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prosa.poesia
INÉDITO
Réquiem “Gelado, com as marcas da autópsia, o corpo dela ainda tinha poder para surpreendê-lo” Dor? Nenhuma. Esperava que chegasse. Desde que Maria morreu, isto é, desde o momento em que deveria ter começado a sentir dor, ele esperava que a dor chegasse. Extraía algum sofrimento com a espera, mas a ansiedade não tomava o lugar da falta de dor. Às vezes achava que pressentia a vinda, embora o máximo que conseguisse distinguir fosse uma certa sensação de sujeira. A falta de dor o confundia mas não conferia à morte dela nenhum traço de irrealidade. De fato, só conseguia evocar Maria como morta. Isto a dotava de uma espécie de superioridade, como se tivesse cumprido algo que ele, que almejava a própria aniquilação (um senso estético o impedia de provocá-la), tivesse se atrasado em alcançar. A esse desconforto somava-se a experiência de todo o processo que se seguiu à morte, em que se impôs a obscenidade do corpo de Maria. Gelado, mais escuro, desfeito, com as marcas da autópsia, inerte, o corpo dela ainda tinha poder para surpreendê-lo: parecia ter como resquício de vida o prestar-se à indecência. Maria foi tirada da geladeira estreita do necrotério e manipulada de tal forma por mãos estranhas durante o reconhecimento do corpo e os preparativos para o enterro que ele não pudera evitar a expectativa de uma reação dela. O funcionário do hospital a descobrira para ele, e juntos examinaram sua nudez. Ele esperou que ela reagisse. Depois, foi o casal da funerária que a tocou sem hesitação, como se confiasse na conivência. Ele esperou a reação dela. Mas Maria tinha uma passividade repulsiva. E vergonhosa. Essa vergonha que ele próprio temia ainda provocar era a única imagem que tinha de qualquer sobrevida após a morte. * Uma vez tinha discutido com Maria o destino que um daria ao outro em caso de morte. Até onde se lembrava (e achava que lembrava de tudo), foi o mais próximo que ela chegou de uma afirmação de amor, ao tacitamente admitir algum tipo de longevidade à relação dos dois, embora logo tenha se irritado: - Enterrada ou cremada, que diferença faz?
Ele escolheu a cremação para ela. Quando os procedimentos foram informados, descobriu que a cremação dispensava os atendentes daquele último nojo, do cheiro de carne queimada. O verdadeiro serviço -a queima do cadáver- era feito no dia seguinte, sem a presença de familiares ou conhecidos. A cerimônia que se seguia ao velório era limpa e inodora. No caso dela, morta há mais de 24 horas, legalmente o próprio velório seria dispensável. Mas ele fez questão da espera, do caixão fechado colocado num plano mais elevado, como num palco pronto para a platéia. Sonegá-la aos vermes era uma espécie de vingança. A ocasião, no entanto, era mais importante pelo confronto que finalmente teria com os amantes de Maria. Nunca tinham sido nomeados, mas supor sua existência era parte do esforço de estabelecer sentidos. Os supostos amantes, ainda que perturbadores, evitavam algo mais insuportável para ele, que era não encontrar alguma racionalidade no comportamento dela. Tinha considerado que aqueles encontros ali, frente à morta, seriam mais uma humilhação (alguns deviam ter ouvido falar dele: era provável que Maria o tivesse usado como um detalhe de excitação). Era a posse do cadáver que, imaginava, lhe garantiria a superioridade. Sustentou a cerimônia e esperou, mas ninguém apareceu. Ele era o único presente àquele simulacro de ritual e de alguma forma sentiu-se traído por essa solidão, por aparentemente ninguém mais amar aquela mulher. Ao menos, pôde determinar o fim desta espera. Quando sua solidão passou da surpresa ao constrangimento, decidiu que fim. E tudo então foi rápido. O caixão baixou num alçapão e fim. Em silêncio, fim. Tinham perguntado se ele queria alguma trilha sonora para acompanhar este clímax. Pensou no Réquiem, de Mozart. E respondeu que não, que preferia o silêncio. Não ia contaminar o Réquiem e passar a associá-lo a Maria. Porque sempre tinha um sentimento muito particular de serena dissolução quando ouvia o Réquiem. Nada que se confundisse com uma expressão de fé: era apenas a maldita estética novamente. Mais. De alguma maneira, aquela música era a própria morte. Não a morte corrupta (como a de Maria), mas a boa morte, uma auto-anulação que não abolia a existência. O Réquiem era uma benção, humana benção, possibilidade do esquecimento. Não existia nenhum indivíduo entre os reais ouvintes do Réquiem: eles se dissolviam na massa sonora. Não havia compositor. Na verdade, tinha uma convicção sobre aquela considerada a última obra de Mozart: não era de Mozart. Era uma música que não podia ser honestamente creditada à sua invenção. Mozart não teria a disposição para deixar de ser Mozart. O original do tido como inacabado do Réquiem, tinha certeza, fora -não completado, mas inteiramente refeito- por alguém que intencionalmente se fez ignorar pela história oficial (a versão que atribuía ao discípulo Süssmayr a tarefa da conclusão da escrita do mestre era pífia: este aprendiz de um menor fora sempre algo menos que menor). A questão nem era a capacidade de Mozart enfrentar a empreitada, o que, como argumento, era insustentável (sua própria história se baseava na convicção de que a arte não é cumulativa, que a excelência não se dá por progressão. A obra-prima não é previsível na produção anterior de um artista). O importante era que o verdadeiro compositor fazia um sacrifício ao anonimato. Ou antes, elegia o anonimato porque sabia que não havia autoria legítima na arte, que era da natureza da obra anular a singularidade. Aquele criador era também o primeiro ouvinte do Réquiem, que, como todos os que se seguiram, tivera a indicação de uma grandeza que o anulava por o conter. O compositor não existia. Mozart não existia. Os ouvintes não existiam. Existia algo maior que os incluía e os anulava, diluindo-os num todo. Lembrou de um dia em que ouviu o Réquiem com Maria. Apenas colocara para tocar, sem preveni-la de sua importância. Porque imaginara que seria reconhecível sem esforço como o objeto de uma busca até então imprecisa. Mas ela parecia não ouvir. A música existia inútil, como um deus diante do ateu. * O caixão baixou em silêncio inodoro e fim. Ele foi informado que devia retirar a urna com as cinzas dias depois. Ainda tinha de decidir o destino daquele resto. Aquilo não poderia mais ser considerado Maria. Nem queria fantasiar que ainda seria ela. Escolhera a cremação também para se livrar daquela borra, de qualquer referência. Mortos enterrados ficam apodrecendo um tempo e depois resistem, os ossos marcando lugar, como um bicho que assinala com urina seu território. Mortos cremados são mais descartáveis. Voltou ao crematório no dia combinado. Esperava uma continuação do ritual da morte, mas este tinha acabado. Era quase um guichê. O único detalhe notável era a estudada gravidade do funcionário encarregado da entrega, preparada para encarar a dor do sobrevivente. Pegou as cinzas quase como um usurpador, porque a dor não vinha. Tinha alguma sensação sim, certa irritação de uma vez mais participar de algo que era uma exigência dela. Como se ela ainda insistisse em existir. * Saiu andando com a urna na mão. Não tinha cheiro nem lógica. Parou uma quadra depois do crematório, jogou o conteúdo pelo vão da grade de um gramado de prédio, e ficou olhando aquele pedaço de jardim inalterado. O porteiro veio ver o que ele queria: “Nada”. Respondeu que nada, de urna vazia na mão, quase desafiador. Pensou depois que fosse provável que sua verdadeira intenção fosse que o porteiro o repreendesse, ou o agredisse, ou o mandasse prender. Mas o outro não fez nada disso: contentou-se com a resposta e voltou para sua guarita. Talvez estivesse acostumado. Talvez muita gente saísse com aquele tipo de mercadoria do guichê do crematório e parasse ali para se livrar daquilo. É possível que o gramado estivesse adubado de restos. O fato é que o porteiro voltou para sua guarita e não mais se preocupou com ele, que ainda ficou um bom tempo parado do lado de fora da grade, urna vazia na mão, numa expectativa imprecisa, com aquela incômoda sensação de que tudo aquilo fosse tolerável porque era banal. Depois voltou para casa e recomeçou a esperar a dor. * Esperou pela dor um dia e outro e outro. E esperava, embora nunca um hábito. De vez em quando tinha uma ereção e tentava combiná-la com a lembrança de Maria. A inutilidade do exercício o surpreendia. Quanto mais se concentrava, mais as feições dela se tornavam fugidias. Era inútil tentar resgatá-la através das fotografias. O que as fotos revelavam era de grande fidelidade -não aos traços de Maria, mas à sua característica fluidez. Ela era inapreensível. Escapava. Os retratos, que quase misteriosamente tão pouco se pareciam com as feições reais de Maria, sabia, acabariam por se sobrepor a qualquer memória. Um vestígio estranho de sua existência sobreviveria, uma imagem equívoca. As fotografias, ou antes sua quantidade notável, também o denunciavam. Eram centenas de fotos: de Maria, de desconhecidos, de gente que mal identificava, de lugares, de objetos, chegando a compor um registro quase diário e metódico de sua vida. A obsessão com a fotografia vinha da impressão de destacamento. Ele via montanhas, vales, rios, prédios, ruas e pessoas da mesma forma que via filmes: nunca tinha a sensação da realidade naquela coexistência. Foi para tentar uma contraprova a este sentimento que começara a fotografar. Depois de algum tempo, fotografar -cujo único efeito era reproduzir a estranheza- tinha se tornado um ato mecânico. Fotografava, e ao ver as fotos continuava a ser um estranho vendo coisas estranhas. * Quando conheceu Maria, o que mais o atraiu foi uma impressão de familiaridade. Algo cuja origem nunca pudera definir, mas que de imediato fizera de Maria uma obsessão. Ela refletia algum sentido. Ainda pouco nítido, instável, exigindo esforço e dedicação para ser fixado, como uma memória fugidia. Mas já era como um reconhecimento, uma lembrança, mesmo que imprecisa, diante da qual podia acomodar todo o resto serenamente na estranheza. Havia ainda uma certeza: não podia ser diferente. Tinha falta dessa sensação de necessidade. Mas agora que ela morrera a dor não vinha e ele esperava, como tantas vezes esperara outras coisas dela antes. E eram muitas outras esperas, todas inúteis como experiências (às vezes duvidava que houvesse algum ganho real nessas vivências repetidas, o acúmulo que se chamava experiência, o aprendizado de uma situação que facilitasse o julgamento e a ação quando outra situação similar se apresentasse). Sabia o que era esperar cada espera, confundíveis apenas no seu anseio de fim, cada uma única, cada uma parte de um não-aprendizado inaugurado desde o início. Pouco depois que conheceu Maria, ela partiu. Tinha saído do país para uma viagem com o marido sem data para voltar. Ele achou que não ia suportar a ausência e que ela sabia dessa sua incapacidade, que intencionalmente o fazia flertar com o suicídio e o confrontava com uma vida insuficiente, falha, incompleta. |