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audiovisual
CINEMA
O inferno das irmãs de Madalena ![]() Divulgação Peter Mullan fala sobre seu polêmico “Em Nome de Deus”, uma das atrações da Mostra de SP Uma jovem é forçada a pagar penitência fazendo sexo oral no padre -o mesmo sacerdote que pouco depois, durante a missa, entrega à moça a hóstia da comunhão. A cena é do filme “Em Nome de Deus’’, uma das atrações da 27ª Mostra BR de Cinema - Mostra Internacional de Cinema de São Paulo. Parece uma sequência absurda, mas é baseada em fatos reais. Quem afirma é o diretor escocês Peter Mullan, que baseou seu filme nos testemunhos de mulheres confinadas ilegalmente nas lavanderias de Madalena, administradas pela Igreja Católica até 1996 na Irlanda. “Houve casos de internas que prestavam favores sexuais em troca de absorvente higiênico. De tão traumatizadas e envergonhadas, algumas simplesmente paravam de menstruar’’, contou o cineasta, vencedor do Leão de Ouro de Veneza do ano passado com esta produção que acabou condenada pelo Vaticano. “Só tenho um arrependimento: o de não ter rodado o filme antes’’, disse Mullan, lembrando que mais de 30 mil mulheres passaram por esses reformatórios criados no século 19 como “refúgio para prostitutas e pecadoras’’. Daí o nome original do filme, “The Magdalene Sisters” (Irmãs de Madalena), uma referência à Maria Madalena, a prostituta que lavou os pés de Jesus Cristo. A Igreja Católica só assumiu o comando dessas instituições no século 20, transformando os asilos em lavanderias lucrativas. “Com a desculpa de que as internas precisavam expurgar os seus pecados, as freiras obrigavam as jovens a trabalharem cerca de dez horas por dia, sete dias por semana, lavando roupa de hotéis, universidades e outros estabelecimentos. As meninas nunca receberam um centavo pelo serviço prestado e ainda morriam de fome, apanhavam e eram até estupradas’’, afirmou Mullan, mais conhecido por ter conquistado o prêmio de melhor ator em Cannes por “Meu Nome é Joe’’, de Ken Loach (1998). O documentário “Sex in a Cold Climate’’, que o Channel 4 exibiu em 1998, serviu de inspiração para esse segundo longa-metragem de Mullan como diretor (depois de “Órfãos”, de 1998). “Fiquei tão horrorizado com a injustiça cometida nessas lavanderias que passei a entrevistar as sobreviventes dos asilos de Madalena. Uma delas até atua no filme.’’ Tocado pelos dramas dessas “vítimas de uma sociedade puritana’’, internadas nos reformatórios pelas próprias famílias ou por orfanatos, o cineasta de 44 anos conta a história da perpectiva de quatro garotas que vivenciaram o pesadelo nos anos 60. Para ser considerada uma pecadora, bastava ser muito bonita, como Bernardette (Nora-Jane Noone), que as freiras viam como uma “sedutora em potencial’’. Ou ter sido estuprada pelo primo, “sujando o nome da família’’, como aconteceu com Margaret (Anne-Marie Duff). Ou mesmo ser mãe solteira, motivo que enclausurou Rose (Dorothy Duffy) e Crispina (Eillen Walsh). “Foi uma vergonhosa forma de sadismo institucionalizado. Algo desumano e imperdoável em qualquer contexto histórico’’, diz Mullan. Leia, a seguir, a entrevista concedida pelo diretor, em Veneza.
Peter Mullan: Não. Isso é o mais triste. Ouvi casos muito piores, envolvendo estupro e até assassinato, que acabei ignorando no roteiro para não criar uma indisposição ainda maior com a Igreja Católica. Como não há evidências nos relatos de morte, não queria que os religiosos pegassem no meu pé exigindo provas. Só lamento não ter inserido uma história de abuso sexual que uma sobrevivente relatou. Disse que um homem pagava as freiras para transar com as garotas em uma van. Ele fazia isso três vezes por semana, sempre com meninas diferentes. O “L’Osservatore Romano’’, jornal do Vaticano, acusou a produção de “provocação rancorosa’’, enquanto representantes da Igreja Católica criticaram a direção do Festival de Veneza por premiar uma obra de “propaganda anticatólica’’. Até que ponto a reação dos religiosos correspondeu às expectativas? Mullan: Não esperava muito mais do que isso por parte da Igreja. Até porque uma investigação severa sobre o que se passava nos asilos mostraria que o meu filme é quase um acampamento de férias, se comparado ao que realmente aconteceu. Freiras que viram “Em Nome de Deus’’ disseram que a produção poderia ter retratado duas horas de violência contínua. Eu sempre soube disso. Mas, como cineasta, preferi enfatizar a violência psicológica cometida contra as meninas. A lavagem cerebral era tão grande que muitas que chegaram a escapar de lá não conseguiram levar uma vida normal. De tanto ouvirem que sexo é uma coisa suja, muitas não puderam mais se relacionar com homens e formar uma família. A peça “Eclipsed’’ (1992), de Patricia Burke Brogan, foi a primeira tentativa de chamar a atenção para os reformatórios de Madalena. Como essas instituições conseguiram sobreviver por tanto tempo? Mullan:Ao passar pela calçada desses asilos e ver as jovens estendendo roupa no varal, ninguém podia imaginar o que realmente acontecia lá dentro. Principalmente à noite. Como as meninas estavam sempre limpas, davam a impressão de que eram bem cuidadas. Um rapaz que atua no filme me contou que seu pai costumava mandar as roupas sujas às lavanderias de Madalena nos anos 60. Disse que o pai pensava que as freiras fizessem o trabalho pesado. Ninguém imaginava que a tarefa era executada por prisioneiras. Uma prisão tradicional seria até melhor que essas instituições. Na cadeia os detentos têm direitos e não perdem o contato com o mundo exterior. Aqui as jovens não podiam nem sequer receber visitas ou cartas. Não tinham acesso a jornais e livros e, o que é ainda pior, não sabiam quando seriam libertadas. Se a família não voltasse atrás na decisão, a prisão era perpétua. Por isso incluiu a morte da interna Katy, já idosa? Mullan: Sim. Muitas viveram essa tortura por mais de 40 anos, morrendo lá dentro. Sendo assim, a personagen Katy (Britta Smith) é vital na trama, pois representa o futuro das garotas, se elas continuarem lá dentro. Katy é o motivo que impulsiona Bernadette a querer fugir. Não era tão dificil escapar. Bastava empilhar alguns caixotes no muro e pular. Uma lavanderia não era como Alcatraz. O problema é que muitas delas acabavam voltando. Enquanto algumas já estavam perturbadas demais, outras não sabiam para onde ir. Não sabiam viver de outra forma e desconheciam os seus direitos como cidadãs. Como o governo compactuou com as lavanderias? Mullan: Por ser um um sistema político teocrático, o governo simplesmente fechou os olhos para o problema. As garotas fugitivas eram trazidas de volta aos asilos pelos próprios pais ou pela polícia, que atendia aos pedidos das freiras quando elas davam queixa de desaparecimentos. Mesmo sem o poder legal de enclausurar as meninas, as freiras o faziam porque ninguém as desafiou na Justiça. Soube de um homem que procurou a irmã por nove anos, por não saber onde ela tinha sido internada. Ele só conseguiu o endereço depois de ameaçar levar o caso aos tribunais. Mesmo assim, acho inacreditável que ele tenha levado nove anos para finalmente tomar uma atitude mais enérgica. Por que as jovens que conseguiram fugir ficaram de boca fechada, compactuando com a opressão religiosa? Mullan: Porque era uma vergonha ser uma irmã de Madalena, que todos apelidaram de “Maggie’’. É escandaloso perceber que o motivo por trás do fechamento das lavanderias foi econômico e não humanitário. Os asilos começaram a dar sinais de enfraquecimento no final dos anos 70, com o advento das máquinas de lavar. Nos anos 80, o negócio não ia nada bem. As casas já não recebiam tanta encomenda e também não conseguiam mais mão-de-obra, pois as mulheres finalmente passaram a conhecer os seus direitos. Mesmo assim, as lavanderias foram mantidas até a década de 90, sendo que a última foi fechada em 1996. No local trabalhavam cerca de 50 mulheres. As famílias e a sociedade também colaboraram para a longa existência das lavanderias... Mullan: Colaboraram e muito. No início do século 20, a Irlanda ainda era um país que sofria com a fome e o estouro no sistema de previdência social. Uma boca a menos para comer em casa chegava a ser um alívio para as famílias. Alguns pais ainda acreditavam estar fazendo o melhor para as filhas, enviando-as aos reformatórios. Por muitos anos, a sociedade viu as jovens mulheres como uma ameaça aos rígidos códigos morais impostos pela Igreja. Por isso, justificavam a clausura das meninas como uma medida de proteção. Em suas mentes doentes, acreditavam precisar protegê-las de si mesmas. O filme “Em Nome de Deus” (The Magdalene Sisters, Inglaterra) Elaine Guerini
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