CINEMA
O viajante Bernardo Vorobow, por Walter Salles
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Virilio: Claro que aconteceu, de outra forma. Ele foi barrado por investimentos poderosos e custou em torno de 400 bilhões de dólares no mundo inteiro. Sabia-se a data do acidente e as empresas puderam realizar a custosa troca de programas que evitou a catástrofe. Houve a antecipação que impediu o mal. Mas estamos diante de uma realidade negada. Como pode algo que custou 400 bilhões de dólares não ter existido? Há coisas que me irritam e das quais eu não deveria falar mais, dado que se perde tempo, entre as quais o crack da net-economia e o bug do milênio, coisas que sinalizam claramente o perigo do acidente total dissimulado pelos publicitários das novas tecnologias. Repito: sou um experimentalista.
Antes de fazer teorias, devemos observar os acontecimentos. Nisso reside a inteligência científica. Compreender os aspectos negativos da técnica serve ao seu próprio desenvolvimento e à sua utilidade social. Precisamos civilizar a internet. A anarquia nunca foi a civilização. Sempre foi a guerra de todos contra todos e a vitória do mais forte. Ninguém me aplicará o golpe da bela anarquia. Conheço isso e não caio.

Muito se tem falado de uma mudança civilizacional com o advento da internet. Isso implica aspectos positivos mas também negativos. Essa transformação é real?

Virilio: Desde o começo do século XIX, no Ocidente, paira a ameaça da perda da civilização. A barbárie espreita. A Europa, com as guerras mundiais, a bomba atômica e o holocausto, foi o lugar da barbárie e da possibilidade do fim do mundo. Entre Auschwitz e Hiroshima há a possibilidade do fim de uma civilização.
O Ocidente, em geral, incluindo os Estados Unidos, desencadeou uma possibilidade de fim de um mundo, de uma civilização. Por tudo isso, não me deixo iludir pela civilização da internet quando conheci o horror da Segunda Guerra Mundial e vivi a época dos campos de concentração. Pertenço à era da bomba atômica e da dissuasão nuclear, ou seja, ao fim do mundo, portanto, quase aos 70 anos, não posso crer em mudanças de civilização tão pouco demonstradas.

O senhor é um homem de esquerda. Existe um futuro melhor para a humanidade? A técnica será um instrumento dessa melhora?

Virilio: Eu sou um democrata, de esquerda, mas antes de tudo um democrata. Não creio no socialismo utópico, no qual, de resto, nunca apostei. Nunca fui membro do Partido Comunista Francês, nem mesmo do Partido Socialista. Sou cristão. Não sou sensível à utopia socialista. Sou sensível à necessidade de justiça social para garantir a paz civil, sem a qual não existe democracia. A democracia tem dois inimigos, um dos quais é sempre esquecido: o tirano, que se opõe à democracia, e a anarquia, a guerra de todos contra todos, a metástase social. Conhemos tantos tiranos, de Stalin a Hitler, de Mussulini a Fidel Castro, e, do outro lado, o que é novo, a possibilidade da anarquia, de uma guerra civil geral.

Qual é o sistema social dos seus sonhos? Em outras palavras, qual o seu projeto para a sociedade de amanhã? Há brasileiros que olham a social-democracia francesa com uma certa inveja. Há franceses que, durante a realização do Fórum Social Mundial, em Porto Alegre, vibraram com a perspectiva utópica de algumas correntes da esquerda brasileira. Quem está com a razão?

Virilio: Sonho com a reinvenção da justiça social dentro da democracia. Como já disse, não acredito nas utopias políticas ou tecnológicas. O sovietismo desapareceu com a queda da União Soviética. A utopia comunista, plasmada no socialismo dito real, foi um pesadelo. Entre os séculos XIX e XX as utopias coletivistas experimentaram apogeu e decadência. Agora, a construção da justiça social democrática terá de ser feita fora dos mitos dos dois últimos séculos. De nada adiantará importar as teorias do século XX, as práticas de organização social do século XIX ou as pretensões cientificistas de um certo marxismo de 40 anos atrás.
Tudo isso morreu com a queda do Muro do Berlim, com o fim da ilusão do socialismo não-democrático e com a descoberta do fracasso da experiência soviética. Há um trabalho de reconstrução da justiça social a ser feito, em torno da noção de ecologia, não somente da ecologia tradicional, mas da ecologia cinza. Eu me explico. No momento da Rio 92, a reunião sobre os destinos do planeta, a qual, mesmo convidado, não pude comparecer, gravei um vídeo que o governo francês enviou para o encontro. Nele, indiquei que existem duas ecologias, a verde, de substância, do ar, da água, da fauna, da flora, e outra, cinza, sem cor, de distância.
À poluição da natureza, grande ameaça para o homem, junta-se a poluição de grande dimensão, ou seja, a poluição da distância entre os homens, entre os países que habitamos, pois o homem não habita apenas o ar, a água, as pedras, mas também distâncias. O homem não tem 170 metros de altura, mas, por exemplo, 1m70. Por quê? Porque faz parte de universo de proporções, no qual as casas têm uma dimensão, as relações entre os homens, outra, etc. Ocorre que a rapidez das novas tecnologias esmaga as distâncias tradicionais.
A compressão temporal é uma poluição das grandes dimensões naturais. Trata-se de um fechamento que, em breve, tornará insuportável a convivência entre os seres. Não haverá mais espaço físico nem temporal separando as pessoas. A cibernética e as viagens supersônicas comprimem o mundo como numa prisão cujas paredes se movessem diminuindo o espaço existente. Isso também faz parte da ecologia da existência e deve ser incorporado nos projetos de construção de justiça social na democracia, ou seja, superar o efeito de prisão suscitado pela compressão do tempo e do espaço.
Por isso, sou contra a ilusão da interatividade, que é somente a oposição de todos contra todos, uns contra os outros no imediatismo da comunicação telefônica ou virtual, como se estivéssemos num submarino, onde os homens se odeiam, pois estão muito próximos, quase não há separação entre eles, inexiste espaço para a socialidade. Os animais, num zoológico, não se reproduzem, pois lhes falta a grande dimensão do espaço natural, as distâncias entre os sexos, as espécies, os seres, próprias do habitat animal, assim como do humano.
A nova justiça social deverá considerar não apenas a partilha da riqueza -isso fazia o socialismo-, mas também da divisão das riquezas ecológicas, da água, da energia, das substâncias necessárias a existência em comum. Hoje, privatiza-se a água; amanhã, o ar. Não. Isso é patrimônio comum. Não podemos aceitar de pagar para respirar. Privatizar significa dizer quanto se pode consumir. Você já respirou demais para o seu capital. Pare de respirar. Não. É inaceitável. Ou teremos um contador de ar no pescoço.
Parece bobagem, mas já vivemos a guerra da água. Para entender isso não podemos nos servir nem de Marx nem de Proudhon, nem de Kant nem de Nietzsche, nem de Platão nem Hegel. Precisamos ser os novos intérpretes desse novo mundo. Devemos construir uma nova justiça para a democracia mundial. Há um trabalho de criação a realizar, para o qual não existem mestres, apenas interlocutores.

Para o senhor, então, o problema das novas tecnologias não é de produzir isolamento e fragmentação, mas possivelmente o contrário, excesso de unidade e de proximidade?

Virilio: As novas tecnologias -a internet, por exemplo- provocam concentração, eliminação da separação entre os seres. Conheci McLuhan, em companhia de Jean Duvignaud, que era um discípulo de Rousseau. Para McLuhan, havia uma espécie de idealismo da aldeia global. Era um ingênuo. Ele foi importante, mas ingênuo como os pioneiros, que têm a potência da criação de um mito, sem o distanciamento necessário para a análise do fenômeno gerado. Tudo é bom, belo e feliz. As novas tecnologias ajudam a produzir a aldeia global da asfixia por falta de espaço.

Urbanista e arquiteto, o senhor tornou-se filósofo. Por quê?

Virilio: Não sou filósofo. Na verdade, sou um homem de concentração, de reflexão sobre os espaços urbanos, as cidades, marcados pela concentração. Trabalhar com a cidade, significa trabalhar com o espaço e o tempo, logo com a velocidade. Com a Revolução Industrial e com a revolução dos transportes, as cidades tornaram-se caixas de velocidade. As residências não alojam apenas homens, objetos, produtos, pessoas, mas proximidade social, interferências, dimensões energéticas. Com as novas técnicas de transmissão -do rádio à internet- só se aumentou a velocidade de contato.
Ser urbanista hoje exige uma inteligência dromológica, capaz de compreender a velocidade e a aceleração. Em grego, "dromos" significa corrida. A palavra "rua" está na raiz de "corrida", como "dromos". Ser urbanista implica compreender que a cidade é traçar, povoar, construir, pôr em movimento. Tenho refletido sobre a importância da velocidade nas cidades e nas relações sociais. Para isso, estabeleci a dromologia, a disciplina que estuda a velocidade como meio político.
Ao lado da economia política da riqueza, da economia, do capitalismo, há a economia política da velocidade. Riqueza e velocidade são as duas faces da economia. Não há só riqueza -propriedade de bens-, mas também velocidade -a aceleração do vivido. Meu trabalho é de urbanista contemporâneo, da época da aceleração e da invenção da velocidade da ruptura da barreira do som, da barreira do calor -velocidade de liberação, 20 mil k/h para colocar um satélite em órbita- e, por fim, a ruptura da barreira orbital -40 mil km/h para sair da órbita planetária.
O mundo moderno vive a revolução da aceleração. Não posso estar alheio a ela. Chegamos à velocidade absoluta, a da luz, na cibernética, pela qual ondas eletromagnéticas, ainda que custe caro, podem estabelecer relações interpessoais na velocidade da luz. A cibernética tende para a criação do "live" por tudo e para todos. É isso a interatividade. É a tensão, a perspectiva, da criação de algo inacreditável, para o qual as sociedades antigas não estavam preparadas, pois só conheciam velocidades relativas, a do cavalo, por exemplo, tendo a invenção da cavalaria sido uma revolução. Basta examinar a conquista da América para ver a importância do cavalo nesse acontecimento histórico. A conquista foi feita pelos cavalos, não pelos homens. Mesmo a revolução industrial e de transportes baseia-se nas velocidades relativas, da máquina a vapor, do motor a explosão etc.
Da corrida de cavalos, da dromocracia, até agora estávamos na velocidade relativa. Com a revolução da velocidade da luz, da cibernética, da informática, da telemática, chegamos à velocidade absoluta. Pela primeira vez na história, o homem toca um limite cósmico. Não é mais o limite da superfície terrestre, dado que vamos à lua, mas o cósmico. Esse fenômeno exige, para ser compreendido, uma economia política da velocidade, um complemento à economia política da riqueza elaborada por François Quesnay e os fisiocratas. Eu sou uma espécie de fisiocrata urbanista que fala da necessidade dessa economia política da velocidade, de onde a rejeição à cibernética. A velocidade da luz não pode tornar-se uma fatalidade terrorista.

O senhor pensa que se pode de fato mudar algo? Às vezes, parece que a sua análise não deixa brechas para a transformação.

Virilio: Não quero impedir nada. Quero influir. Penso que tudo pode ser pensado, alterado, considerado. Não peço a eliminação da internet e da cibernética. Exijo que elas sejam civilizadas. Os homens sobreviveram à pré-história porque inventaram meios para escapar aos dinossauros. Não existe progresso sem uma análise experimental dos seus prejuízos. Portanto, estudo os problemas do progresso. Não tento evitá-lo.
Sempre gostei da velocidade, de moto ou carro, e soube praticá-la. Quando estamos em cima de uma moto, precisamos saber angular. Cada vez que se acelera, deve-se saber buscar a angulação adequada. Numa corrida de motos, cada piloto busca o ângulo nas curvas, joga o corpo para um lado, para outro, toca no chão, procura a inclinação certa. Com a reflexão, é o mesmo. Hoje, devemos buscar o ângulo certo para olhar a informática, a Internet, as novas tecnologias.

Livros de Paul Virilio no Brasil
"A Arte do Motor" (Ed. Estação Liberdade)
"A Máquina de Visão" (José Olympio Editora)
"Velocidade e Política" (Ed. Estação Liberdade)
"A Bomba Informática" (Ed. Estação Liberdade)
"O Espaço Crítico" (Ed. 34)
"Estratégia da Decepção" (Ed. Estação Liberdade)

Juremir Machado da Silva
É escritor e jornalista, professor da Faculdade de Comunicação Social da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul e autor de "O Pensamento do Fim do Século" (L&PM) e "Cai a Noite Sobre Palomas" (romance, Sulina), entre outros. É tradutor de "Partículas Elementares" e de "Extensão do Domínio da Luta".

 
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