Obra de João Filgueiras Lima traz as tensões da modernização de um país periférico
A arquitetura moderna brasileira constituiu um objeto arquitetônico peculiar dentro da tradição moderna, no qual vão aflorar suas mais contundentes aporias. Por tratar, no limite, de radicais formulações modernas originais, esse objeto peculiar as completa e esclarece, e não abre mão da filiação. Mantém funcionando ainda um sistema que nos últimos 30 anos aparece como superado (o projeto moderno). Mas uma análise mais detida pode aproximar isso -que pode ser considerado o "capítulo conclusivo" da modernidade cultural- desse ressurgimento, espetacular, da forma arquitetônica na produção contemporânea internacional.
Em sua versão hegemônica, e mais prolífera, a arquitetura brasileira moderna decantou o programa moderno no desenho de edifícios que recusam o diálogo com o meio urbano a que a princípio deveriam responder. Por certo uma crítica ao caos da grande cidade brasileira, essa arquitetura formulou ora uma negação completa, ora uma introjeção indesejável dos mecanismos mais irracionais da produção urbana. Por enquanto será suficiente considerar que a grande arquitetura brasileira do século 20 pretendeu opor um objeto arquitetônico à textura fragmentada e violenta dessas cidades, ainda que faça parte dessa lógica perversa -a produção de cidades na periferia do capitalismo- a excepcionalidade e a absorção produtiva dos contrários.
Apesar dos inúmeros pontos de aproximação entre a obra de Oscar Niemeyer e Vilanova Artigas, um aspecto as distancia, a saber: enquanto o primeiro isola seu objeto sobre um fundo -paisagem natural exuberante ou caos urbano interrompidos por clareiras-vazios-, o segundo ocupa o retângulo estabelecido a priori, na divisão injusta da terra, para objetá-la numa contra-lógica intramuros.
O volume resultante, muitas vezes a extrusão da área do terreno disponível, instaura relações antagônicas com o entorno. Para isso corroboram o contraste entre os materiais, o novo programa e a clareza construtiva que não ameniza na forma arquitetônica as contradições do processo de produção ao qual a arquitetura está submetida.
O primeiro mais diretamente -como podemos verificar no Memorial da América Latina (1987) ou no Museu de Niterói (1996)- e o segundo de uma forma ambígua e contraditória -como se verifica no edifício da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo de São Paulo (1961-69) e na série de residências- vão acabar por resumir a ação moderna à constituição de um objeto arquitetônico único. Seu potencial simbólico -do qual a arquitetura moderna quis em vão se afastar- será explorado pelas circunstâncias sociais de diferentes maneiras e em diferentes tempos. Outras vezes esses "objetos modernos" a princípio distintos vão se sobrepor, já que têm como matéria aspectos de um mesmo problema -a modernização "conservadora" que o país adotava e os seus impasses.
Não é esse o tema deste texto. Mas definir uma certa "condenação" ao objeto por parte da arquitetura brasileira, como realização final do programa moderno reificado, é fundamental. Não basta acusá-la de formalista, de desvio etc., se não se acrescenta a essa crítica um sentido histórico, a ser encontrado nas mais profundas ambigüidades do movimento moderno original, da qual é, nesse sentido, o grande acerto.
Tais ambiguidades cristalizam-se nas soluções construtivas alcançadas e esclarecem-se a partir de uma análise criteriosa desses objetos. Talvez o lugar mais evidente onde esse processo ocorreu -a matriz da arquitetura moderna brasileira estabelecida essencialmente por Oscar Niemeyer- não seja o único material para explorar tais ambiguidades. O mais camuflado, diga-se de passagem; e é hegemônica exatamente por isso: anula na aparência as ambiguidades do processo que ajuda a formalizar.
O exemplo mais claro dessa assimilação incompleta é a obra arquitetônica e teórica de Lúcio Costa, ao mesmo tempo mentor dessa matriz e seu crítico indireto. Em sua obra encontram-se caminhos entreabertos, e que ele sabia não poder trilhar dentro da conjuntura conturbada a que respondia. Por sobre essas contradições, indica como síntese última da arquitetura moderna brasileira a obra do próprio Oscar Niemeyer. Mais que isso, tomou providências para que o talento inequívoco de seu discípulo para a composição moderna se consolidasse como a versão definitiva da arquitetura moderna brasileira.
Sua obra, porém, encaminha outras questões e evita outras tantas, formulando uma arquitetura em grande medida oposta à do discípulo predileto. E é também Lúcio Costa quem joga luz sobre os desdobramentos dessa arquitetura quando, nos anos 80, diz, ao saudar um dos mais notáveis frutos dessa modernização arquitetônica, o arquiteto João Filgueiras Lima, dito Lelé: "Era o elemento que estava faltando para preencher grave lacuna no desenvolvimento da nossa arquitetura".
Seria Lúcio Costa a aperceber-se, passadas décadas, dos problemas gerados por aquela arquitetura que ele aderira entusiasticamente nos anos 40 -de forte caráter inventivo e em busca exclusiva da beleza das formas de concreto? Porque, ao ressaltar as características da obra de Lelé ("voltado para a tecnologia construtiva do 'pré-moldado', enfrenta e resolve de forma racional, econômica e com apurado teor arquitetônico os mais variados e complexos desafios que o mundo social moderno programa e impõe") explica, por oposição, a "grave lacuna" a que se referira: o afastamento do caráter construtivo e a ausência de programa social da arquitetura brasileira.
Como essa "síntese" não se disseminou (o aspecto construtivo da arquitetura, o programa social e a "arte") podemos, seguindo nossa hipótese inicial, concluir que a obra de Lelé, por tampouco sublimá-la, possui tensões não resolvidas, o que permitiria uma verificação, digamos, mais didática, dos conflitos existentes na modernização arquitetônica de um país periférico. Em tempo: essa lacuna jamais poderia ser preenchida, e a obra de Lelé é um ensaio sobre tal impossibilidade.
Coisas inesperadas
O salto modernizante brasileiro em tudo se distingue de sua origem agrária, escravocrata e colonial. Mas funcionou muito bem, tendo em vista o resultado: destaca-se entre os maiores crescimentos industriais do século 20 em todo o planeta, senão o maior. Desarraigado e bem sucedido, sempre aparece como fruto do acaso.
Assim, a conversão de Lúcio Costa aos princípios da Nova Arquitetura, superando seu passado neocolonial, a solução do projeto fundante do Mesp, a própria modernização arquitetônica, sempre vem acompanhada de pequenas e grandes coincidências. E é assim que o arquiteto João Filgueiras Lima reforça o mito e explica sua trajetória profissional: uma série de acasos, desde a escolha pela arquitetura, o encontro com Oscar Niemeyer, o acidente de automóvel que fez com que tomasse contato com a vida hospitalar por dois meses etc.
Passos fundamentais, para quem conhece a sua obra, recheados de "coisas inesperadas". E foi essa falta de programação que o levou, recém-formado, a ser um "construtor" em Brasília em 1957. Sua vocação para as artes plásticas não impediu que se envolvesse, sem nenhum preparo mais específico, com os problemas da construção e da engenharia civil.
A pressa (a cidade foi construída em três anos) e a necessidade de alojamentos provisórios fez com que buscasse as primeiras soluções de pré-fabricação em concreto. Fundações, tubulões, instalações, traço do concreto, nada disso fazia parte de suas aptidões, mas são a base da pesquisa das técnicas de construção que vão caracterizar o seu trabalho a partir dessa experiência.
Um primeiro contraste: na cidade dos palácios exuberantes e excepcionais cuidou, na primeira fase, das técnicas da construção. Desde a construção dos alojamentos, da infra-estrutura e das superquadras -tudo a exigir regularidade, precisão, economia e adequação- até os grandes edifícios (Ministério da Justiça, do Exército, o Congresso Nacional etc.) -cujos aspectos construtivos são volta e meia criticados. E nesse confronto (as soluções construtivas da regularidade e da excepcionalidade, herdadas em parte da lição corbusiana) vai amadurecer sua obra a partir da segunda metade da década de 60, quando viajou para os países do Leste Europeu a fim de conhecer as técnicas de pré-fabricação da construção, base dos programas de habitação social do "comunismo real".
Sediado em Brasília durante a ditadura militar, onde poderia exercitar os novos conhecimentos adquiridos? Leal servidor público (como o foram boa parte da intelligentsia do país, independente do grau de autoritarismo que invariavelmente acompanhou a frágil república brasileira a que serviram), terá como encomendas em Brasília: residência para ministros de Estado (1965), sede de uma distribuidora Volkswagen (1965), da Ford (1972), o Hospital da cidade satélite de Taguatinga (1968), o edifício da Portobrás (1974), os edifícios da Camargo Corrêa (1974) e algumas ilustres residências. Em Salvador: as Secretarias do Centro Administrativo da Bahia (1973), seu centro de exposições (1974) e sua igreja (1975).
A relação com Salvador se aprofundará a partir da segunda metade dos anos 70, onde passa a morar e a desenvolver seus principais projetos. Nesse primeiro momento -Brasília- não será mera coincidência essa tríade que foi responsável pela aceleração da modernização brasileira: o Estado, as montadoras de automóveis e as grandes empreiteiras.
A arquitetura brasileira do período tratou de dar forma a esse desconfortável arranjo: autoritarismo e crescimento (o "milagre econômico" promovido pela ditadura militar na primeira metade dos anos 70). O que distingue sua obra é que nela o princípio moderno mais fiel ao programa construtivo original -a estandardização- resiste e se choca com a realidade do país.
Nesse período, a obra de Lelé -o mais importante arquiteto pesquisador da pré-fabricação no Brasil- não se diferenciava, aparentemente, dos temas gerais da arquitetura feita no país: o cliente estatal, o concreto, o grande vão, orçamentos generosos etc. A não ser por sua insistência em desenvolver componentes pré-fabricados e a preocupação com as questões relativas ao conforto térmico das edificações (temas que, quando muito, faziam parte da retórica da arquitetura do período, raramente atingindo os projetos).
O plano corbusiano
Os grandes edifícios tornaram-se então um laboratório possível para a pesquisa dos elementos construtivos modulares. Isso ocorreu ainda que a pré-fabricação tenha o sentido da repetição em larga escala para a diminuição dos custos da produção e quase sempre ligada à demanda crescente pela habitação social (cuja experiência moderna pioneira foi o "fordismo" da arquitetura alemã dos anos 20). Por que pré-fabricar componentes de um edifício único e grandioso -em que as questões de custo, principalmente naquele período, não se colocavam- a não ser como experimentação de novas tecnologias para um programa mais apropriado, num futuro próximo?
Quem tiver dúvidas a esse respeito, é só conferir a produção dos dois outros mais importantes arquitetos do período, já citados, Oscar Niemeyer e Vilanova Artigas. Para este último, as marcas da tecnologia rudimentar utilizada, impressas no concreto (as fôrmas de madeira imprecisas), eram mesmo denúncia social. Ou seja, a ausência de pré-fabricação e a utilização de mão-de-obra semiqualificada na construção adquiriam conotação política no acirramento dos conflitos ideológicos durante a ditadura militar.
O esquema é paradoxal: estandardização e eloquência. Uma rápida lembrança de Le Corbusier -matriz definitiva da arquitetura moderna brasileira- pode ajudar o raciocínio. Esse arquiteto contava com a teatralidade da paisagem urbana para destacar eixos e monumentalidade, bom aluno da lição francesa. Não existe edifício corbusiano que não esteja articulado à hipótese do plano urbano, donde retira sua expressão. No nível do pedestre e dos caminhos, as grandes lâminas verticais (horizontalizadas no conjunto) se articulam a embasamentos e anexos nos quais a diversidade formal e a surpresa dão o tom.
Todos os timbres necessários são acionados para a orquestração urbana final da cidade do plano corbusiano. Mesmo considerando Brasília uma cidade da Carta de Atenas (exemplo raro e que não fornece elementos para se pensar as grandes cidades brasileiras), isso não foi suficiente para nossa arquitetura considerar o conjunto urbano. Nem como cidade real -à qual modernamente nos contrapusemos- tampouco como Plano -do qual nos aliviamos na transposição moderna. Exigimos do edifício, portanto, toda expressividade necessária à grande arquitetura.
1 - Arantes, Otília. "Urbanismo em Fim de linha". São Paulo: Edusp, 1998. Especialmente o capítulo "Do universalismo moderno ao regionalismo pós-crítico".
2 - Além do incentivo dado por Lúcio Costa no desenvolvimento do projeto do Mesp, de risco corbusiano, em 1936, o convite a Oscar Niemeyer para dividir o encargo recebido da construção do pavilhão brasileiro da Feira Internacional de Nova York, em 1939, é marco definitivo para a consolidação da linguagem moderna brasileira, plenamente estabelecida no projeto de Oscar Niemeyer para a Pampulha, em 1942.
3 - "João Filgueiras Lima - Lelé". São Paulo: Ed. Blau e Instituto Lina Bo Bardi, 2000.
4 - Arantes, Otília. "O Esquema de Lúcio Costa". “Block 4” (Buenos Aires: Universidad Torcuato Di Tella, 1999).
5 - Um exemplo conhecido é o Palácio da Alvorada, de Oscar Niemeyer, que parece pousar suavemente no serrado do Planalto Central, graças às delgadas colunas conhecidas no mundo inteiro. Lelé defende a idéia que as robustas colunas internas que quase transformam as famosas colunas externas em mero ornamento, seriam desnecessárias se as condições de cálculo e construtivas fossem mais adequadas. De qualquer forma, diz que os projetos chegavam do Rio de Janeiro praticamente sem detalhes construtivos, e o seu papel, delegado por Oscar Niemeyer, era "ir resolvendo as coisas" na obra.
6 - Isso, supondo que esses sistemas construtivos tenham um custo menos elevado, o que parece não conferir com a realidade, já que foram pouco utilizados comercialmente. A criação de um sistema para a construção de um ou dois edifícios torna-se economicamente inviável, já que os custos do desenvolvimento tecnológico não podem ser amortizados pela repetição.
7 - Uma exceção de destaque quanto ao desenvolvimento de pré-fabricação para programas sociais foi o projeto construído do conjunto habitacional Cecap "Zezinho Magalhães Prado", de Vilanova Artigas, em 1967. Os governos militares se caracterizaram, no entanto, pela baixa qualidade dos projetos habitacionais realizados pelo Banco Nacional de Habitação.