CINEMA
O viajante Bernardo Vorobow, por Walter Salles
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prosa.poesia
LANÇAMENTO

A morte de Dolguchov
Por Isaac Bábel, com tradução de Rubem Fonseca

"Maria", publicado pela Cosac & Naif, reúne uma peça e cinco contos do ucraniano Isaac Bábel

A barragem de fogo fechava-se sobre a cidade. Ao meio-dia, Korochayev, o desacreditado comandante da IV Divisão, que lutara sozinho, buscando a morte, passou como um raio por nós, envolto numa capa preta. Gritou perto de mim:

- Nossas comunicações foram interrompidas. Radziwillów e Brody estão em chamas.

Com a capa flutuando em torno dele, sumiu a galope –negro da cabeça aos pés; suas pupilas pareciam carvões ardendo.

As brigadas reorganizavam-se na planície. O sol caminhava através de uma névoa púrpura. Os feridos estavam comendo nas trincheiras. Enfermeiras, deitadas na relva, cantavam suavemente. Os batedores de Afonka procuravam mortos e equipamento no campo. O próprio Afonka passou a cavalo e disse:

– Estamos levando na cabeça, tão certo como dois e dois são quatro. Acho que o comandante da IV Divisão será punido. Os homens não são fáceis.

Os poloneses haviam alcançado a f1oresta, a cerca de três verstas, e colocado suas metralhadoras em algum lugar perto de nós. Balas começaram a silvar, um ruído insuportável. Batiam na terra revolvendo-a, vibrando. Vytyagaychenko, o comandante do regimento, que dormia ao sol, roncando, gritou no seu sono e acordou. Montou e cavalgou em direção ao esquadrão de reconhecimento. Seu rosto estava amarrotado, marcado de linhas vermelhas, devido a sua dormida desconfortável.

– Filho da puta desgraçado! –gritou furioso e cuspiu um caroço de ameixa. – Que confusão infernal! Levanta o estandarte, Timoshka!

– Vamos nos mexer, hein!? –disse Timoshka, soltando a haste presa no estribo e desenrolando o estandarte com a estrela e o dístico da Terceira Internacional.

– Vamos ver o que está acontecendo lá –disse Vytyagaychenko. Subitamente gritou: – A cavalo, meninas. Comandantes de esquadrão, juntem seus homens!

Os corneteiros deram o toque de alerta. Os esquadrões formaram-se em uma coluna. Um ferido saiu de uma vala, arrastando-se, e disse a Vytyagaychenko, cobrindo o rosto com a mão aberta:

– Taras Grigoryevich, falo por delegação de todos. Parece que vamos ser deixados para trás...

– Cuidem de si mesmos –murmurou Vytyagaychenko, fazendo seu cavalo recuar.

– Tenho a impressão de que não podemos cuidar de nós, Taras Grigoryevich –disse o ferido.

Vytyagaychenko retrucou:

- Pára de choramingar. Não vou deixá-los para trás. –E ordenou aos cavalarianos que se preparassem.

Logo soou a voz lamurienta e feminina do meu amigo Afonka:

– Para que tanta pressa, Taras Grigoryevich? São cinco verstas a percorrer. Como vai lutar se os cavalos estiverem estafados? Há tempo de sobra, que diabo!

– A passo! –comandou Vytyagaychenko. O regimento partiu.

– Se o que penso do comandante da divisão está certo –disse Afonka, fazendo uma pausa– e ele for punido, as coisas vão ser um pouco diferentes. Você verá.

Lágrimas vieram aos seus olhos. Olhei para ele com grande surpresa. Então Afonka fez seu cavalo girar, ajeitou o boné, bufou, soltou o grito de guerra dos cossacos e partiu a galope.

Grishchuck, com sua carroça, e eu ficamos até o entardecer entre duas muralhas de fogo. O Estado-Maior da Divisão sumira, e as outras unidades não queriam saber de nós. Os regimentos entraram em Brody e foram rechaçados num contra-ataque. Fomos até o cemitério da cidade. De trás de uma lápide apareceu um batedor polonês, que colocou a culatra do rifle no ombro e abriu fogo sobre nós. Grishchuck deu meia-volta, as quatro rodas da sua carroça rangendo.

– Grishchuck –gritei por entre o zunir das balas e do vento.

– Que brincadeira –ele respondeu tristemente.

– É o nosso fim –gritei, dominado por violenta excitação–, é o nosso fim, meu velho.

– Para que as mulheres se dão a tanto trabalho? –ele perguntou ainda mais lamentoso. – Para que querem elas noivados e casamentos e amigos para alegrar no dia das bodas?

Um rastro rosado iluminou o céu e novamente se extinguiu.

– Só rindo –disse Grishchuck tristemente, apontando com o chicote para um homem sentado à beira da estrada. – Só rindo... As mulheres se dando a tanto trabalho...

O homem sentado era Dolguchov. Ele nos olhava fixamente, as pernas abertas.

– Me pegaram –disse, quando nos aproximamos. – Entenderam?

– Sim –disse Grishchuck, detendo os cavalos.

– Vão ter que desperdiçar um cartucho comigo.

Ele estava inclinado, apoiado numa árvore, as botas para a frente, separadas. Cautelosamente, sem tirar os olhos dos meus, levantou a camisa.

Sua barriga havia sido rasgada. As entranhas caíam sobre os joelhos, as batidas do coração eram visíveis.

– Os polacos vão voltar e fazer seus truques sujos. Aqui estão meus papéis. Você vai escrever e dizer a minha mãe como as coisas aconteceram.

– Não –respondi e esporeei o cavalo. Dolguchov colocou as mãos na terra, com as palmas azuis viradas para cima, e olhou-as desconfiado.

– Fugindo, hein? –murmurou, deitando-se. – Muito bem. Fuja então, seu porco.

O suor descia pelo meu corpo. As metralhadoras estalavam ao longe, com insistência, cada vez mais rápidas. Emoldurado pelo nimbo do pôr-do-sol, Afonka Bida chegou até nós, galopando.

– Estamos dando uma surra neles! –exclamou alegremente. – Ei, o que está havendo aqui?

Apontei Dolguchov e recuei meu cavalo a uma pequena distância.

Falaram rapidamente. Dolguchov entregou seus papéis ao comandante do esquadrão. Afonka guardou-os em sua bolsa e deu um tiro na boca de Dolguchov.

Cavalguei até perto do cossaco.

– Afonka –eu disse, com um sorriso forçado–, eu não pude, entendeu?

– Saia da minha frente –ele disse, ficando pálido–, ou eu o mato. Vocês, sujeitos de óculos, têm tanta pena de pessoas como nós quanto um gato tem de um rato.

Ele armou o percussor do rifle.

Afastei-me, fazendo meu cavalo andar lentamente, sem olhar para trás, sentindo o frio da morte às minhas costas.

– Ei, você –ouvi a voz de Grishchuck–, deixe de bobagem!

– Porco sujo –gritou Afonka–, não vai escapar assim não.

Grishchuck me alcançou numa curva da estrada. Não se via Afonka. Ele havia cavalgado em outra direção.

– Pois é, Grishchuck, hoje perdi meu melhor amigo, Afonka.

Grishchuck pegou uma maçã seca na boléia da carroça.

– Coma –disse. – Por favor, coma.

O livro:

"Maria - Uma peça e cinco histórias", de Isaac Bábel. Traduções de Aurora Bernardini, Homero Freitas de Andrade, Boris Schnaiderman e Rubem Fonseca. Editora Cosac & Naif. 144 págs. R$ 29,00.

Isaac Bábel, com tradução de Rubem Fonseca
Isaac Bábel, um dos maiores autores em língua russa do século 20, nasceu em Odessa, na Ucrânia, em 1894, descendente de judeus. Foi executado em 1941, na Sibéria, acusado de trotskismo. Uma de suas obras mais celebradas, "Cavalaria Vermelha", de 1926, está sendo traduzida por Aurora Bernardini e Homero Freitas de Andrade para a Cosac & Naif.

Rubem Fonseca nasceu em Juiz de Fora (MG), em 1925. Vive no Rio de Janeiro. Foi um dos renovadores da prosa brasileira contemporânea, com livros como "Lúcia McCartney" (contos, 1967) e "Feliz Ano Novo" (contos, 1975). É o principal divulgador brasileiro de Bábel, a quem homenageou em seu romance "Vastas Emoções e Pensamentos Imperfeitos" (1988).

 
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