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prosa.poesia
LANÇAMENTO
Primos Leia um conto do novo livro de Nelson de Oliveira, "Sólidos gozosos e solidões geométricas" Aconteceu. Não podia ter acontecido. Jamais, em nenhum momento. Cidade pequena, minha filha. Cocô de cidade. Primos. Apenas isso. Primos. Quando o Fred, depois de abandonar o copo vazio no encosto do sofá, começou a deslizar delicadamente a mão sob a camiseta amarfanhada da Luísa até sentir de leve um bico rijo, trêmulo, na ponta dos dedos, ele por um segundo ficou tentado a recuar, a sair daquela sala, daquela casa, pra sempre. Quando foi isso? Não sei bem ao certo. Acredito que no fim de semana passado. Não sei. No sábado, acho. E Madalena, onde estava? Na casa da cunhada, talvez. Ou na feira. Não. Provavelmente no clube com os sobrinhos. Sei lá. Isso não importa. Andavam sempre juntos, os dois. Tudo começou com uma brincadeira. Você sabe, isso não podia dar certo mesmo. Luísa saiu da cozinha. Fred a seguiu. Ele queria saber onde é que ela havia escondido os seus tênis. A Luísa respondeu, vá à merda, entre risos e sinais obscenos com o dedo médio. Pareciam duas crianças correndo ao redor da mesa da sala, ele furioso, as meias à mostra, ela vestindo uma bermuda e uma camiseta velha, com motivos geométricos, coloridos, astecas. Santo Deus. Pois é. Escute só o que vou te contar. Luísa estava atrasada para o encontro com as amigas no ginásio, onde aconteceria o campeonato de vôlei. Estava muito atrasada. Mas não se importava com isso. Seu corpo pelado, completamente teso e alheio a todo tipo de compromisso, a todo tipo de estratégia esportiva, procurou se acomodar no sofá, entre as almofadas bordadas à mão pela querida e prestimosa tia Clotilde, bonitas almofadas, bordadas uma por uma um pouco antes do Natal. Sem a camiseta, sua pele parecia menos renitente, menos refratária ao toque. Havia um pouco de vinho derramado no braço do sofá, mas isso não incomodou a Luísa. Devagar, ela apanhou a garrafa na mesinha de centro e, entre risos, encheu seu copo até a metade. Vinho? Isso mesmo. A Luísa encontrou escondidas no guarda-roupa da mãe duas garrafas de marca desconhecida, mas muito saborosa, provavelmente chilena. Fred, perdido nos próprios movimentos, percebeu que a maneira como beijava os pequenos peitos da Luísa, de leve, atacando os bicos às vezes com a ponta da língua, às vezes com a boca toda, devagar, mantendo certo ritmo, fazia com que cada um deles tomasse uma direção diferente, dispondo-os de maneira levemente estrábica. O copo no encosto do sofá ameaçou cair várias vezes com o movimento involuntário dos dois entre as almofadas. Mesmo assim o Fred não diminuiu o ritmo. Não havia programado isso. Não havia programado o vinho, o sofá, o corpo delicado da prima firmemente posicionado sob o seu, o cheiro de sexo no ar, nos livros, na televisão, na casa toda. De jeito nenhum. Não havia programado isso e agora, submerso num milhão de estímulos atemporais, pré-históricos, nada do que sua consciência pudesse pensar ou fazer poderia resgatá-lo desse corpo, do corpo suado, um pouco desconfortável, da Luísa. Fred mordiscava com muita desenvoltura o bico dos peitos da prima simplesmente porque via nisso, entre outras coisas, uma forma bastante prazerosa de vingança contra todos os peitos, grandes e pequenos, brancos, amarelos e negros, de todas as mulheres. Mordiscava os dois bicos, alisando de leve a coxa da menina, sua bunda. Isso mesmo. Uma forma de vingança contra todos os bicos, coxas e bundas que sempre quisera mordiscar na rua, no colégio, em toda parte, mas sem sucesso. Além do mais os gemidos que escapavam da Luísa, mergulhada numa quase sonolência devido à bebida e à música alta que aos poucos ia dissolvendo seu raciocínio, suas reações mais corriqueiras, vinham, graças a esses beijos, com mais naturalidade, com mais frescor. E isso, quase por acidente, acelerava ainda mais o furacão silencioso que sacudia cada pêlo, cada ruga, espalhados dos pés à cabeça, tornando-os ainda mais inconsistentes, ainda mais femininos. Mas as cortinas da sala não estavam abertas? Ninguém na rua parou pra ver o que é que estava acontecendo? Sim e não. Na verdade, não só as cortinas não se encontravam fechadas como também as janelas estavam todas escancaradas. Entretanto, por mais incrível que isso possa parecer, ninguém na calçada se deu conta do que estava se passando a poucos metros da grade, atravessando o jardim. Talvez porque o dia estivesse demasiadamente quente, não sei. Sim, fazia calor. Muito calor. Tanto que, bêbada, enlouquecida de tesão, a Luísa observava através da janela da sala as pessoas, os automóveis na rua, apressados, e ficava se perguntando, absorta nas vibrações de ansiedade e prazer que seu corpo produzia seguindo o ritmo lento da língua do Fred, até quando todo esse cenário irreal, cheio de figuras imateriais, vazias, iria resistir sem derreter, sem tornar-se mais uma vez pó. Fred abaixou a cueca e pressionou o pau contra o púbis da Luísa, tocando-o carinhosamente, fazendo pequenos movimentos de vaivém, procurando sem perda de tempo os pêlos e o calor dessa região tão macia e desprotegida. Na estante as caixas acústicas emudeceram, de repente, após um clec seco num dos mecanismos do aparelho de som. A fita chegara ao fim. Ninguém no entanto se levantou pra virá-la. Luísa afogava-se cada vez mais na festa estrepitosa que tomava conta dos seus sentidos. Ui, ui. Percebendo um arrepio subterrâneo invadi-la, segurou com firmeza o pau do primo, abriu um pouco mais as pernas e começou a se masturbar com ele, a princípio estimulando o clitóris com bastante cuidado, apenas pra senti-lo desabrochar, eletrizar-se, depois com mais vigor, apertando a cabeça do cacete nos pêlos, subindo e descendo, espalhando-a por toda a região dos grandes lábios, fazendo-a sentir seu cheiro, sua textura quente e úmida. Epa, de repente escutaram alguém abrindo o portão do jardim. Em seguida ouviram um ruído agudo, natalino, provavelmente de pequenas chaves chocando-se umas contra as outras. O ruído surgiu lânguido e afetado, como se necessitasse de toda a eternidade para se concretizar, para percorrer os poucos metros que o separavam da sala. Então parou no ar, imobilizou-se. Mademoiselle latiu no quintal e, pouco depois, a Luísa e o Fred puderam ouvir seus passos alegres levando-a pelo corredor em direção ao jardim. É a sua mãe, sussurrou Fred, gelado. O calor aumentou no corpo da Luísa. Um aquecimento de dentro pra fora, visceral, de apreensão. Apesar da brisa que entrava pela janela seu rosto começou a arder, a se desfazer, como se fosse uma pasta de borracha solta sobre os ombros, sem qualquer fixação, no vácuo. Imediatamente os dois pularam do sofá. Sem saber o que fazer, o que dizer, permaneceram alguns segundos quietos, afastados um do outro, procurando construir com a ajuda dos ouvidos uma imagem provisória, bidimensional, que pudesse reconstituir todos os passos de Madalena, da casa da cunhada, da feira, do clube, de onde quer que ela estivesse, até o portão. O leve tilintar de chaves transferiu-se, nesse meio tempo, do portão para a porta da sala. Luísa, pálida, encarou Fred, à espera de um gesto que, partindo dele, pudesse pôr ordem na sua indecisão, na indecisão de ambos. Mamãe detesta que eu fique andando pelada pela casa. Ainda mais durante o dia, exposta aos olhos de todos. Mamãe detesta isso. Detesta muitas outras coisas também. Detesta conhaque, cerejas e roupas muito justas. Detesta visitas inesperadas, principalmente de antigas amigas da faculdade. Detesta filmes policiais e música sertaneja. Porém, mais do que tudo isso, é, bem mais do que tudo isso, ela detestaria ver minha bundinha branca zanzando pra lá e pra cá, ao relento. Fred, num gesto automático, escondeu-se atrás da cortina, no canto da sala, no estreito vão existente entre a parede e a estante. A cortina, quase inteiramente recolhida, drapeada, formava um emaranhado muito colorido, cheio de harmoniosas porém monótonas reentrâncias. Atrás da cortina? Está brincando! Pois é. Luísa, aproveitando que apenas as costas do sofá ficavam voltadas para a porta, sem dizer uma só palavra tornou a se esticar entre as almofadas, no momento exato em que a porta se abria e sua mãe, carregando duas sacolas pesadíssimas, entrava em casa, exausta, respirando com sofreguidão. A filha se encolheu mais ainda, afrouxando os músculos dos ombros, das pernas, deixando o vinho correr displicentemente por suas artérias, entregando-se à deliciosa sensação de pânico e langor, prazer e excitação. Madalena, de costas para o sofá, deixou as sacolas no chão e fechou a porta com rapidez, antes que Mademoiselle pudesse passar. Perdida em seus pensamentos, ao pegar mais uma vez as compras do dia não percebeu que havia esquecido um saquinho de quiabo na barraca de legumes, nem que havia recebido troco a menos ao comprar ovos. Não. Não percebeu também a presença de uma camiseta em cima da mesa, nem de um par de meias soquetes no tapete, ao lado de várias folhas de jornal velho espalhadas, muito menos do bolo de roupas que a Luísa tivera o cuidado de enfiar embaixo do sofá, antes de se deitar, roupas que todavia estavam com uma das pontas aparecendo de leve. Não. Não percebeu. Irritava-a a maneira como Mademoiselle gania e arranhava a porta, às vezes jogando-se contra a madeira, tentando entrar a qualquer custo. Irritava-a. Por isso andou tão apressada na direção da cozinha, procurando desembaraçar-se o mais rápido possível dessa trama de pensamentos matinais, sem graça, louca pra desempacotar as compras, louca pra tomar um banho, louca pra. O telefone tocou. Madalena atendeu na cozinha. Empurrou a porta, sem vontade, não chegando a fechá-la. Fred, o tempo todo em que esteve atrás da cortina, não moveu um dedo sequer. Luísa, o tempo todo em que esteve deitada no sofá, não abriu os olhos, não respirou. Mademoiselle continuava ganindo no lado de fora. Durante quanto tempo os dois ficaram aí na sala? Três ou quatro minutos, eu suponho. Não mais do que isso. Madalena, ansiosa, com o telefone sem fio colado no ouvido, não parava de andar, aparecendo e desaparecendo na fina fresta deixada pela porta da cozinha. Era só o que me faltava. Fred foi o primeiro a sair do seu esconderijo. Pé ante pé, com o pau ainda duro ele caminhou vagarosamente na direção da escada, aproveitando que Madalena, com a mão na testa, decidira de uma hora pra outra permanecer sentada num banquinho, de costas pra sala. Luísa, com muito cuidado, esticou o pescoço e sondou o terreno. Venha, sussurrou o primo, fazendo sinais nervosos com a mão, aparentemente para o infinito. Vamos pro seu quarto, ainda teve tempo de completar antes de seguir em frente. Pro seu quarto. Luísa, meio grogue, com o bolo de roupas nos braços, deslizou devagar, escondendo-se primeiro atrás do biombo que separava a sala da copa, depois atrás de um comprido vaso de antúrios que decorava o pequeno corredor existente entre os dois cômodos. Deslizava feliz, apreensiva, seguindo os movimentos cadenciados das pernas, da bunda do Fred, acompanhando seu gostoso rebolado. Divertia-a muito o jeito como ele patinava pelo assoalho, equilibrando-se. Apesar do corre-corre, Fred não tirara suas meias. Madalena bateu o fone no gancho e resmungou qualquer coisa na cozinha. Por alguns segundos continuou sentada, pensativa, ao lado das sacolas fechadas. Filho da puta, sussurrou. Madalena disse isso? Você está brincando. Filho da puta? Pois é. Foi isso mesmo. Filho da puta. Em seguida começou a desfazer os embrulhos. Pepinos, abobrinhas, chuchus, tomates, acelga. Parou de repente, quando se preparava pra enfiar na geladeira um maço de rabanetes. Parou, o rosto completamente vazio, fora de sintonia. Madalena, tomada por uma estranha sensação de abandono, ouvia chiados, palavras, frases inteiras vindos de muito longe, de dentro do seu estômago. No entanto, por mais que tentasse não conseguia assimilar o que é que estariam querendo dizer. Não. Nada. Saiu da cozinha remoendo sensações bastante vagas, decidida a tomar um banho, encomendar o almoço, esquecer. Luísa correu na direção do oratório, descalça, sem produzir nenhum ruído, e se meteu no canto escuro entre a parede e a lateral do móvel. Fred, por sua vez, escondeu-se de pé, rígido como uma estátua, atrás da escada. O telefone tocou novamente. Madalena voltou pra cozinha, nervosa. Apanhou o aparelho e sentou-se na copa, na ponta da cadeira mais próxima, cotovelos na mesa, de costas para os dois. A meio metro da filha. É, quase isso. Fred moveu-se alguns centímetros e encontrou um par de olhos fixos, mudos, presos nos seus. Os olhos da Luísa. Luísa. |