CINEMA
O viajante Bernardo Vorobow, por Walter Salles
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No caso de Lelé, o paradoxo avança ao enfrentar a questão da pré-fabricação, mesmo que estejamos falando em excepcionalidades arquitetônicas, símbolos claros do jogo social em andamento. Ao contrário de destacar os anexos, à maneira de Le Corbusier, Lelé promoverá uma simbiose entre a lâmina composta de elementos pré-fabricados e o embasamento de grande vão, moldado in loco.

O resultado é um conjunto grandiloqüente, que, ao mesclar sistemas construtivos, monumentaliza o tipo -de que empresta racionalidade e funcionalidade. O esquema alcança o paroxismo nas residências para Ministro de Estado (1965) e José da Silva Netto (1974). As questões da modulação reduzem-se, nesses exemplos, às vigas e lajes transversais únicas, subordinadas às duas grandes vigas que, tanto em altura como em largura, contemplam praticamente todo o programa do edifício.

Mas a insistência, mesmo que deslocada, nesse ponto de vista tecno-construtivo vai permitir que ele promova um salto qualitativo em sua obra a partir dos anos 80, exatamente os anos da grande crise do que se convencionou chamar de Arquitetura Moderna Brasileira.

Enquanto que no centro-sul os arquitetos aprofundavam a pesquisa em torno dos resquícios ideológicos da "escola paulista" e "carioca", alguns arquitetos, oriundos dessa tradição, tomaram um caminho mais autônomo em busca de novas técnicas de construção e de adaptação ao clima tropical do país e suas variações.

Além de Lelé, que foi para a Bahia, outro exemplo de destaque é Severiano Porto, que se instalou no Norte do país. E é dessa sutil dissensão que vão surgir os exemplos mais renovadores da arquitetura brasileira a partir da redemocratização do Brasil, justamente no momento em que a crise de seu programa moderno é mais patente. Estamos falando de um desdobramento dentro dos princípios originais da arquitetura moderna brasileira, porque novas influências aparecerão também nos anos 80, só que vindas de renovações de fora. Uma, mais discreta, ligada à arquitetura européia do "lugar" (Itália, Espanha e Inglaterra, por exemplo); e outra, ligada ao "new international style" difundido pelos EUA nos anos 80 e 90.

Na Bahia, Lelé pôde objetivar seus conhecimentos construtivos num leque mais amplo de possibilidades. Devido às condições topográficas, econômicas e construtivas, seus elementos pré-fabricados ficaram mais leves, de mais fácil manuseio em circunstâncias desfavoráveis, como a implantação em morros (muitas peças podem ser mesmo carregadas pelos trabalhadores, facilitando o acesso e a montagem).

Iniciou a pesquisa da argamassa armada em 1978, que, apesar da menor espessura, possui as qualidades de resistência e conservação similares ao concreto armado, que fora a base da pré-fabricação pesada utilizada no Centro Administrativo da Bahia (1973). O resultado desse pragmatismo é que sua arquitetura ficou mais leve, mais diferenciada, mais próxima dos diversos problemas -quase sempre "sociais", por assim dizer- que procura resolver.

Sistemas construtivos mais fechados se adaptaram às escolas, repetidas em vários exemplares, como a Escola Primária Estadual Oswaldo Cruz, em Salvador. No projeto dos Ciacs (Centro Integrado de Ensino, de 1990), apesar da visibilidade causada por uma situação política constrangedora, Lelé se recusava a ver nele um projeto de edifício, mas, antes, um processo de construção racional que levasse em conta as diferenças regionais, inclusive a construção em locais desfavoráveis como as favelas.

Criou várias famílias de componentes infraestruturais de drenagem, contenção de taludes, escadas (Salvador é cidade de relevo acidentado, principalmente quando se trata de ocupações e favelas), mobiliário urbano, passarelas etc. Poderíamos dizer, comparando com a sua fase de Brasília, que a arquitetura de Lelé se suaviza, desmonumentaliza e populariza. Boa parte de seu trabalho nem se dirige à criação de "objetos arquitetônicos" da tradição moderna brasileira (nos termos da introdução deste trabalho), mas sim às mais diferentes inserções da atividade do arquiteto em relação ao conjunto de problemas de uma grande cidade.

No trabalho em que colaborou com a arquiteta Lina Bo Bardi para a recuperação do Centro Histórico do Pelourinho, não existia "arquitetura" propriamente dita (no sentido dessa tradição moderna), mas sim uma intervenção preservando a diversidade de um centro urbano a ser recuperado devido à sua importância histórica, cultural e social. Se posteriormente esse conjunto foi "espetacularizado" para o turismo, isso trai as aspirações originais desses arquitetos. Lelé mostrou-se à vontade no trabalho de arquitetura, mesmo quando o "objeto" arquitetônico se diluía numa intervenção mais complexa. Suas intervenções fazem parte, diluídas, da paisagem de Salvador.

Nesses casos descritos acima, a solução arquitetônica final está sempre submetida à lógica do sistema construtivo desenvolvido, e não o contrário, como fazem crer boa parte dos trabalhos com sistemas de pré-fabricação experimental realizados no país e a própria obra anterior desse arquiteto. Mas o recente destaque obtido por Lelé em eventos internacionais, como a premiação na Bienal de Arquitetura de Buenos Aires e a participação na Bienal de Veneza (2000), deve-se, provavelmente, à série de projetos para a Rede Sarah Kubitschek de hospitais que vem realizando com amplo sucesso.

Nesses projetos complexos a experiência anterior com o Hospital de Taguatinga (1968) vai se transformar aprofundando a preocupação com a humanização e acessibilidade dos espaços, o conforto ambiental e a diversificação da pré-fabricação. O sistema construtivo se abre, possibilitando que se somem aos componentes de argamassa armada novos elementos metálicos.

A seqüência laje-"shed" de argamassa é abolida na cobertura por uma estrutura metálica mais leve e contínua, formando as ondulações que vão caracterizar o conjunto. O sistema natural de refrigeração através de captação do ar por galerias, sugado pelos "sheds" para o exterior, permite o plano horizontal extenso que a circulação para deficientes exige.

A ondulação do conjunto é acentuada por elementos únicos de maior escala, como as marquises, os grandes arcos metálicos que filtram a luz nos saguões etc. Essas ondulações, livres, mas regulares, podem ser responsáveis pelo sucesso dos projetos nas mostras de arquitetura. É como se as conhecidas curvas da arquitetura brasileira adquirissem um sentido, diríamos, mais arquitetônico.

É impossível não compará-las às curvas dos projetos de Oscar Niemeyer, anunciadas como leves, mas feitas em concreto armado, e cujo objetivo é mimético e direto (nem climático nem estrutural): "As curvas da mulher amada e as montanhas de meu país". As curvas da arquitetura de Lelé "tropicalizam", no sentido preciso, a tradição brasileira da curva na arquitetura -de exclusivo caráter ideológico. Não se livra dele totalmente.


Pré-arquitetura e arquitetura

A obra de Lelé deve ser entendida no conjunto da herança moderna brasileira, ao lado, hoje, de Oscar Niemeyer, Paulo Mendes da Rocha etc. O que estamos dizendo é que, em relação a esses arquitetos, logrou um caminho mais fértil, mais amplo, justamente por ter se voltado a questões modernas que foram abandonadas pelas pesquisas desse outros colegas: a racionalização das técnicas e a industrialização dos componentes construtivos; a tentativa, através da pré-fabricação de elementos infraestruturais, de melhorar as condições urbanas de saneamento e circulação; a busca de soluções climáticas mais apropriadas às condições brasileiras e, finalmente, a elaboração de programas sociais (escolas, creches, hospitais etc.) vinculados a sistemas construtivos que, a princípio, dotaram esses edifícios de boa arquitetura com custo baixo.

As dificuldades, e facilidades, desses projetos serem implementados em Salvador, primeira capital do Brasil colônia (1549-1763) e foco das relações sociais e políticas mais conservadoras do país (e antidemocráticas), deve ainda ser analisado oportunamente (pode-se ter aí não um paradoxo, mas uma causa). Exatamente nesse lugar, fora dos centros industrializados do Sudeste, logra-se quase uma "arquitetura", em contraposição à uma quase "pré-arquitetura" que a tradição moderna instaurou entre nós (gesto grandiloquente de uma idéia-força, mas que não adquire sentido de utilização, de espaço social).

Mas estamos ainda dentro dos paradoxos dessa tradição moderna. E como tal, registra fortemente um caráter antiurbano e anti-social (deste último, Lelé se livrou em parte, por esforço pessoal). Entre uma arquitetura -sem "objeto", mas arquitetura- das intervenções urbanas das passarelas, contenções, escadarias nos morros, calçamentos etc., e os grandes complexos hospitalares, geralmente em grandes e distantes terrenos, não conseguimos um acontecimento urbano arquitetônico síntese.

Uma ótima oportunidade de explorar a inserção dessa arquitetura no meio urbano consolidado foi perdida, com a construção da sede da Prefeitura de Salvador (1986). Encravada na parte alta da cidade colonial, esse "objeto" busca o vazio. Ao lado do elevador Lacerda tendo como pano de fundo o mar, descuida da implantação quando se olha para o casario histórico vizinho, seu ritmo de cheios e vazios, de construções e espaço público. Esta crítica não defende uma espécie de contextualismo histórico, mas sim, um sentido urbano -nesse caso, de espaço público- aversão do qual, essa arquitetura presa à nossa tradição moderna, não conseguiu se livrar.

De acordo com o arquiteto, esse edifício é desmontável (estrutura metálica). Talvez, portanto, seja provisório, e esse espaço -único na cidade plena de "lugares"- vá ser um dia transformado a partir de um sentido novo, urbano e social, do qual, essa arquitetura de Lelé -tendo rompido já diversos preconceitos- poderia ter sido a pioneira (nada o indica, até o momento). Mais: implica certo desentendimento, ao contrário de Oscar Niemeyer, este sim, intérprete quase que exclusivo (cuja longevidade profissional atesta) dos anseios anti-sociais do status quo brasileiro.


Publicado em 18/9/2003

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Luiz Recamán
É arquiteto, professor da faculdade de arquitetura da Escola de Engenharia de São Carlos da Universidade de São Paulo e doutorado em filosofia pela USP.

1 - Denominação inadequada, que serve aqui apenas para localizar os trabalhos de Vilanova Artigas e seus epígonos paulistas e de Oscar Niemeyer no Rio de Janeiro.


2 - Com a decadência da arquitetura moderna entre nós, durante os anos 80 e 90, os arquitetos voltados à arquitetura de grandes edifícios comerciais encontrarão abrigo e inserção nessa voga internacional, tentando fazer uma transição ideológica, sob todos os aspectos suspeita.


3 - Esse projeto foi realizado e utilizado politicamente pelo Governo Collor, que haveria de sofrer um processo de impeachment por corrupção. Foi, no entanto, uma decorrência do projeto dos Cieps, no Rio de Janeiro, feito por Oscar Niemeyer e idealizado pelo antropólogo Darcy Ribeiro. Partem ambos da idéia de um centro para jovens carentes, que integre diferentes atividades além do ensino regular. Conforme a entrevista concedida à arquiteta Maria Pronin, não publicada.


4 - A partir do Hospital Sarah Kubitschek de Brasília (1980), foi construída uma nova série com novas tecnologias: o Hospital (1991) e o Centro de Tecnologia da rede em Salvador (1992), em Fortaleza (1991), em Belo Horizonte, em Brasília o Centro de Apoio ao Grande Incapacitado Físico e a ampliação da rede em Brasília (1995). De forma análoga, caracterizando a mais recente fase do arquiteto, foram construídas as sedes do Tribunal de Contas da União em Salvador (1995), em Natal (1996), em Sergipe (1997), em Belo Horizonte (1997), em Maceió (1997), em Teresina (1997), em Cuiabá (1997) e em Vitória (1998).

 
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