CINEMA
O viajante Bernardo Vorobow, por Walter Salles
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prosa.poesia
LANÇAMENTO

"Vista do Rio"
Por Rodrigo Lacerda



O escritor Rodrigo Lacerda/Divulgação

"Sempre gostamos dos animais. Adorávamos os ratos comprados em loja, dissecados no quarto"

Difícil, importar um beija-flor até o Estrela de Ipanema. Feito isso, o resto foi exatamente a parte boa. Sem ninguém saber.

Virgílio enfiou-o dentro do liqüidificador e encaixou a tampa. O bicho, a princípio, só se debateu um pouco, quase parado no ar.

Quando Virgílio apertou o botão -velocidade baixa- aí sim vimos a primeira faísca de adrenalina riscar seu corpo minúsculo, metalizado de verde e azul. Assustado com o barulho da rotação das lâminas, ele aumentou o ritmo da batida de suas asas e a força dos choques que dava contra as paredes.

Olhando o copo de plástico do liqüidificador, eu o vi aflito. Olhando a tampa, reparei nas unhas e na palma das mãos de Virgílio, tão mais claras que o resto de sua pele. Dedos finos, o movimento aparecendo.

Qualquer passarinho serviria, mas não como os beija-flores. Espírito lúdico, gozo sádico e curiosidade científica perfeitamente integrados. Sempre gostamos dos animais.

Adorávamos os ratos comprados em loja, sedados e dissecados no quarto. O bisturi rasgava o couro fino de suas barrigas. Saía um cheiro azedo, confundindo-se ao do éter usado na anestesia geral e na limpeza dos instrumentos. Adorávamos os girinos do aquário, fetos expostos e minúsculos, pretos, com olhos engraçados, transformando-se, ganhando patas como se fossem deformações provocadas in vitro, enquanto seus rabos diluíam-se lentamente. Ou as formigas que encostávamos em pedras de gelo, enrijecendo-as por um tempo, para depois botarmos para ressuscitar no sol, na beira da janela. Às vezes, com sucesso. E mais ainda o laboratório comportamental inventado por Virgílio, que montávamos na Praça Nossa Senhora da Paz. Uma grande bacia com água até a metade, algumas pedras fazendo as vezes de ilhas, formigas de espécies diversas e gravetos-pontes. As formigas circulavam apressadas, retidas no arquipélago instantâneo, matando e morrendo pelo privilégio de devorar os cadáveres em que se iam transformando e as gotas de sorvete intencionalmente postas ali. Era comum o suicídio, com elas se jogando desesperadas na água.

Uma excitação. O corpo metálico, musculoso e pequeno, foi cansando. A carapinha de Virgílio parecia eletrificada. O verde dos olhos acendeu.

- Ele é forte -eu disse.

Virgílio não respondeu.

Sorrimos de nervoso, um sopro no coração.

Capítulo à parte, os gatos e cachorros da rua. Era divertido amarrá-los nos pára-choques dos ônibus. Incapazes de acompanhar a velocidade, se embolavam nas patas, caíam e iam sendo arrastados pelo cimento afora. Ou sufocá-los com sacos plásticos, observando enquanto seus rostos iam embaçando numa careta. E, nas grandes ocasiões, incinerá-los com álcool e fósforo, pois eram sempre exuberantes no momento final. As chamas na caçamba de entulho vinham fácil. Jogada a vítima, tapada a fuga, Virgílio saboreava a contagem, enquanto os guinchos atravessavam as chapas de ferro, 5.... 4.... 3.... 2.... Ligados os pontos entre o medo, a antecipação e o fato, estava aberta a passagem para uma bola de fogo em disparada.

O bairro todo virou quintal. Ipanema, em Tupi, é elogio?

Quase esgotado, o beija-flor foi se entregando, largando, descendo. Desistir começou a ser uma opção. Bastou o rabo encostar nas hélices, contudo, que suas energias voltaram. Com sorte roto, com azar já ferido, o bicho subiu de novo. Suas asas ocuparam um espaço maior que elas, num frenesi que só o medo da morte é capaz de provocar. Convulsão, taquicardia, e os olhos pretos, do tamanho de uma cabeça de alfinete, ganharam expressão. Ele se debateu contra a tampa e as paredes de plástico, à sombra de Virgílio, que, satisfeito, retapava o liqüidificador.

O segundo botão fez as hélices girarem imediatamente mais rápidas e mais gritantes. O barulho de motor doía nos ouvidos.

- Se fosse um escorpião já teria se matado -disse Virgílio.

O pássaro nunca poderia ter imaginado. As flores eram de plástico, a água, adoçada artificialmente, a sombra, armadilha; seu mundo inteiro o traiu.

Era natural que ele caísse. Desabou. As lâminas emudeceram por um instante. Quando a força de seu giro afinal venceu a resistência, jogaram contra as paredes de plástico uma pasta grossa e molhada, vermelha escura -algumas penugens metalizadas ainda vagamente identificáveis; partes duras, alvas, moídas, no meio da coisa-, e o barulho do motor, um pouco só mais grave, retomou o volume normal.

*

Eu li -vou logo avisando- que os verbos bin, ou ser, e bauen, construir, eram um só no alemão arcaico. Eu li. Digamos, por uma questão de prudência, que ambos têm apenas a mesma origem etimológica, mais arcaica ainda, ou, enfim, são aparentados de alguma forma distante (no mínimo, têm menos de seis letras e começam com b, e para o leigo isso já implica semelhança que chegue). Sem falar na mistura básica entre ser e estar.

É um carma, uma existência inescapável, dinâmica e mutuamente determinante entre o entorno, a casa e a pessoa. Seja para o marginal sanguinário, cercado de metralhadoras no último barraco do morro, ou para o corrupto federal, peidando dinheiro numa cobertura maravilhosa, o carma vale. Aplica-se ao povo brasileiro, cujos extremos da pirâmide social acabei de citar, mas é sem dúvida um fenômeno humano.

Aparece em conjuntos decorativos, explicitado, ou em pequenos detalhes, nas desimportantes seleções cotidianas, quase imperceptíveis; por exemplo a ordem dos livros numa prateleira. Surge nas sombras, no efeito da lâmpada que acende e apaga, nos propósitos arquitetônicos, nos limites humanos, na filosofia de vida, no espírito da época. É um trânsito sutil, lento e poderoso.

Não por acaso, para mim e Virgílio, todo o bairro de Ipanema nasceu à luz do prédio onde morávamos. Prudente de Moraes, 765, entre Montenegro e Joana Angélica. A cidade e o mundo vieram depois. Não por acaso, também, o Estrela de Ipanema impregnou- me de sua urgência vital. Defendia a linha reta como a melhor maneira de unir dois pontos. Jamais como separadora de planos. A multiplicação infinita deste princípio da divisibilidade não estava prevista, e nem a famosa fórmula de Virgílio:

MATEMÁTICA DO CAOS X CAOS DA MATEMÁTICA = LÓGICA PURA
LÓGICA PURA =

Não existiam incertezas sistêmicas. Portanto, para cumprir minhas rotas e atender à urgência do cronômetro estelar, eu focalizava um destino e saía correndo. No puro reflexo, ia pulando os acidentes geográficos do calçamento e desviando das coisas e das pessoas. Louco para chegar antes da hora, em tudo. Quando não chegava antes, era tarde demais. Estava na minha mão.

Conhecidos, os poucos ágeis o suficiente para discernir meu vulto apressado, só depois, em outras ocasiões, tinham chance de registrar o pseudoencontro. Eu rebatia as piadas na família, acusando:

- O mundo é que é devagar.

O Estrela de Ipanema também afetou bastante a Virgílio. Chego lá.

Antes, é dizer que nosso preceptor era antenado, veloz e cosmopolita. No bairro, posso afirmar sem susto, não tinha rival. Nem no país. Ganhou o prêmio do Instituto dos Arquitetos do Brasil, 1969.

Sua audácia impunha respeito, expressa na tal fixação por linhas retas, nos ângulos arrojados e nos materiais, sempre ligeiramente alterados para melhor. Tudo isso combinado a uma flora muito particular e bem escolhida. Um show de originalidade, firmeza e elegância, diferente dos prédios que abusavam do moderno e da natureza antes de dominá-los por completo.

A própria demarcação do terreno já era triunfalista. Valas rasas e estreitas, de uns quinze centímetros de largura e preenchidas com cascalho conglomerado, quadriculavam todo o piso externo, diferenciando-o da calçada pública. Rasgavam no chão um imenso tabuleiro de xadrez, em que todas as casas eram cinza, cor de cimento cozido.

A arquitetura do futuro chegava, organizava e dominava, talvez expressando os mesmos humaníssimos desejos de sempre, mas com inédito poder afirmativo.

*

Virgílio voltou antes da hora. O elevador parou em dois andares, mas ninguém abriu a porta. Chegando em casa, foi direto à cozinha beber água. O sol ia morrendo lá fora, embora o calor ainda fosse grande. Um bilhete na bancada da pia, da empregada para o marido, anunciava o supermercado.Virgílio chegara até ali sem se preocupar em ser silencioso, mas também não se preocupando em fazer barulho.

Alguma coisa, abafada e sutil, estava no ar.A porta de vidro jateado, entre a cozinha e a área de serviço, totalmente aberta. Passando-a, ele viu, perfiladas à direita, ao longo da parede de tijolos, as três portas-venezianas que protegiam os quartos dos empregados. Nada se via através. A primeira, contudo, entreaberta, deixava à mostra uma televisão preto-e-branca, desligada, e a tábua de passar, ao lado de uma cadeira cheia de lençóis e roupas empilhados. Não tinha ninguém ali. Virgílio ouviu o pio de um passarinho. A segunda porta estava fechada, mas ele sabia de cor o que estava do outro lado. A cama do casal no meio, o crucifixo simetricamente dividindo o espaço acima dela, e as páginas de revista coladas nas paredes como decoração. Continuou, o som não vinha dali.

Virgílio pensou no cachorro, no barulho que fazia ao roer as coisas. Não era igual. Intrigado, abarcou num olhar a área de serviço do apartamento, toda enfeitada pelos vasos de samambaia da Fátima e pelos canários engaiolados do Jairo. Ela conversava com as plantas. Ele adorava os passarinhos. Lembravam-no do Ceará e do pai, morto antes da vinda para o Rio de Janeiro. O Estrela de Ipanema, afirmativo que fosse, abrigava afinal alguns corações nostálgicos. A cozinheira e o motorista, casados, pareciam gozar de uma felicidade pré-industrial, recebida de graça e não como prêmio. Tinham um filho; Miguel, doze anos. A vida era estável e simples.

Fátima era uma baiana alegre, com sorriso de mulata forte. Sempre havia sido cheia de corpo, mas agora, beirando os quarenta, arredondara de vez. Aprendera a cozinhar como quem é gênio: sem regra. O bom humor e seu talento faziam a diferença.

Jairo era um cearense alourado, baixo, troncudo, de mãos grandes. Tinha o temperamento mais sério que o da mulher, e justamente por isso vivia de quatro por ela. Ria sempre, ora embevecido, ora fingindo que desaprovava suas loucuras. Era discretamente bom. Escondia uma peixeira no carro, embaixo do banco do motorista, por pura machice sem conseqüência, ou mera evocação do agreste. Delicado, tratava os passarinhos com zêlo paternal, trocando diariamente a água das gaiolas, compondo uma alimentação adequada para cada fase de suas vidas. Tinha-os de várias cores -amarelos, laranjas, marrons e pintados-, todos com os bicos curtos e incisivos da espécie. Acariciava-os, dava-lhes comida na boca, falava com eles. Sabia exatamente quando os amedrontava como um gigante assustador, ou quando era o momento de esticar sua mão e deixá-los vir, convencidos. Estando em casa (no apartamento), sem serviço, ia sentar na janela da área, silencioso, tomando com gosto o café que Fátima passava, e deixando que as aves minúsculas o levassem para muito longe. “Os machos cantam mais e melhor que as fêmeas” -dizia, explicando quem era quem no emaranhado de gaiolas. Eu e Virgílio nunca aprendemos a distingui-los. Nem pelo canto, nem pela cor; e misturávamos os nomes. Jairo nunca desconfiou de nossa queda por beija-flores.

A brisa marítima, ao entrar pelo décimo-primeiro andar, balançava sutilmente as pequenas jaulas, e os canários quicavam de um poleiro a outro. O fim da tarde pintava o céu de rosa e laranja. O morro Dois Irmãos, ao fundo, recortava um perfil de sombras no horizonte. As aves piaram rapidamente, todas ao mesmo tempo, conspirando, e Virgílio deixou de escutar qualquer outra coisa. Ficaram quietas, então.

No terceiro quarto, o que de cara atraiu seu olhar foi a bunda de fora. Bonita, pensou. Depois, vendo que era de homem, reparou na calça abaixada, nas costas, nos braços musculosos. E nas mãos, segurando carinhosamente as ancas magras de um menino; arranques lentos, ritmados, mal se deixando imprimir pelos dedos.

Virgílio, de onde estava, não viu nitidamente os rostos, mas os corpos estavam calmos, em pé, distentidos, exalando o vapor morno de suas respirações. O filho com as pernas abertas. O pai, Jairo, beijando seu pescoço.

*

Bolhas de refrigerante, estouro de pipocas. Balões de gás amarrados aqui e ali. As crianças brincando, sem pensar na vida. O sol ardendo-lhes na cabeça. O peito aberto, o coração no pé. Uma bola quicava no cimento e elas corriam atrás, aos gritos e ao som das caneladas. Alegria de domingo num subúrbio à tarde. Muros enfeitados.

 
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