CINEMA
O viajante Bernardo Vorobow, por Walter Salles
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Virilio: Conheço bem Pierre Lévy e fiquei muito decepcionado com a sua atitude em relação a mim. Lévy escreveu coisas injuriosas sobre mim, de fato escandalosas, que meus amigos, a quem algumas delas foram submetidas, recusaram-se a publicar, de tão violentas que eram. Não quis entrar na polêmica, pois eu o estimava e surpreendeu-me o seu lado guru da internet, um aspecto sectário que eu, até então, desconhecia nele, como se não fôssemos livres para criticar a internet. Que significa isso? Somos livres para ser contra ou a favor.
Quando um homem me diz que prefere certa interpretação musical, não o acuso de ser racista, enganador ou algo assim. Digo que tem outra inteligência, outra sensibilidade para, por exemplo, Mozart ou um pintor. Eu sou um homem livre e considero que somos todos livres para ter expectativas em relação à Internet. Por isso, não admito a violência manifestada por Pierre Lévy contra mim. Acho que ele se deixou, infelizmente, arrastar para o terreno do delírio, um delírio de interpretação nefasto a respeito da cibernética e de temas adjacentes.
Com isso, Lévy desperdiça o seu talento. Quanto a Negroponte, ele fez um importante trabalho inicial, no MIT, criando o Architecture Machine Group. As suas pesquisas sobre informáticas no MIT começaram no campo da arquitetura, com aplicação em programas para cidades, urbanismo e questões semelhantes, e por isso o convidei para palestrar na França. Depois, tornou-se o nome que se conhece agora, tendo chegado a criação de "Wired". Foi um ótimo trabalho. Hoje, ele não me conhece mais e afirma que nunca me encontrou. Não compreendo.
Que significa essa censura? Há uma única coisa nele que me sinto obrigado a contestar: dizer que os bits substituem os átomos. É o tipo de argumento publicitário por excelência sem base alguma na realidade. Os átomos existem, assim como os bits de informação e outros também existem, pois a matéria é composta de três elementos: a massa, a energia, a informação. Não estou inventando isso, é a física quem o diz. Assim, a matéria é formada pela massa, por átomos, por energia e por informação.
Por que, mais uma vez, apostar no darwinismo e dizer, de forma aberrante, que os bits substituirão os átomos. Isso me remete para idéias como as de que o super-homem substituirá o homem, os arianos substituirão os judeus, os brancos substituirão os negros etc. Isso se chama racismo. Por trás disso, há uma intolerância fatal que não admito. Os bits coexistem com os átomos; os brancos, com os negros; os arianos, com os não-arianos... Há nisso uma forma de eugenia, de darwinismo, que é a imposição da eliminação, da substituição, da exclusão. Não se elimina nada disso, coloca-se ao lado, faz-se coexistir.

Há quem diga que o senhor, assim como outros intelectuais franceses, entre os quais Lucien Sfez, faz discursos muito interessantes e críticos, por exemplo, a respeito da internet, mas sem qualquer demonstração. Qual é o verdadeiro perigo, concreto, cotidiano, da Internet? Como é que ela vai aprisionar as pessoas?

Virilio: Antes de tudo, a demonstração está sendo feita pelo e-crack, pelo crack da neteconomia, pelo bug do ano 2000, que de fato aconteceu, está sendo feita também pela multiplicação de sites terroristas na Internet.
A demonstração está sendo feito não por mim, mas por acidentes. Ocorre que desenvolvo uma “teoria do acidente”, tanto que meu próximo livro tratará disso. Significa que uma técnica existe não apenas pela "monstração" -a publicidade, a propaganda, a promoção-, mas também pela demonstração, ou seja, pelo fracasso, pela derrota, pelo acidente.
Em outras palavras, o acidente é a demonstração dos limites de uma técnica. Quando se inventa o navio, inventa-se também o naufrágio. Não é preciso demonstrar que o navio afunda. Isso se faz por si. A demonstração não é feita por Arquimedes, que explica os problemas de um sólido na água, mas pelo acidente do Titanic, do Concorde.
A internet é um novo objeto informacional que tem a potência de inaugurar o seu acidente. Cada técnica tem o seu acidente. A eletricidade possui a eletrocução ou Chernobyl.
Na época da ecologia, do princípio de precaução, do recuo diante da ilusão da técnica e da ciência, os acidentes são elementos muito importantes para analisar, sobretudo quando se trata de uma tecnologia emergente. A demonstração que interessa não é a minha, mas a dos fatos. Um acidente é um fato. Mais do que isso: uma derrota. Citei alguns acidentes, assim como falei bem antes do bug do ano 2000 e do crack da nova economia, para espantos de muitos, do que poderia acontecer. Não sou um profeta. Digo apenas que há nessa nova técnica uma potência de acidente incomparável, uma possibilidade extraordinária de condicionar o mundo de imediato.
A característica da internet e da cibernética é de condicionar o tempo à escala do mundo. Falo de potência. Mas já estamos quase lá. Se amanhã todos estiverem conectados, o acidente da internet será integral. Ou seja, desencadeará acidentes em cadeia. Já tivemos exemplos com os vírus, com o bug, com a net-economia, a Nasdaq. Sou um experimentalista e acompanho os fatos. Não sou um teórico da informática. A minha teoria é a velocidade. Sou um dromólogo. Trabalho com a questão da aceleração. Mas observo o nascimento de acidentes gerais.
Ainda um exemplo: quando se inventa o navio, ele afunda num determinado lugar. O Titanic afundou no Atlântico Norte ao chocar-se com um iceberg. Sabe-se o lugar, a latitude, a longitude, tudo. Quando Chernobyl explode, isso se dá num lugar, em Chernobyl, contaminando Kiev e uma parte da Europa. Até agora todos os acidentes eram específicos e locais. Eram relativos a um determinado objeto, num determinado lugar, num determinado momento. Eram acidentes particulares. Todas as invenções, mesmo as maiores bombas, inclusive a atômica, só produziam acidentes locais. Falo de uma bomba, não de dez mil. Falo da destruição de Hiroshima.
O próprio da cibernética é a unidade de tempo e de espaço da interação, de modo que o acidente da internet, logo da cibernética, é geral, passível, potencialmente, de atingir todos e tudo ao mesmo tempo, no mesmo instante. Os meus críticos alegam que isso nunca existiu. Sim, mas antes da invenção da jangada não havia naufrágio. Foi preciso inventá-la para ver que podia afundar. Estamos diante de algo emergente. Porém, não sou o teórico que descreverá por antecipação o acidente integral.
Digo apenas que, em potência, ele está aí. Já apareceram sucessivas confirmações, não para dizer que tenho razão, mas mostrando que o fato internet possui o seu acidente. Muitos tentaram me fazer passar por um ludista, um antimodernista, o diabo. Sinto muito, trabalho com a técnica e a ciência há 25 anos, amo a arte da técnica, só trabalho com isso, e dizer que sou contra é difamação e mentira.

Apesar de tudo isso, muitos dos seus críticos o consideram apocalíptico e exegerado em relação aos efeitos negativos concretos da tecnologia?

Virilio: Adoro a técnica. Tudo isso que dizem é totalmente falso. O apocalipse é a revelação. A palavra apocalipse não diz respeito ao fim do mundo, mas à revelação. Efetivamente, a internet é reveladora da mundialização, da globalização. Sem a internet, sem a informática, não haveria globalização. Logo, mais uma vez, tenta-se, com essa palavra, desqualificar-me. Não se quer entrar na discussão, na inteligência da técnica, na argumentação, mas desligitimar-se alguém com quem não se concorda. Diz-se apocalíptico como quem diz racista, fascista, chauvinista, etc. Não sou nada disso. Basta ler meus livros para que tudo se esclareça.

Inventa-se a jangada, ela afunda, pessoas morrem. Inventa-se a eletricidade, há eletrochoque, pessoas sofrem. Inventa-se a energia nuclear, há radioatividade, isso contamina, pessoas adoecem e morrem. Qual é o acidente da internet com conseqüência tão graves como essas?

Virilio: O acidente integral da internet está ligado ao desenvolvimento da internet. Mais uma vez, o que me interessa são os fatos, não as teorias. Por isso, vamos ao exemplo. Admitamos que amanhã o mundo inteiro, ao menos o desenvolvido, pois não me refiro aqui ao Terceiro Mundo, esteja conectado. De outra maneira: somos seis bilhões no planeta; digamos que dentro de uma geração, ou seja, uns 20 anos, existam quatro bilhões de internautas, que o mundo inteiro, grosso modo, esteja na rede. É evidente que nesse estágio, o menor acontecimento na internet, acidental, diz respeito ao mundo inteiro, no mesmo instante.
O que é a interatividade? Eu disse, em "A Bomba Informática", que a interatividade está para a informação assim como a radioatividade está para a energia. A interatividade é a base da cibernética da internet. Mesmo se, neste instante, ainda não estamos no limite, a rapidez dos contatos entre os indivíduos, os portais, os motores de busca, tudo isso ainda é lento, mas a tentação, isto é, o objetivo da internet é de atingir a interatividade máxima. Isso significa desenvolver a bomba informática; em outras palavras, se o acidente é positivo, ele é multiplicador; se é negativo, ele é multiplicador e finalizador ao mesmo tempo.
A única imagem aproximada desse fenômeno é o crack econômico, pois a economia consiste em informação. Podemos lembrar os cracks de 1929 e de 1987. O sistema financeiro é um fenômeno de informação e de velocidade. A partir do momento em que as bolsas funcionam com a cotação automática de valores, chegamos à possibilidade de uma quebra instantânea em todos os lugares, em todas as bolsas. Foi o que aconteceu em 1987, com o big-bang de Wall Street e da City, em Londres, aos quais se ligavam outros pontos de investimento em bolsa.
No dia em que todos os bancos e bolsas do mundo estiveram interconectados, o crack será necessariamente mundial. Enfim, não quero me defender das opiniões dos outros sobre isso, pois não ataco. Mas, depois de ter apresentado meus argumentos, observo que existe uma espécie de intolerância à contradição feita de injúrias. Acusam-me de ser apocalíptico e retrógrado; não me interessa mostrar que não o sou. Basta-me destacar fatos e desenvolver argumentos.

A maioria dos internautas usa a rede para comunicar, não para fazer negócios. Que acidente pode acontecer quando se trata apenas de estabelecer comunicação com outras pessoas?

Virilio: A possibilidade de um controle social que ultrapassa amplamente o da polícia e o dos serviços secretos. Sabemos muito bem que com a internet, com o telefone celular e com a eletronização da vida, o controle aumenta. Já não podemos separar internet, televisão e telefone. Não é por acaso que as multinacionais se interessam por esses três mercados. A cibernética é o todo, e a internet nada é fora da bolha cibernética em desenvolvimento. Essa bolha tem uma possibilidade de controle social terrível, quase cósmica. Mais uma vez, não devemos confundir os serviços de informação com a Sorbonne.

Há muitos que vêem a internet como o espaço da liberdade e da anarquia.

Virilio: É completamente falso. A Internet é a anarquia junto com as multinacionais; estas necessitam de anarquia. Elas, tão potentes, precisam de que inexista ordem. É o lobo no meio do rebanho. A ausência de autodefesa, a fragilidade dos outros, tudo isso favorece os poderosos que dominam a rede. Nesse sentido, a anarquia é o aliado da tirania. Entre os gregos, a anarquia social, a decomposição da sociedade, funciona com estribo para a tirania. Não sou contra a internet, mas contra os que dizem que ela é libertária, sendo o cibermundo o espaço de uma vida livre sem lei. Isso é bobagem. É uma mentira, um abuso de linguagem.

Para a mídia, o bug do milênio não aconteceu, sendo quase uma frustração. O senhor afirma, ao contrário, que ele se realizou. Por quê?

 
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