CINEMA
O viajante Bernardo Vorobow, por Walter Salles
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É claro que, se compreendemos a linguagem de um outro modo, a linguagem como expressão unitária e única de um falante unilateral, esta afirmação pode soar absurda, na medida em que cada palavra de “Lolita” ou de “Crime e Castigo” foi escrita pelos seus respectivos autores, Nabokov e Dostoiévski. Aliás, como Bakhtin lembra, a estilística tradicional pensa assim, e dessa idéia decorre também toda a classificação histórica dos gêneros literários. Bakhtin coloca o problema em outros trilhos. A constituição da linguagem romanesca está não no mundo das formas composicionais, mas no mundo das relações internas da linguagem concreta.

Claro que o significado da “abdicação à autoridade” pressuposta pelo romance, tomado ao pé da letra, pode soar absurdo: seria transformar o romancista num mero copista ou então naqueles autores que costumam psicografar obras alheias, segundo defendem algumas concepções religiosas. O que essa renúncia significa é diferente: o autor coloca o centro significante de sua linguagem na perspectiva do outro; é a perspectiva do outro que lhe interessa. Mas, é claro, essa voz alheia não lhe vem intacta, a pura voz do outro se consubstanciando na minha mão.

Ela chega até mim refratada, comentada, amada ou vilipendiada pelo meu olhar e pela minha intenção -mas, por mais forte que seja essa intenção, por mais pressão que eu exerça sobre a voz alheia, por mais monumental que seja minha presença diante do universo do outro, essa voz, esse ponto de vista, esse olhar alheio sobre o mundo está lá, necessariamente presente, com o seu grau de autonomia. Claro, eu abdico da autoridade direta da minha palavra, mas eu prossigo vivo no texto, na sombra de cada frase e na arquitetura do texto. Eu sei mais que o meu herói, mas apesar de toda essa imensa superioridade -a partir do fato óbvio de que eu existo concretamente e o meu herói é um ser de fumaça, uma pura imagem-, o meu herói mantém teimosamente a sua autonomia. De certa forma, ele é a prova viva da natureza dialógica da linguagem, em cada um de seus estratos -autor e herói não vivem um sem o outro.

A palavra escrita -a escrita em geral- tem sido ao longo dos séculos a expressão mais acabada da autoridade, a sua consolidação histórica. A história da escrita é também a história da dominação, do controle religioso e jurídico sobre os homens, de todas as formas de sacramento do poder político. A escrita tem um prestígio que nem remotamente o mundo da oralidade sonha ter. A escrita, a partir do próprio sentido de unificação da linguagem que ela exige, tem sido por excelência o espaço da “centralização da linguagem” de que nos fala Bakhtin. As forças centrípetas da linguagem giram todas em torno da escrita e de suas formas de manutenção unitária, dos bancos escolares à letra da lei. O texto escrito parece que carrega consigo, por osmose, por memória milenar, o peso da verdade. A idéia de permanência, de eternidade e de transcendência que a escrita evoca lembra também a gravidade de suas formas; mais que isso, a evocação da autoridade.

Pois bem, o discurso romanesco é o único gênero que nasceu e se desenvolveu pela escrita; é um gênero posterior a todos os outros, filhos da oralidade que se perdem na memória do tempo. O romance, desde o seu embrião nos diálogos socráticos, é filho do mundo da escrita. E é exatamente neste espaço centralizador, nessa forma perene de autoridade, que ele fará sua viagem histórica em direção à descentralização da linguagem. Como para Bakhtin os gêneros literários não caem do céu nem são estabelecidos pelos deuses, é evidente que a prosa romanesca, ao longo dos séculos, vai refratar e atualizar a relação do homem com a autoridade, com todas as formas de autoridade da vida cotidiana.

A visão bakhtiniana da linguagem como atualização de uma relação hierárquica de forças necessariamente presente em todas as formas composicionais abre caminho para perceber a linguagem da prosa e a linguagem da poesia em outros trilhos, que não os estritamente formais. Assim, não foi exatamente o “narrador onisciente” que teria entrado em crise nos últimos duzentos anos, entendido como uma “forma gramatical” -por mais onisciente que seja, o narrador romanesco será sempre obrigado a passar a sua palavra adiante e abdicar de sua autoridade completa sobre o mundo-, mas a própria idéia de uma palavra autoritária e centralizadora sobre o mundo.

Enquanto no mundo moderno da leitura o romance conquista terreno pelo entretenimento, pela reificação no mundo das trocas burguesas, pela indústria do livro, pelo crescente espaço leigo da palavra escrita como “espelho” do mundo, pela idéia da intimidade como algo atraente e merecedor da dignidade da escrita, pela proliferação dos diários, cartas, pelo império crescente do indivíduo, ao mesmo tempo cresce com ele a crise da autoridade. Quanto mais o indivíduo passa a ser um valor social inalienável – a ponto de sua intimidade, como lembrou Bakhtin, lentamente passar a ter o direito de se tornar objeto do texto escrito, o que era impensável no mundo antigo -mais a noção de autoridade, em todas as suas instâncias, se relativiza; desfaz-se o manto sagrado da autoridade. Nos nossos tempos, cada vez mais a autoridade desembarca da esfera sagrada e se transforma numa escolha contingente da esfera política.

E quanto à autoridade poética? Bakhtin dirá que, ao contrário do que acontece na prosa, na poesia, no discurso poético em sentido estrito (no máximo do espectro poético, lembrando a relação quantitativa dessas forças), o autor coloca todo o peso de sua autoridade sobre cada uma de suas palavras. É evidente que no mundo dialógico da linguagem também o poeta vive imerso no plurilingüismo, nas mil linguagens sociais que nos rodeiam e que estão presentes em toda enunciação. Mas a palavra alheia, quando entra no discurso poético estrito, perde a sua autonomia vital, perde os traços capazes de fazer dela uma voz outra que se contraponha à voz do poeta.

Quando o poeta fala, só o poeta fala -é exatamente dessa autoridade primeira que a poesia conquista o seu terreno. Todos os recursos técnicos do discurso poético reforçam essa centralização absoluta do discurso, descolam a palavra da sua vida cotidiana, promovem um corte radical entre a palavra do poeta e a palavra dos outros, isolam a linguagem num casulo único. O metro, a rima, a música, o ritmo, a quebra visual da leitura padronizada, o uso do espaço em branco, a fragmentação, a negação da linguagem prosaica em cada um de seus estratos, o cruzamento de códigos, a singularização máxima dos sentidos e dos significados, da sintaxe e do léxico, todo esse arsenal é usado a serviço da absoluta centralização da linguagem.

O poeta tira a linguagem do mundo corrente e congela-a num objeto verbal que concentra em si um máximo de autoridade. Todo poema é a atualização de uma espécie de púlpito da linguagem. No próprio impacto visual que ele celebra, do clássico soneto, com seus alexandrinos, seus quartetos e tercetos, suas rimas ricas de variada alternância, da melodia de Camões à terra devastada de Eliot, até as realizações verbográficas das vanguardas, como o rico movimento concretista brasileiro, em toda parte em tudo o poema se faz púlpito, expressão de uma autoridade poética que chama a si a responsabilidade total de cada uma de suas palavras.

O poeta pode fazer o que quiser da linguagem; ele é proprietário absoluto dela; ele coloca todo o mundo da linguagem a serviço de sua voz. O poeta é alguém que outorga a si mesmo o direito de falar com toda a autoridade possível de sua voz. Em outra ponta, vemos o prosador, uma figura tímida: ele não pode fazer isso; a constituição da prosa romanesca, e da voz prosaica em geral, mesmo na vida cotidiana, fundamenta-se exatamente sobre a desconfiança da autoridade. O prosador é alguém que se apresenta, no mundo da linguagem, como uma não-autoridade. Há uma espécie de covardia, de reticência, de ocultação, de disfarce no discurso prosaico. O discurso poético pode ter, do ponto de vista temático, todo isso e mais um pouco -mas ele se faz sempre com o peso unilateral da autoridade do poeta. Repetindo Bakhtin, “na poesia, o discurso sobre a dúvida deve ser um discurso indubitável”.

De passagem, lembremos que estamos falando dos limites, o limite da prosa e o limite da poesia, mas é preciso frisar que a literatura se faz em todo o espectro que há entre uma coisa e outra. E, nestes últimos cem anos -e aqui entramos em outro aspecto do tema, o da crise da autoridade- houve de forma muito acentuada tanto a contaminação da poesia pela prosa (uma contaminação fortíssima no caso brasileiro desde o nosso movimento modernista, cujo ideário estava muito longe das vanguardas formais, mais estritamente “poéticas”, que surgiam na Europa) quanto o movimento contrário, a prosa contaminada de poesia, ou cristalizada pela intenção poética, quando o prosador vai fechando as portas que o ligam à vitalidade da linguagem dos outros e se concentra em suas próprias formas, depositando nelas uma dose maior de autoridade.

Essa prosa cristalizada pela intenção poética, às vezes um tênue verniz isolante – marcado pela simples quebra de linha no espaço da página ou de algum inesperado duplo sentido em alguma curva sintática, ou alguma aliteração transcendente aqui e ali no meio de um texto prosaico -tem sido muito freqüente entre nós, do porquinho da índia de Manuel Bandeira aos silogismos elípticos de Francisco Alvim; e às vezes o próprio verniz poético está embebido de sátira, como se a autoridade poética só pudesse mesmo se realizar como paródia, o que se encontra em algumas linhas lancinantes de Dalton Trevisan.

Aliás, no Dalton Trevisan da última fase, a dos mini-contos, vê-se exatamente a expressão de uma crise poética: todas as formas de fechamento e do isolamento formal poético estão embebidas de ironia -em cada linha há um olhar ridente, prosaico, que contamina de forma irremediável a autoridade daquele que fala.

Mas será mesmo aceitável a idéia de que a poesia, como linguagem, é a expressão -mais que isso, tem de ser ou não será poesia- de uma autoridade centralizadora? Para reforçar esse princípio bakhtiniano bastará lembrar que a idéia da voz poética como a voz de uma autoridade indiscutível, embora pareça estranha ou mesmo inaceitável para os nosso dias, pelo valor que damos a tudo que nos leve a desconfiar das autoridades, não é tão estranha assim para os próprios poetas, quando eles falam da linguagem poética. Ou pelo menos a concepção de natureza poética que emerge das palavras de grandes poetas, quando se referem à poesia, lembra bastante a noção de autoridade poética que aqui defendemos. Se fizermos um levantamento do que importantes poetas disseram sobre poesia ao longo do século XX, veremos que as imagens recorrentes girarão em torno justamente da idéia de autoridade intrínseca do discurso poético.

A primeira imagem que transparece, pela boca do próprio poetas, talvez a imagem mais popular, define poesia como o “indizível” -Jorge Luis Borges, por exemplo, e nesse caso aparentemente sem ironia, diz que não podemos definir a poesia como não podemos definir o pôr-do-sol, o amor, o ódio, etc. A poesia está “entranhada em nós”. T. S. Eliot se refere ao poeta como alguém “mais velho” do que os outros seres humanos, o que é uma forma profunda -talvez a mais profunda e inacessível- de autoridade.

Mais que isso: há uma dimensão sagrada nessa autoridade. Aliás, a idéia de antiguidade como expressão da poesia também é bastante recorrente; Octavio Paz diz que o ritmo, parte inseparável da poesia, é o elemento mais antigo e permanente da linguagem -talvez, é Paz que diz, seja anterior à própria fala. Em Lezama Lima, a idéia, ou a sugestão (o que seria mais apropriado no caso dele) do poético como o indizível está praticamente em cada linha. A poesia é o irreal, o não-ser.

Para Octavio Paz, “a poesia é a forma natural de expressão dos homens”, o que é um modo de tirá-la do mundo da cultura e colocá-la no mundo da natureza. Em outro momento, o próprio Paz diz que “o poema transcende a linguagem”. Para Paul Valèry, a poesia se identifica com a expressão de Deus. O que também é a visão do nosso Manoel de Barros, ao seu modo falsamente corriqueiro: “Arte há de ser para sempre uma comunhão da Natureza de Deus com a nossa naturezinha particular”.

Enfim, por essas imagens recorrentes que saltarão aos olhos de quem quer que se detenha sobre o que dizem os poetas sobre o próprio trabalho, parece que, em se tratando de poesia, há um território da inteligência que, de fato, chama a si a máxima autoridade possível -a identificação da poesia com Deus, por exemplo, passa talvez por metáfora, mas está ali, escrita com todas as letras para quem quiser ler.

1 - BORGES, J. L. "Esse Ofício do Verso". São Paulo: Companhia das Letras, 2000. pp. 26-27.


2 - ELIOT, T. S. "The Use of Poetry and the Use of Criticism". London: Faber & Faber, 1967. p. 156


3 - PAZ, O. "Signos em Rotação". São Paulo: Perspectiva, 1996. p. 11.


4 - LIMA, J. L. "A Dignidade da Poesia". São Paulo: Ática, 1996. p. 126.


5 - PAZ, O. Op. cit., p. 12.


6 - VALÈRY, P. "Variedades". São Paulo: Iluminuras, 1999. p. 170.


7 - Entrevista concedida a Fabrício Carpinejar. Porto Alegre: "Zero Hora", Caderno Cultura, 21 de junho de 2003.

 
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