afastando-se
do luminoso
não, sim
do supermercado

22/08/2002


Heitor Ferraz
É poeta, autor de "Hoje Como Ontem ao Meio-Dia" (ed. 7 Letras) e "Resumo do Dia" (Ateliê).

 
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