CINEMA
O viajante Bernardo Vorobow, por Walter Salles
1
entrevista
dromologia

Virilio, o oráculo
Por Juremir Machado da Silva



Vivien Bittencourt

O filósofo explica como previu o ataque ao WTC e por que a internet é um instrumento de controle

O atentado terrorista que atingiu os Estados Unidos da América e abalou o mundo colocou Paul Virilio no centro de uma polêmica intelectual que atravessou fronteiras. O pensador francês, num texto de 1993, antecipou a possibilidade de um ataque total contra o World Trade Center. Tornou-se necessário ouvir Virilio novamente para completar esta entrevista que chegou a ser ultrapassada pela confirmação, na prática, das idéias do entrevistado. Um raro caso de obsolescência pelo êxito.

O atentado ao Pentágono e ao World Trade Center pode ser visto como o primeiro acidente total da era da globalização?

Paul Virilio: Sim. É o prenúncio do que poderá acontecer a partir de agora. Em 20 de março de 1993, depois do primeiro atentado contra o World Trade Center, como arquiteto que sou, denunciei a possibilidade de um ataque total para derrubar as duas torres. Fui chamado de apocalíptico e de pessimista. Publiquei sobre isso, primeiro, um artigo no hoje extinto jornal “Globe”. Depois, lancei um livro, “Un Paysage d’Evénements” (Uma Paisagem de Acontecimentos), cujo terceiro capítulo, “Nova York Delira”, prevê o tipo de atentado que acabou por ser realizado em 11 de setembro de 2001.

Quais eram os indícios?

Virilio: É importante dizer, antes de tudo, que o atentado que destruiu o World Trade Center tem o mesmo grau de importância que a explosão da bomba de Hiroshima. O mundo nunca mais será o mesmo depois disso. Por que pude antecipar o acontecimento? Por defender que entramos na era da terrorismo global, sem fronteiras, de um novo tipo, com estratégias novas e fatais. Busca-se o efeito surpresa, o máximo de desgaste e o menor custo possível. A visibilidade das torres do WTC, associada à fragilidade delas, só poderia estabelecer um alvo especial. Seja qual for o material desse tipo de construção -aço, concreto, vidro-, não há como suportar um impacto de intensidade multiplicada pela velocidade de um objeto. O terrorismo globalizado aposta no cruzamento da alta eficácia com custo reduzido.

Não é um exagero comparar esse atentado com Hiroshima?

Virilio: Não. Hoje não existem mais pessimistas e otimistas. Só realistas e mentirosos. Eu sou um realista. Os atentados de 11 de setembro de 2001 introduziram a possibilidade real de atentados nucleares e com armas químicas e biológicas. Com Hiroshima, ultrapassou-se um limite. Com a derrubada das torres do WTC, superou-se outro estágio. Entramos numa nova forma de guerra civil. Neste caso, deve haver em torno de cinco mil mortos como resultado da transformação de um meio de transporte em arma. Não é possível construir torres que funcionem como bunkers. Assim, as construções que deviam abrigar tornam-se armadilhas.

Como será o mundo depois da superação desse limite?

Virilio: O mundo tinha conhecido dois crimes contra a humanidade: Auschwitz e Hiroshima. O atentado ao World Trade Center é o terceiro crime contra a humanidade. Não falo do ataque ao Pentágono. Caso a ação terrorista tivesse se limitado a destruir o Pentágono, o mundo teria rido, pois se trataria de um golpe contra uma máquina de guerra. Não se pode separar o simbólico e o concreto nisso tudo. Os terroristas enfrentaram o poder militar, que é o Pentágono, mas produziram o maior efeito ao destruir o coração econômico e civil dos EUA. O humano foi abolido. Pode-se imaginar que se multiplicarão os ataques suicidas. O exemplo sempre produz seguidores. O mundo entra numa lógica de guerra. Mas não se trata mais da guerra convencional. Agora se está numa dinâmica insidiosa de guerra civil e pelo terror.

Quais as causas dessa aceleração? Há quem sustente se tratar de uma nova fase da luta entre ricos e pobres?

Virilio: Bobagem. Quem diz isso, não sabe do que fala. A luta de classes nada tem a ver com esse novo fenômeno. Os velhos esquemas não podem explicar esse novo objeto. O marxismo está fora disso como horizonte de explicação. É preciso ser claro: o marxismo deu conta genialmente do século XIX. Não entendeu nada do século XX. E será inútil no século XXI. Digo isso com a consciência tranqüila, pois sou um homem de esquerda. Não respaldo o reacionarismo de Georges W. Bush, interessado em transformar tudo numa guerra da civilização contra a barbárie, nem o simplismo de quem pretende fazer disso uma guerra de religiões ou uma resposta dos excluídos aos opressores.

Como se explica, então, os acontecimentos que chocaram o mundo?

Virilio: É uma guerra sem referências. O inimigo pode ser designado, mas não é explícito. Bin Laden, por mais suspeito que seja, pode encobrir situações mais complexas. O pior estaria sempre num confronto com o Iraque. De toda maneira, o problema do Oriente Médio atravessa o dilema posto à comunidade internacional. A solução terá de ser mais política do que militar.

O imaginário cinematográfico também antecipou o atentado?

Virilio: Os filmes de catástrofe seguem a evolução da técnica e os indícios da realidade. Por isso, previram a estética da nova guerra. Saímos da guerra substancial, convencional, inadequada aos atores em confronto, e entramos na guerra acidental, civil, marcada por um conflito entre homem e máquina. Os atentados de 11 de setembro podem ser vistos com o crack do Pentágono, da mesma forma que aconteceu antes o crack da net-economia.
Na época da tecnologia mais avançada, com armas nunca antes imaginadas, um homem pode matar milhares de pessoas jogando um avião sobre um prédio. Não estamos na ficção científica nem na simulação, mas nas estratégias de inteligência.
O cinema pode representar esse imaginário, mas o essencial está numa produção espetacularizada voltada para a mídia. O terrorismo precisa gerar efeitos de disseminação midiática. Com a derrubada das torres do WTC, o terrorismo global teve o seu primeiro instante midiático total.

Tudo isso pode ser resumido como uma reação antiamericana? Ou, em outras palavras, a emergência de um imaginário antiamericano?

Virilio: Insisto: não se trata de um conflito entre barbárie e civilização, nem de fanáticos contra democratas. Mas do surgimento de uma nova forma de expressão violenta. O império sempre atrai ódio. Não poderia ser diferente com os Estados Unidos, que, além do mais, disseminam através de tecnologias de contato um imaginário capaz de influência global.
Ainda assim, o antiamericanismo não explica tudo. Precisamos de tempo para refletir e construir instrumentais analíticos aptos a decifrar o novo enigma.

O senhor tem tratado, com freqüência, de um tema que se torna moda entre os intelectuais, as novas tecnologias da comunicação. Internet já é a realização de um sonho ou permanece uma ilusão?

Virilio: Uma ilusão. Não creio que os sonhos sejam ilusões. Sem ser freudiano, penso que os sonhos têm uma potência de condicionamento do ser. Internet é uma ilusão tecnocientífica. É a ilusão da cibernética. Não se pode pensar a internet sem o advento da cibernética. A informática é uma coisa; a cibernética, outra. A colocação da informática em rede desemboca na cibernética, ou seja, em sistemas de condicionamento radicalmente terroristas num certo tempo.
Não neste momento. Mas já existe a tentação de usá-los para controle social. Portanto, para mim, internet é uma ilusão que está desabando. Não só por causa da queda da Nasdaq, da cotação da net-economia, mas porque o fechamento no cibermundo começa a ser sentido como um incômodo. No começo, o cibermundo aparecia como um universo sem fim, informal, imaterial e, logo, sem limites. Hoje, sabemos que existem e limites, os quais são agora percebidos como asfixia, como condicionamento. Dou um exemplo: pediram-me, recentemente, para definir a internet; fiz uma brincadeira, dizendo que não se deve confundir o serviço nacional de informação com a Sorbonne.

Como assim?

Virilio: O serviço nacional de informação é o serviço secreto que se ocupa de saber tudo sobre a população francesa, e outras, para evitar problemas de subversão política e coisas do gênero. Não se deve, portanto, tomar algo que é da ordem de uma agência nacional de informação, do controle, pela Sorbonne, isto é, pelo cérebro global. Uma coisa é a biblioteca de Babel, de Borges; outra, o cérebro global. Muita gente se iludiu pensando que a internet era esse cérebro global, um cérebro único, o planeta como se fosse um enorme cérebro, com o nascimento da unidade mental do gênero humano. Isso acabou. As pessoas já compreenderam que isso era, realmente, uma ilusão.

Há quem diga que o virtual é o não-lugar, portanto a utopia. Como o senhor analisa essa assimilação?

Virilio: Não. O virtual é a atopia. A utopia é Morus, Campanella, as cidades utópicas, uma ilha, um lugar. A utopia é um lugar. Um lugar ideal onde se tenta a aventura da unidade, da justiça, da unidade da beleza, da verdade, etc. É uma espécie de “cidade santa”, mesmo se é laica, onde se busca a realização do ideal. A atopia é a ausência de lugar. Efetivamente, a internet, o cibermundo, é atópico, sem lugar, sem território.
Não se trata apenas de uma atopia territorial, mas também corporal, o que a torna mais grave. É um não-lugar e um não-corpo. Sou um homem do corporal. Creio em três corpos: o do planeta (ecológico); o corpo territorial (planeta), sem o qual não há corpo social (a espécie humana); sem corpo social, não há corpo animal, de homem ou de mulher. Sou um homem de três corpos. Por isso, sou urbanista. Ora, a atopia da Internet é uma atopia em relação ao corpo territorial, ou seja, a geografia e a geopolítica, ao corpo social -a comunidade virtual não tem realidade física- e, enfim, talvez o mais grave, em relação ao corpo humano, ao corpo animal, no sentido de anima, a alma, não apenas no sentido biológico do termo.
Assim, da mesma forma que se inventou o SOS depois do acidente do Titanic, pelo qual se clamava “salvem as nossas almas”, a internet verá, sobretudo com a informática genética, de decodificação informática do código genético humano, a generalização do “salvem nossos corpos”.

O senhor concedeu uma entrevista, transformada em livro, chamada "Internet, a política do pior", na qual a crítica da técnica é levado ao extremo. Afinal, qual é a política do pior?

Virilio: É muito simples. Antes de tudo, o título não foi escolhido por mim para essa entrevista. Isso nos remete à cibernética. Eu sou um homem profundamente democrático e preocupado com a liberdade, pessoal e social. Creio na cidade, no cidadão, na democracia. Ora, a cibernética é a própria tirania, a maior de todas. Norbert Wiener, quando inventou a primeira cibernética, avisou: “Atenção, é preciso evitar a cibernética política, pois ela é pior do que Hitler”. É pior do que todos os tiranos. Orwell esboçou, em sua ficção, os traços dessa tirania inusitada. Quando falo do pior, significa que existe o risco -não passa de um risco, por isso aceitei o título- do fim dos direitos e das liberdades públicos.
Existe a possibilidade de uma tirania inigualável, uma tirania tecnocientífica capaz de, ao mesmo tempo, controlar o corpo humano, o corpo social e o planeta. A cibernética está em condição de controlar os três corpos, ou seja, de criar uma tirania diante da qual o nazismo não passaria de um brinquedo, uma antecipação artesanal. O pior é a cibernética social, o darwinismo, pois atrás da cibernética está a eugenia, a possibilidade, graças à decodificação do código genético, de “melhorar” o homem e de chegar ao super-homem.
Não se pode separar informática, genética e cibernética. Se estamos, hoje, trabalhando com a clonagem e quimeras em nível de biotecnologia, é por termos a informática para decodificar a extraordinária complexidade do DNA e do código genético humano. Logo, tudo está ligado. Não sou contra a técnica, tanto que em minha escola, ajudei a implantar e desenvolver a internet, convidei Nicholas Negroponte, quando eu era diretor da escola especial, há 20 anos, para dar conferências e sempre procurei aproveitar o melhor do desenvolvimento tecnológico. Mas sou contra a ilusão. Eu sou contra a promoção publicitária dessa ilusão.

Justamente, qual é a sua opinião, mais detalhada, sobre os que como Nicholas Negroponte e Pierre Lévy fazem uma espécie de divulgação publicitária da Internet e das novas tecnologias da comunicação?

 
1