CINEMA
O viajante Bernardo Vorobow, por Walter Salles
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prosa.poesia
CONFISSÕES

Margem de erro
Por Juremir Machado da Silva

Reflexões sobre o ato de escrever, o gênio, os idiotas e a terrível obsessão literária

 


Eu queria que a literatura me salvasse. Escrevia livros que encalhavam e, para me livrar deles, fazia traduções que me permitiam comprar as minhas próprias obras e distribuí-las de graça. O problema maior era que os livros traduzidos também encalhavam e eu precisava encontrar novos meios para obter dinheiro e também comprá-los para distribuir. Isso me gerava dificuldades em cadeia: para quem dar os livros? Me acontecia de oferecer o mesmo romance três ou quatro vezes para a mesma pessoa, o que acarretava um duplo embaraço: a pessoa sentia vergonha de confessar que já havia ganhado o abacaxi, mas, ao mesmo tempo, não sabia o que fazer com aquilo e buscava um jeito de tirar o corpo fora. A recusa me insultava. Qualquer explicação me parecia uma desculpa. Por fim, consciente do erro, era eu quem se desculpava, até, na semana seguinte, repetir a mesma gafe com a mesma pessoa. Não é fácil presentear milhares de volumes grossos e chatos.


 Cada vez que eu lia um romance de sucesso, eu pensava de cara: como é fácil, também posso fazer igual. Em 30 dias, aprontava um pastiche. Eu queria levar nove meses, um ano, dez anos, escrevendo um romance, como lia nos cadernos de cultura que era o tempo gasto pelos nomes consagrados, mas não conseguia: em pouco mais de 20 dias estava tudo pronto.

 Isso me fazia desconfiar da qualidade do troço. Contudo, se continuava a mexer, só ficava pior. Eu sonhava fazer como Lobo Antunes, que redigia 8 mil páginas para aproveitar 400 e poucas. Impossível: comigo não havia desperdício e todas as linhas escritas acabavam valendo. Para um romance de 250 páginas, digitava no máximo 255. Claro, mudava coisas, mas nada que pudesse fabricar uma sobra digna de um arquivo. Eu era tão perfeitamente ruim que tudo era igualmente aproveitável ou não.

Enquanto escrevia, as frases me pareciam geniais e idênticas à do modelo. Quando terminava e tentava reler o texto, a verdade aparecia fulminante e cruel: faltava alguma coisa. Num livro o texto era bom, mas não havia história; noutro, a intriga era interessante, mas o estilo não passava de uma droga. Quando os personagens tinham consistência, faltava humor; quando o tom era elegante e divertido, faltava profundidade e drama. Passava noites elaborando diálogos ágeis e comentários com teor filosófico adequado à natureza da ficção inteligente e moderna. Ao reler, percebia que os diálogos eram leves e rápidos como Mike Tyson aposentado, e a filosofia mais rasteira e menos espessa que o tapete felpudo sob a mesa do meu computador.


 
 Aquilo que qualquer idiota sabe -a ilusão de facilidade provocada por uma obra-prima e pelo gênio de um escritor– eu tomava por uma facilidade real e me propunha a fazer melhor. Qualquer gênero me parecia uma barbada. Eu podia ser bom em tudo, exceto na poesia, minha única reserva de autocrítica. Em alguns casos me faltava era um bom tema; em outros, o ritmo adequado. Ora eu pecava por regionalismo e excesso de cor local ora por um cosmopolitismo abstrato e falso. Até me parecia que alguém conseguiria ler um dos meus livros, desde que não fosse eu o castigado. Tratava os meus críticos com bonomia e fleuma tropical: deixava de falar com eles.

 Achei que eu era como David, um personagem de Nick Hornby que escrevia romances ruins e publicava uma coluna idiota, no jornal do seu bairro, intitulada “o homem mais irritado” do lugar, na qual desancava todo mundo e acertava contas com todos, principalmente consigo mesmo. Como David eu tinha, às vezes, vontade de mudar e de elogiar todos que haviam padecido com as minhas críticas. Afinal, eu só os odiava porque davam certo e eu não. Todos me acusavam de invejoso e de ressentido, o que me causava espanto e indignação, por ser verdade. Cabia-me provar o contrário. Não conseguia. Ou, pior, quando tentava, muito orgulhoso do meu desprendimento, alguém logo me dizia:

– Você está fingindo, querendo aparecer, puxando saco para mostrar que é legal.


– Tem razão.


– Viu. Continua igual, só que do avesso…

 Se eu discordava, estava racionalizando; se concordava, estava jogando, tentando manter a pose até o fim. Até nisso eu era um plágio ruim. A verdade estava por aí: eu era ressentido -por tudo, por minha história, por minha biografia, pelo que era e pelo que não era, por não ter ouvido rock na adolescência e jazz aos 40 anos, por não saber dirigir e por meu pai não ter tido carro para me emprestar, nos sábados à noite, quando meus colegas descolavam a caranga do velho e iam comer as namoradas ao luar- e não conseguia me distanciar dos personagens.


 
  Se escrevia, acabava por botar a minha vida na história. Aquilo que me parecia extraordinário e intenso, por ser a minha vida, sentida em minhas entranhas, era para os outros de uma banalidade extrema ou apenas de uma sordidez a toda prova. Era puro acerto de conta. Como eu fracassava a cada vez, sempre havia mais acertos de contas para fazer. Resultava disso um círculo vicioso de baixarias e de grosserias que, a cada recomeço, sempre se anunciavam para mim como incontornáveis e necessárias obras-primas esperadas pela humanidade.


 
 Se eu não era David, então me achava parecido com Hector Mann, personagem de Paul Auster que filmava para ninguém ver e firmara um pacto para que toda sua obra fosse queimada 24 horas depois da sua morte. Eu havia traduzido Claude Simon, que ganhou o prêmio Nobel da turma do Novo Romance, Alain-Robbe Grillet, o “papa” do Novo Romance, Michel Houellebecq, o mais polêmico e irreverente escritor francês contemporâneo, Yves Simon, um autor romântico e sofisticado, Pierre Michon, um dos mais cults escritores da França no final do século XX, autor do belíssimo “Rimbaud, o Filho”, traduzira também a última grande entrevista de Cioran, o maldito entre os malditos, para livro, sem contar grandes teóricos das ciências humanas, entre os quais o vertiginoso Jean Baudrillard. Por tudo isso, eu que também vivi cinco anos na França e amo Baudelaire, me considerava um clone de Paul Auster, menos bonito, concedo, mas não menos talentoso, embora mais injustiçado.


 
 Só que eu não era Mann nem precisava queimar os meus livros para que ninguém os lesse. Era muito mais cruel e sofisticado: bastava, para que se tornassem intocáveis e invisíveis, que eu os publicasse. A coisa foi tão longe que eu escrevia, publicava, ninguém via, eu mesmo esquecia a história e, passado algum tempo de recuperação emocional, voltava a escrever. Foi assim que, por esquecimento, escrevi duas vezes o mesmo romance.


 
 Nas duas vezes, ficou igualmente ruim. Enquanto redigia a segunda versão, a réplica, sem imaginar que se tratava de uma, é verdade que me vinha a sensação de já ter dito ou visto aquilo em algum lugar. Como estava numa praia, não podia consultar meus arquivos. Quando voltei para casa e conferi, foi um choque: tudo era igual, até os erros e os defeitos, dado que qualidades não havia.


 
 Eu tinha dois tipos de críticos: os modernos e os tradicionais. Os primeiros, extremamente tradicionais, me acusavam de praticar um realismo tacanho, sem inovação técnica e formal (o que me fez escrever um romance modernoso, uma espécie de Joyce sem o talento de Joyce mas com um monte de neologismos incompreensíveis e frases na ordem inversa, que foi duramente criticado por querer ser inovador e arremedar modernos formalismos ultrapassados).


 
  Os outros, os tradicionais, terrivelmente modernos, me consideravam incapaz de contar uma história com sabor local,  baseada na máxima de que nada é mais universal que a própria aldeia, o que me fez conceber um romance palavroso que foi perfidamente criticado como um retrocesso ao exótico, ao pitoresco, ao religionalismo e à cor local. Por sorte, meus críticos não passavam de quatro, dois em cada tendência. Muito outros me criticavam com menos dureza e até com alguma clemência, mas era só porque não me tinham lido.


 
 A exemplo dos personagens do cubano Jesús Díaz, que viviam discutindo literatura e tentando parir uma obra-prima, embora só evacuassem merda, e de todo indivíduo na primeira parte de alguma coisa, eu tentei começar pelo fim, um romance total, que foi totalmente ignorado e tido por uma parte considerável da total inutilidade da minha obra. Eu me encontrava entre “conteudistas” e “formalistas”, exatamente como as figuras de Díaz, fustigado por novos Bukowski, eternos precursores e velhos pós-tudo, todos inchados de orgulho e de auto-reverência. Como “conteudista” eu era um ótimo “formalista” e vice-versa. Essa polêmica de vida e morte, que não interessava a ninguém na vida onde jorra sangue e esperma, me estraçalhava os dias.


 
 Os “formalistas” gostavam mesmo era de fazer palavras cruzadas literárias e jogos de palavras tão inteligentes quanto estúpidos. Era como se masturbar com folhas de dicionário e gozar estuprando a língua com alguma sofisticação. Mas eu invejava a certeza que eles tinham de ser gênios. Vinham todos das classes médias e altas e sabiam se impor. Nasciam para mandar e sabiam quando uma garota, mesmo dizendo não, estava desesperada para que lhe arrancassem a calcinha. Quando a veia literária se esgotava, assumiam as empresas dos pais e casavam com a mais gostosa de algum lugar. Como sabiam me sacanear! Tudo que eu fazia era brega. Eu abandonava a coisa. Um belo dia eu os encontrava fazendo o mesmo. Na ocasião, eu já estava fazendo o que eles faziam antes, o que, infelizmente para mim, acabara de se tornar brega. Já os bregas me viam como um abusado.


 
 Trabalhar era brega: passei fome. Não se drogar era muito brega: quase acabei no hospício. Interessar-se por televisão era um atestado internacional de breguice e de infantilidade. Suportei as piores peças de teatro e os filmes mais chatos do planeta. Ler a grande mídia era prova de ignorância. Perdi contato com a realidade e li as maiores bobagens alternativas. Os mesmos que me diziam isso se tornaram diretores de televisão, editores de jornais sensacionalistas, largaram as drogas pesadas, que consumiam com moderação, e passaram a só acreditar no poder da audiência e nas listas de mais vendidos.


 
 Os outsiders moderninhos e formalistas são apenas bons negociantes em busca do bilhete premiado para os camarotes do sistema. Eles acreditavam no sucesso; eu imaginava só apostar no talento. Eles eram investidores; eu um homem-bomba, um terrorista suicida que apertava o botão para explodir o quarteirão, arrastando consigo uma penca de infames, e morria sozinho. Foi aí que eu me fodi. Sem camisinha. Quem ataca o sistema com balas e seqüestros pode um dia virar ministro ou presidente da República. Ou acabar na Academia de Letras. Eu achava que legal era ser mártir e terminar no hospício e na lenda dos escritores malditos e incompreendidos. Um perfeito idiota globalizado e sem valor literário ou de mercado.


 
 Os  “conteudistas” explicavam que se o vinho for bom não importa se o copo é de massa de tomate. Eu ouvia essa conversa fiada e enchia a cara com vinho de garrafão e livros de quinta categoria. Acabava vomitando os bofes, suportando ressacas cavalares e piorando meu já questionável estilo. Para dar certo eu só precisava vencer dois obstáculos: deixar de ser ressentido e arranjar talento. Fácil. Para fazer sucesso, eu necessitava de talento; para ter talento, eu precisava fazer sucesso. Os “conteudistas” comiam belas garotas jurando que elas escreviam bem. Eu me recusava. Só mais tarde percebi que tinham razão: comparadas com eles, as moças, além de gostosas, eram gênios da literatura.


 
 Bolei um esquema para mim. Não faria parte de grupos nem discutiria com ninguém. A equação era simples: literatura só é boa se não for só literatura, se não se limitar a um troço de especialistas. Em contrário, vira tecnocracia. O bom escritor fala de outra coisa. Afinal, nada mais insuportável que uma conversa de bar entre candidatos a gênios literários, o papo cabeça.


 
  Não era ruim a idéia, embora nada original, e tentei aplicá-la. Disso resultou um perfeito isolamento que me levou, por ignorância, a inventar o pós-modernismo com 30 anos de atraso e o dadaísmo com quase um século de perda de tempo. Não que eu desconhecesse a existência histórica desses fenômenos culturais, que devorava em livros, mas, por não entrar no jogo cruel dos grupelhos, ficava sem discutir nuanças e imaginava estar inovando quando me restringia a requentar e a torrar o saco dos computadores.


 
 Eu pretendia escrever o romance da minha geração, mas me faltava uma. Quis expressar abusivamente uma cultura assentada que ainda não tinha e produzi primeiras obras com cheiro de últimas. Os “afetados” eram de outra lama e, empanturrados de erudição trivial, também não podiam escrever, pois cada frase que lhes saía pertencia a outros.

 
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