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prosa.poesia
INÉDITO
Namoro zen Ali, a Mata Atlântica, que o povo cisma em invadir. No fundo, as chaminés da Petroquímica Antônia e Negão estão sobre a laje da casa dele. Antônia: Foi no alto da Catarina… Negão: O quê? Antônia: Cê não perguntou como é que foi? Minha primeira vez? Negão: Ah! Negão pega o cigarro da mão de Antônia, dá uma tragada, deita na laje e fica olhando o céu. Uns pássaros ficam voando o tempo todo… Negão: Será que é urubu? Antônia: A gente fumava um baseado. Quer dizer, ele fumava. Eu não. Negão: Lá na Catarina? Antônia (fazendo que sim com a cabeça): Lembra aquele dia em que passaram a família toda do Zé? Mulher, filhos, tudo? Negão: Dívida de cadeia… Antônia: A gente viu tudo de lá de cima. Quietinho. Foi o tempo de dizer "abracadabra". Negão: Cê tem cada uma! Antônia: Te juro. Os caras chegaram em dois. Brecaram o carrão na entrada do beco. Desceram zarpando até a casa do Zé. Um mandou o pé na porta, o outro entrou metralhando. No mesmo pé voltaram, entraram no carro e sumiram na curva. Negão senta-se, joga o cigarro do alto da laje. Ele voa no nada, como que misturando com os pássaros. Negão: Coitados… Antônia: Coitados… Antônia volta-se para Negão. Antônia: Cê nunca me deixa fumar em paz. Vira de costas para ele. Acende outro cigarro. Traga com prazer e solta a fumaça devagarzinho... O dia está lindo, claro, nítido. Paisagem bonita, lá do alto da laje... De um lado a Mata Atlântica, área de manancial que o povo cisma em invadir, cada vez mais. Do outro, as casinhas de tijolo vermelho da favela. Lá no fundo, bem longe, as enormes chaminés da Petroquímica soltando fumaça. Parece uma ferida na terra. Respira fundo. Negão: Cê num vai me contar? Antônia: Já contei tudo. Negão: Quando e onde não é a mesma coisa que tudo… Antônia: Você é ciumento… Antônia volta-se para Negão. Antônia: Me dá um beijo. Negão faz carinho em Antônia. Desliza os dedos pelo seu pescoço, lentamente, até os seios. Negão (baixinho): Não dou. Antônia: Você prometeu! Negão: Falta contar se você gostou. Antônia se irrita. Levanta-se. Antônia: Gostei. Pronto. Gostei. E daí? Negão: Não devia. Antônia: Você é besta. Negão: É tu. Os dois ficam parados, olhando a Petroquímica desenhando a fumaça no céu. Tata Amaral
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