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prosa.poesia
LANÇAMENTO
Bangalô Leia o início do novo romance do autor de "O Azul do Filho Morto", publicado pela Editora 34 O vento mudou. Há muito havia dispensado ciclos e paisagens — embora não pudesse evitá-los — bem como me abstivera de maus agouros e fricotes do tipo lua cheia refletida no quebra-mar, sangue das mulheres e alma. — Até ontem. Não gosto disso. Assim, junto aos demônios e à paisagem em geral, descartei — digamos: para evitar aproximação e intimidade — meu senhorio. O sujeito é metido a ser artista plástico e homem ao mesmo tempo. Um idiota que está sempre com as mãos ocupadas e que, decerto, deve ter projetado seus bangalôs com o intuito de alugá-los para artistas e gente moderna e descolada — como ele e... eu?! Catso! Eu não queria ter voltado. Mas hoje a porra do vento leste tá fazendo a lagoa fluir pro lado de cá, vejo barquinhos. Ou seja, tenho que maquinar um jeito de incluir putas, drogas leves e pesadas no orçamento deste mês. Sou — dizem — um vermezinho brilhante. — Um quero-quero espatifou-se na vidraça. Mamãe paga minhas contas. Ontem sonhei com codornas, acordei sem ar e a gatunagem dos arrabaldes fudeu madrugada adentro. Aqui, do bangalô, vejo barquinhos e aqui tenho pés-de-anjo que sobem pelos cipós e uma buganvília mansa cobrindo a varanda, o céu azul demais e as cores em geral desnecessárias, porém breves e ferozes na medida certa do lugar errado — isto me deixa triste. Vou dar um tempo. Às vezes creio no século dezenove e quero que esses vermes que copiam meu estilo morram de inveja. Vivo dias de “écrivain”. Pra ser sincero, cultivo a bajulação e eu mesmo os invejo: esses vermes. São minha paisagem. Havia decidido, depois de ter feito algumas anotações, não mais especular sobre o ódio e o perdão. Na verdade, já ia dar por encerrada minha patética carreira de escritor maldito. Mas Cris ligou. Ela não vem. A gente falou em cartas que jamais teriam resposta. A garota queria saber o meu e-mail e o que eu andava fazendo. Eu lhe disse que às vezes ficava romântico e que às vezes era apenas um viciado em aspirinas, Nino Rota e barbitúricos fora de moda, tipo benzedrina e sonhos de valsa em papel de celofane. Que gostaria de tê-la ao meu lado. Só isso. — Tenho cep, Cris. Serve? Aí ela anotou meu endereço. O que eu gosto nela é a melancolia e a falsa doçura cuja inconveniência, aliás, ela mesma já havia reconhecido: — Você vai se decepcionar comigo. É curioso como nossa conversa empaca ao telefone. Os olhos e o olhar dela são amendoados e voltados para baixo. A sintaxe atravessada permite-me admirá-la por causa de um lenço de seda e vieses elegantes que nos acometem pelo pescoço, ela amarrada ao tal lenço e eu a adivinhar nossos fiascos, nem eu tampouco ela — nós dois em estado de suspensão, a bem dizer. Cris vai falhar neste réveillon e os seus dentes grandes às vezes projetam-se dos lábios como se engolissem a própria língua — ou talvez a menção de um sorriso triste apareça dos seus vagares e ameace uma cuspidinha. Algo assim. Então, ela silencia e segura as lágrimas com dificuldade. A vantagem é dela. As coisas se complicam para mim — que recorro quase sempre (e por que, meu Deus?) ao mesmo erro.
E se eu fosse a São Paulo para dar uns arretos convincentes na minha doce e ungida Cris? Depois, naturalmente, eu iria esquecê-la? Ou ainda. Tudo o que posso desejar pras minas que não me quiseram é a infelicidade plena. Ao meu lado, creio, elas seriam mais felizes — porque sou um cavalheiro e, alhures, as minas seriam induzidas aos próprios cus — embora eu não saiba muito bem o que isso, “induzi-las”, queira dizer: de qualquer forma elas seriam mais felizes. Acho que sim.
Vou pedir pro babaca do meu senhorio instalar uma rede e cortinas negras no bangalô. Foi ele mesmo que disse: “Qualquer coisa, me chama” — eu não o perdôo. Não do jeito que amo e concedo. O ato em si é apenas o ponto de partida prum ódio desdobrado, muito mais sofisticado, profundo e exigente. Violento até, eu diria, se fosse o caso. Isso depois de o chato explicar detalhadamente o funcionamento de todas as chaves, arruelas e registros, tampas e sifões da porra do bangalô, com as devidas recomendações, recados e recadinhos. O lixeiro passa às terças, quintas-feiras e sábados de manhã. — Tá. Em primeiro lugar, solicitarei a instalação de cortinas negras, depois vou incluir a rede na varanda — digamos... — como um elemento hermenêutico e ameaçar o pagamento do primeiro aluguel antes do tempo. Aí, para satisfazer as expectativas artísticas e a autoridade do meu senhorio, digo que sim. — Sim. O divertido é que o cara, apesar do meu fastio e da vontade de condenar-me por isso e por causa do meu chinelão Rider, acaba arrumando o pretexto das arruelas, do horário dos lixeiros e quimeras afins para ele mesmo cair feito um pato na armadilha que eu (?!) supostamente havia engendrado para encaçapá-lo. São as nuances e veredas do artista que ele pensa que é: “qualquer coisa, me chama”, fazer o quê? — Tá, eu chamo. Para mim, é fácil; basta tirar os óculos de lentes míopes, cruzar as pernas de ladinho, ensejar acrílicos e atinar com o horário do lixeiro e ser honesto como afinal de contas eu sou. Todo mundo acredita. Às vezes até eu acredito. Adquiri um caráter, sei lá onde fui arrumar fôlego, estômago e labirinto para tanto, mas, depois de todos os assassinatos e suicídios contumazes, só pode ter acontecido isso. Um caráter. Ou um repertório, quem sabe? Tem fulano que compra a crédito. Tem sicrano que fica cego. Outros, devidamente matriculados, freqüentam confrarias sadomasoquistas. Uns criam cavalos. Outros têm filhos. Tem os que sofrem de reumatismo e mal de Parkinson ao mesmo tempo e aqueles que acabam loucos e broxas. Os piores têm os melhores exemplos. A cachaça pela literatura. Ou vice-versa. Tanto faz. — Eu adquiri esse caráter. Ademais, sou leitor da National Geographic. Trato de buganvílias e escarpas, jardinagem e bonsais com a mesma desenvoltura (nunca cara-de-pau), distanciamento e cumplicidade com que às vezes — tudo sob medida — deixo escapulir/sugiro uma confissãozinha erótica. Do mesmo jeito — assim, com a boca mole — especulo sobre seixos, falésias e acidentes geográficos, desde a falha de San Andreas na Califórnia, passando pelo trecho ferroviário que liga Curitiba ao porto de Paranaguá até as estradinhas vicinais e os melhores horários e as pousadas mais aconchegantes. Sei dos mapas. Tem sempre um “casalzinho amigo nosso” incluído nos roteiros, atalhos e fins-de-picadas imperiais que ninguém conhece. Tudo muito simpático. Isso sem falar nas caminhadas noturnas, na Mata Atlântica e na porra da lua cheia. — Sabe, Frank... (meu senhorio chama-se Frank, trabalha com acrílicos), o engenho de pinga em Parati é imperdível. Eu e Kiko descobrimos uma cachoeira maravilhosa e a Bia, mulher do Edu (o “casalzinho amigo nosso”) tirou fotos de uns macacos impagáveis. Ai, ai. Tem a procissão, a festa de Nossa Senhora do Arrependimento Tardio, os ícones... e etc. e etc. e eu não troco nada disso pela vida alternativa no Drive-Thru do McDonald’s. — São impagáveis, os bichos — um filão que o Carlinhos Brown, aliás, soube explorar como ninguém. O negão é foda — “subversivo”, quase um rapper na escala evolutiva. Bia adora criolos sarados (é o assunto preferido dela nos sushis). Mas é o seguinte, Frank: daqui a sete dias pago a metade do aluguel, porque a outra metade eu gastei em putas, e aí no mês que vem vou enrolá-lo novamente com um papo agradável e simpático, a gente pode falar dos teores alcoólicos do absinto aqui, em Portugal, e na Europa do século dezenove. Que tal, Frank? A outra metade vou gastar em cocaína e a gente vai dar umas cafungadas juntos de modo que você vai ficar me devendo o aluguel do mês seguinte. Incluídos o sushi, meu ascendente em escorpião e, de repente, rola um vídeo na casa da Esther (que é uma graça e cria mongolóides em estufas) — que cê acha, Frank? — Ok. Ai, ai. De qualquer forma, eu não tava a fim de anunciar meu retorno. Sou a melhor visita, mas odeio ser visitado. Não tenho jeito para desempenhar frescuras no meu chiqueirinho particular e, curioso, em todo bangalô, loft ou a porra que os valha alugados, sobram cadeiras e retratinhos de melindrosas tristes dependurados no banheiro, aparadores de metal e bongôs odiosos, enfim, essas bobagens que me tiram do sério e das quais eu absolutamente não tenho como prescindir na casa dos outros. Acho que é morbidez. Sou um cara mórbido. Voltei. — Tô no bangalô do Frank. Anota o endereço aí. Eu moro na rua do Siri. Às vezes tem gaivotas e andorinhas na jogada, geralmente rua com nome de ave ou peixe. A história de Santa Catarina não dá muitas opções. Onde você mora? — Na Lambari esquina com a Baiacu. Eu não gosto disso; senão é rua das Begônias, das Margaridas ou das Anitas recusadas, três vezes, por seus Giuseppes. Um marechal carniceiro que remete curiosamente a flores e um tal de Almirante Lamego que eu faço questão de ignorar. Os pores-do-sol no Campeche e um criolo chato metido a simbolista. Até Saint-Exupéry e Fernando Henrique (sempre gente redundante) flanaram e deram seus palpites por essas bandas. Aí, depois de noventa anos de siris, frutos do mar e caldeiradas — um cineasta surtado com luzes vermelhas — farras do boi e peidos de buceta, aparece o Guga rastafari e a Débora Blando cantando Raul Seixas. Não dá. Uma vez me recusei a morar na “rua do arco-íris”. Mas eu tava falando que essas merdas me são imprescindíveis. Que sou um cara mórbido. Pois bem. Incluo aí mulheres bronzeadas pelo sol do outono, biscoitos amanteigados e paisagem. Um edredom secando no varal. Até chihuahuas e xampus/condicionadores da linha Hernandez y Picasso — giletes esquecidas na saboneteira — e a recomendação inútil para “não reparar nesses detalhes”, eu encaro. Ou seja, Cris bem poderia acrescentar, aos seus olhos amendoados e à falsa doçura, um par de tetas suculentas e a voz da Janaina ao telefone. Taí. O problema é que ela não se convence disso. O negócio é endurecer o jogo: — Vou te dar uns arretos, tá ligada?! Às vezes essa Cris me entedia. Queria ter uma maluquete para mim, cocainômana, com dois “brasilinos” de oito e quatro anos para criar, estrias — sempre, sempre — subindo do púbis, horários esquisitos, e que gostasse de mim, da minha “falta de jeito” e dos meus mamilos mexericas, enfim, que espremesse minhas espinhas contra a minha vontade e lambesse meus bagos vagarosamente. Uma mina 100%. A gente ia se divertir com as pipocas do microondas e eu, em princípio, não iria reprimi-la por conta de suas tetas caídas e da mania de andar pelada pela casa. Ela, em contrapartida, ia ter que assistir ao programa do Raul Gil e ouvir os cds mais melancólicos do Piazzola, comigo. — Aiiiiiiiii, porra! O que cê tá fazendo? — Olha só o que eu catei nos teus bagos! Sei lá, acho que eu ia dar umas porradas nela e diria alguma coisa do tipo “vai arrancar os pentelhos brancos dos bagos do teu avô, vai pro inferno e deixa eu ver o Raul Gil em paz”. Saudades. Tenho saudades e a convicção de que as coisas mais imbecis se passaram ao largo para mim — e que eu devia mesmo tê-las desprezado. Todavia, a saudade é maior. Isso é que me incomoda — especialmente por eu ter conseguido preterir tanta merda e a saudade me faltar, em dobro.
Ontem, sonhei que meus dentes caíam de podres. Hoje, providenciei uma catedral amarela e codornas — porque eu sei o que faço. Meus amigos estão fudidos. Um é meu fiador. O outro sai do corpo.
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