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prosa.poesia
LANÇAMENTO
Divina comédia da fama “O conteúdo é um diferencial em um mundo onde as celebridades se multiplicam como pombos”
Um artista da fome O esquecimento dessas pessoas que se expõem a qualquer missão ridícula ou qualquer sacrifício, como comer baratas e olhos de cabras na TV, parecem uma versão ordinária de um célebre conto do escritor Franz Kafka (1883-1924) chamado “Um artista da fome”. O protagonista é um jejuador profissional que era posto dentro de uma jaula para exibição pública. A platéia se divertia com os recordes de dias sem comer daquele homem esquelético. Vigiava-o cuidadosamente para provar que o sacrifício estava mesmo sendo cumprido com rigor. Com o tempo, o artista da fome foi sendo esquecido pelo público. Até perder a graça de vez.
Nem tanto assim, caro F.K. Senão vejamos essa rápida historieta real passada em 2003, na Inglaterra:
Lembre-se que nessa fila que dobra quarteirões, os candidatos à fama estão cada vez mais despreparados, sem currículos, sem lastro. Já houve um tempo em que ninguém se contentava em ser famoso por pouca coisa. Reparem no caso do sr. Pestana, outro personagem emblemático do velho Machado, no conto “Um Homem Célebre”, também do século XIX. Pestana era músico. Fazia polcas sob encomenda. Um sucesso, um estouro de bilheteria no Rio da segunda metade do século XIX. Mas aquela consagração pública que deixaria morto de feliz qualquer artista de hoje não tocava o sr. Pestana. Ele morria de angústia. Não lhe contentava fazer a polca da moda. Celebridade mesmo, pensava o sujeito metido em sobrecasaca cor de rapé, era um Schumann, um Mozart... Ele sofria a tentar imitá-los, a tentar compor como os verdadeiros ídolos. Aos diabos o sucesso fácil, pensava. Morreu desgostoso com a vida, de bem com os homens e mal consigo mesmo. Trechos de “Divina comédia da fama –purgatório, paraíso e inferno de quem sonhar ser uma celebridade”(ed. Objetiva), crônicas de costumes de Xico Sá
Não basta ser famoso, você precisa ter conteúdo. O conteúdo é um diferencial em um mundo onde as celebridades se multiplicam como pombos. Para um ator cujo habitat é a novela, a televisão, fazer uma peça clássica dá conteúdo, como vimos anteriormente. Uma modelo de sucesso conhecer a história da moda, por exemplo, é conteúdo. Só em aparentar que conhece ou que se interessa já é um ponto e tanto. Uma candidata a modelo, por exemplo, deve decorar pelo menos esta de Oscar Wilde, para sapecar no momento certo: “Dizem às vezes que a beleza é completamente superficial. Talvez. Menos superficial, em todo caso, do que o pensamento. Para mim, a beleza é a maravilha das maravilhas. Só os espíritos levianos não julgam pelas aparências. O verdadeiro mistério do mundo é o visível, e não o invisível”. Andar com um bom livro sobre o assunto debaixo do braço, entre um desfile e outro, pega muito bem. Lá está a gazela com “O Império do Efêmero”, que conta a saga industrial do mundo fashion, de Gilles Lipovetsky. Um luxo. Nem precisa ler inteiro, pois os livros emprestam um certo status aos seus portadores. Mesmo aos que não passam da orelha. Não precisa exatamente ter conteúdo. Precisa é aparentar conteúdo. Uma boa frase, oba, estamos conversados. Contar uma breve história sobre o mundo da moda também registra um certo conteúdo. Contar, por exemplo, que o vestido que hoje chamamos de "pretinho básico" surgiu em 1926, ano em que a revista "Vogue" publicou uma ilustração de Chanel com essa peça que se mantém atual até hoje. Você ainda arremata, do alto de 1m79 de altura e 51 kg: “Ah, você sabia que antes da década de 20, as meninas não podiam usar preto e as senhoras só usavam essa cor quando estavam de luto dos maridos?”.
Isso vale para quem vive exclusivamente da beleza. Para um jovem escritor que almeja a lista dos mais vendidos uma certa arrogância na cara de conteúdo até lhe cai bem. Combina com o seu ramo de atividade. “Ah, fulaninho não tem conteúdo”. Essa sentença pode destruir uma carreira promissora, interromper a estadia no paraíso. Não custa nada corrigir essa deficiência. Se você não tem paciência para se preparar sozinho, repare na fartura de cursos rápidos oferecidos na praça. Quer impressionar mesmo? Faça um curso sobre Nietzsche, Friedrich Nietzsche (1844-1900), pensador alemão que está em alta no mundo inteiro. Nunca saiu de moda e não corre o risco de sair. Aquele do bigode à vassoura, enorme, já viu foto dele? Esses cursos, pelo menos no Rio, que abriga o Projac global, a nossa Hollywood, costumam ser frequentados por muitos atores famosos que correm atrás do saber. Funcionam como uma espécie de madureza ginasial, tipo de supletivo para quem não teve tempo até agora de se preparar melhor intelectualmente.
“Sim, eu sei donde venho!
Xico Sá
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