|
busca
nos arquivos
|
1
prosa.poesia
LANÇAMENTO
A morte de Dolguchov "Maria", publicado pela Cosac & Naif, reúne uma peça e cinco contos do ucraniano Isaac Bábel A barragem de fogo fechava-se sobre a cidade. Ao meio-dia, Korochayev, o desacreditado comandante da IV Divisão, que lutara sozinho, buscando a morte, passou como um raio por nós, envolto numa capa preta. Gritou perto de mim: - Nossas comunicações foram interrompidas. Radziwillów e Brody estão em chamas. Com a capa flutuando em torno dele, sumiu a galope –negro da cabeça aos pés; suas pupilas pareciam carvões ardendo. As brigadas reorganizavam-se na planície. O sol caminhava através de uma névoa púrpura. Os feridos estavam comendo nas trincheiras. Enfermeiras, deitadas na relva, cantavam suavemente. Os batedores de Afonka procuravam mortos e equipamento no campo. O próprio Afonka passou a cavalo e disse: – Estamos levando na cabeça, tão certo como dois e dois são quatro. Acho que o comandante da IV Divisão será punido. Os homens não são fáceis. Os poloneses haviam alcançado a f1oresta, a cerca de três verstas, e colocado suas metralhadoras em algum lugar perto de nós. Balas começaram a silvar, um ruído insuportável. Batiam na terra revolvendo-a, vibrando. Vytyagaychenko, o comandante do regimento, que dormia ao sol, roncando, gritou no seu sono e acordou. Montou e cavalgou em direção ao esquadrão de reconhecimento. Seu rosto estava amarrotado, marcado de linhas vermelhas, devido a sua dormida desconfortável. – Filho da puta desgraçado! –gritou furioso e cuspiu um caroço de ameixa. – Que confusão infernal! Levanta o estandarte, Timoshka! – Vamos nos mexer, hein!? –disse Timoshka, soltando a haste presa no estribo e desenrolando o estandarte com a estrela e o dístico da Terceira Internacional. – Vamos ver o que está acontecendo lá –disse Vytyagaychenko. Subitamente gritou: – A cavalo, meninas. Comandantes de esquadrão, juntem seus homens! Os corneteiros deram o toque de alerta. Os esquadrões formaram-se em uma coluna. Um ferido saiu de uma vala, arrastando-se, e disse a Vytyagaychenko, cobrindo o rosto com a mão aberta: – Taras Grigoryevich, falo por delegação de todos. Parece que vamos ser deixados para trás... – Cuidem de si mesmos –murmurou Vytyagaychenko, fazendo seu cavalo recuar. – Tenho a impressão de que não podemos cuidar de nós, Taras Grigoryevich –disse o ferido. Vytyagaychenko retrucou: - Pára de choramingar. Não vou deixá-los para trás. –E ordenou aos cavalarianos que se preparassem. Logo soou a voz lamurienta e feminina do meu amigo Afonka: – Para que tanta pressa, Taras Grigoryevich? São cinco verstas a percorrer. Como vai lutar se os cavalos estiverem estafados? Há tempo de sobra, que diabo! – A passo! –comandou Vytyagaychenko. O regimento partiu. – Se o que penso do comandante da divisão está certo –disse Afonka, fazendo uma pausa– e ele for punido, as coisas vão ser um pouco diferentes. Você verá. Lágrimas vieram aos seus olhos. Olhei para ele com grande surpresa. Então Afonka fez seu cavalo girar, ajeitou o boné, bufou, soltou o grito de guerra dos cossacos e partiu a galope. Grishchuck, com sua carroça, e eu ficamos até o entardecer entre duas muralhas de fogo. O Estado-Maior da Divisão sumira, e as outras unidades não queriam saber de nós. Os regimentos entraram em Brody e foram rechaçados num contra-ataque. Fomos até o cemitério da cidade. De trás de uma lápide apareceu um batedor polonês, que colocou a culatra do rifle no ombro e abriu fogo sobre nós. Grishchuck deu meia-volta, as quatro rodas da sua carroça rangendo. – Grishchuck –gritei por entre o zunir das balas e do vento. – Que brincadeira –ele respondeu tristemente. – É o nosso fim –gritei, dominado por violenta excitação–, é o nosso fim, meu velho. – Para que as mulheres se dão a tanto trabalho? –ele perguntou ainda mais lamentoso. – Para que querem elas noivados e casamentos e amigos para alegrar no dia das bodas? Um rastro rosado iluminou o céu e novamente se extinguiu. – Só rindo –disse Grishchuck tristemente, apontando com o chicote para um homem sentado à beira da estrada. – Só rindo... As mulheres se dando a tanto trabalho... O homem sentado era Dolguchov. Ele nos olhava fixamente, as pernas abertas. – Me pegaram –disse, quando nos aproximamos. – Entenderam? – Sim –disse Grishchuck, detendo os cavalos. – Vão ter que desperdiçar um cartucho comigo. Ele estava inclinado, apoiado numa árvore, as botas para a frente, separadas. Cautelosamente, sem tirar os olhos dos meus, levantou a camisa. Sua barriga havia sido rasgada. As entranhas caíam sobre os joelhos, as batidas do coração eram visíveis. – Os polacos vão voltar e fazer seus truques sujos. Aqui estão meus papéis. Você vai escrever e dizer a minha mãe como as coisas aconteceram. – Não –respondi e esporeei o cavalo. Dolguchov colocou as mãos na terra, com as palmas azuis viradas para cima, e olhou-as desconfiado. – Fugindo, hein? –murmurou, deitando-se. – Muito bem. Fuja então, seu porco. O suor descia pelo meu corpo. As metralhadoras estalavam ao longe, com insistência, cada vez mais rápidas. Emoldurado pelo nimbo do pôr-do-sol, Afonka Bida chegou até nós, galopando. – Estamos dando uma surra neles! –exclamou alegremente. – Ei, o que está havendo aqui? Apontei Dolguchov e recuei meu cavalo a uma pequena distância. Falaram rapidamente. Dolguchov entregou seus papéis ao comandante do esquadrão. Afonka guardou-os em sua bolsa e deu um tiro na boca de Dolguchov. Cavalguei até perto do cossaco. – Afonka –eu disse, com um sorriso forçado–, eu não pude, entendeu? – Saia da minha frente –ele disse, ficando pálido–, ou eu o mato. Vocês, sujeitos de óculos, têm tanta pena de pessoas como nós quanto um gato tem de um rato. Ele armou o percussor do rifle. Afastei-me, fazendo meu cavalo andar lentamente, sem olhar para trás, sentindo o frio da morte às minhas costas. – Ei, você –ouvi a voz de Grishchuck–, deixe de bobagem! – Porco sujo –gritou Afonka–, não vai escapar assim não. Grishchuck me alcançou numa curva da estrada. Não se via Afonka. Ele havia cavalgado em outra direção. – Pois é, Grishchuck, hoje perdi meu melhor amigo, Afonka. Grishchuck pegou uma maçã seca na boléia da carroça. – Coma –disse. – Por favor, coma. O livro: "Maria - Uma peça e cinco histórias", de Isaac Bábel. Traduções de Aurora Bernardini, Homero Freitas de Andrade, Boris Schnaiderman e Rubem Fonseca. Editora Cosac & Naif. 144 págs. R$ 29,00. Isaac Bábel, com tradução de Rubem Fonseca
1
|