CINEMA
O viajante Bernardo Vorobow, por Walter Salles
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prosa.poesia
LANÇAMENTO

"Lorde"
Por João Gilberto Noll

Leia o início do novo livro de João Gilberto Noll, que está sendo lançado pela editora W11

“The secret interiors of these post-human fortresses solicit conspiracy, acts of sexual transgression. Illicit exchanges between dealers.”
Iain Sinclair, “London Orbital”


Quando saí pela porta da alfândega, duas pesadas malas, sacola pendurada no ombro, nem pensei em olhar para os que esperavam atrás de uma corda os passageiros que chegavam a seu destino. Súbito me tornara incrivelmente calmo. Se ele não aparecesse, iria para um hotelzinho barato e retornaria para o Brasil no dia seguinte. Eu continuaria a andar pelo corredor com aquelas sombras expectantes atrás da corda na minha lateral -esses que costumam esperar os viajantes como se não tivessem mais nada a fazer além de aguardar sedentariamente aqueles que não param de se movimentar, partir e chegar. Eu estava chegando ao aeroporto de Heathrow, em Londres. Sendo chamado por um cidadão inglês para uma espécie de missão. Embora ele tivesse me mandado as passagens Porto Alegre-São Paulo-Londres e tudo, não sei, algo me dizia que ele iria faltar. Que não adiantaria ligar para os telefones londrinos que ele me passara, um do seu escritório, outro de sua residência. Que a partir daquele momento esses telefones não lhe pertenciam mais, talvez nem existissem no catálogo da cidade. Revolver nisso tudo ali, andando por aquele corredor interminável que me levaria com certeza à porta do aeroporto e aos táxis, eu sabia, revolver nisso tudo ali era cutucar um sintoma que eu pretendia apagar. Eu agora estava em Londres por uma razão especial, o inglês tinha me afiançado. Mas é bem provável que ele nem sequer aparecesse no aeroporto ou em qualquer parte daquela cidade em pleno inverno, inverno que eu ainda não conseguira sentir naquele aeroporto com temperatura isolante do mundo lá fora; ele talvez quisesse se vingar da minha credulidade para com o seu convite, mal sabendo que eu não sofria exatamente de credulidade, vivera até o dia da viagem me retorcendo em dúvidas com relação às intenções dele, desse tal inglês: sim, a pura verdade vinha de que eu não tivera escolha. Então eu vim. Parece fácil dizer “então eu vim” -alguém todo preparado para atravessar o Atlântico de uma hora para outra, sem ter nada o que deixar que carecesse da sua presença. Mas afirmo que essa é uma das frases mais espinhosas que já pronunciei nesta já não tão curta existência: “Então eu vim”. Poderia dizer que antes eu teria de resolver isso e aquilo. Não, que nada, eu teria apenas de trocar minha solidão de Porto Alegre pela de Londres. E ter na Inglaterra uma graninha extra para me sustentar. Ele me prometia uma missão, não disse?, um trabalho em princípio como outro qualquer, mas eu não sabia direito, qualquer finalidade improvável poderia me esperar, e eu queria acreditar caminhando naquele corredor do aeroporto, queria acreditar que estava preparado até para que ele não aparecesse e eu tivesse de passar aquela noite num hotelzinho barato no Soho, quem sabe, sem disponibilidade nenhuma para sequer mais de um dia fora do Brasil -no bolso trinta libras talvez, se tanto.

Ficaria sentado num banco do aeroporto de Heathrow, pensando que ele talvez ainda pudesse passar à minha procura; eu o conhecia pessoalmente de apenas uma vez no Rio, quando pediu que por favor mandasse meus livros para seu endereço em Londres, porque não os encontrara nas livrarias por onde tinha andado à tarde e no dia seguinte retornaria para a Inglaterra. Que precisava conhecer no meu trabalho aquilo que chamavam de algo que não entendi e que lhe vinha interessando muito nos últimos anos, ah, e sobre o qual vinha escrevendo um livro. Se não me engano esse livro falava de alienígenas. Era isso? Está bem, se não for não falo mais, eu disse para os meus botões enquanto arrastava as malas em direção a alguma saída onde ele pudesse estar para me dizer qual a minha próxima tarefa, para onde ir, em que quarto me meter para dali não sair mais, sei lá.

Ah, vi um telefone público, vi uma moça atrás de um guichê e que vendia cartões telefônicos, vi que eu ainda tinha bem amassado no bolso da camisa o papel em que anotara os telefones dele. Ao tocar no telefone público espantosamente frio, ouvi uma voz atrás de mim. Virei-me como se já soubesse desde sempre quem era. Este que eu começaria a desconhecer. Deste lado eu, que tinha vivido aqueles anos, vamos dizer, nu no Brasil, sem amigos, vivendo aqui e ali dos meus livros, no menor intervalo a escrever mais, passando maus pedaços e todo cheio de piruetas para disfarçar minha precariedade material não sei exatamente para quem, pois quase não via ninguém em Porto Alegre. Sim, disfarçara nas entrevistas ao lançar meu derradeiro livro, sim, vou passar uma temporada em Londres, representarei o Brasil, darei o melhor de mim -o quá-quá-quá surfava na minha traquéia sem poder sair, entende?

Olhamo-nos. Um falou o nome do outro. Como se isso fosse necessário para acentuarmos nossas presenças. Assegurarmo-nos definitivamente delas. Demo-nos as mãos. A dele estava fria, não tanto como o telefone. Fazia frio em Londres, ele disse. Tinha nevado um dia antes.

Disse que estávamos a caminho da estação de trem. E mostrou uma grande porta de vidro. Que íriamos de trem até a área central da cidade. E que de lá pegaríamos um táxi.

Para onde iríamos depois?, fiz menção de perguntar. No fundo eu sabia que ele se encarregaria de tudo até determinado ponto, e que tudo o que estivesse por fazer seria, não digo para o meu bem, mas se evidenciaria como o mais sensato, aquilo que deveria ser feito sob pena de eu não agüentar o tranco vindouro, pois dele viria o caminho até que eu pudesse, não, não dispensá-lo, isso jamais, mas me ater a alguma autonomia que seria sempre limitada, isso também sei, já que estava agora num país onde eu nunca estivera antes e, principalmente, me faltava a juventude para aderir a ele sem mais.

Na estação de trem nos olhamos com as malas postas no chão; por ali não havia ninguém. Ele falou que passaríamos no seu trabalho. Lá havia uma sala vaga de um colega que estava de férias e então eu poderia descansar até que ele estivesse em condições de me levar para minha nova casa, em Hackney, norte de Londres. Hackney, repeti em silêncio, como se a pronúncia sonora pudesse me dar alguma garantia que eu ainda nem tinha como nomear. E para que eu precisaria de alguma garantia? Para ser mais feliz do que eu já conhecera como sendo felicidade, para morrer mais tarde, lá quando estivesse todo entrevado, para correr menos e menos riscos até a vida se tornar inofensiva? Não, aquele homem não representava perigo algum para mim, nem a cidade de Londres que eu estava a ponto de receber, nada.

Até que ouvi, vindo do buraco negro à nossa esquerda, o ruído cada vez mais decidido do trem que nos levaria ao centro de Londres. O trem era longo, de modo que custou a chegar o nosso vagão. Depositamos as malas num espaço adequado que substituía os bancos dos passageiros.

Aquele homem poderia ser o companheiro que lá no centro imune do meu desconsolo eu me acostumara a sentir sem esperar. Por que de fato teria ele me chamado lá no Brasil, naquela cidade do Sul, Porto Alegre -por que apelar para que eu viesse a Londres numa missão, ao que parecia, especial?

As nossas respirações vazavam de um casaco grosso a outro entre nossos braços, e aquilo foi a única coisa que existiu entre nós dois durante um largo tempo do trajeto. Um inglês e um brasileiro tendo tanto o que comentar a princípio sobre a estada imediata de um deles naquela imensa cidade, mas ali, agora, sentíamos apenas o movimento mal e mal discernível de dois corpos a viver, só, sem sobressaltos.

É aqui, ele falou, fazendo-nos voltar a puxar as malas por uma estação gigantesca, muito movimentada, até darmos de cara com uma fila para táxis que um homem negro tentava
organizar com um cartaz ou algo assim na mão. Ele falou alguma coisa que não entendi, na certa sotaque caribenho. O meu companheiro inglês disse que ele falava para irmos até o
ponto marcado com o número 1 numa tabuleta na calçada. Seríamos os próximos.

Estava frio? Nem tanto. Alguma voz interna me cochichou que se eu percorresse na corrida por um alambrado o vôo em descida de um avião num aeroporto perdido da Escócia ou da Irlanda, se eu corresse passando as unhas por esse alambrado que separa a estrada do campo de aviação, aí eu sentiria o verdadeiro frio nas ventas, que do contrário não.

Lado a lado, eu e meu companheiro inglês já estávamos sentados num daqueles típicos táxis londrinos, com o espaço entre as nossas pernas e a cabine do motorista para as malas irem à vista, e confortavelmente.

Para onde iríamos? Ah, para o trabalho dele, eu o esperaria uma ou duas horas numa sala silenciosa de um colega em férias, as malas sossegadas num canto da sala. Era preciso repetir para que nada me escapasse, nenhum ato, nenhum capítulo, para depois, se eu precisasse depor diante de uma autoridade caso esse inglês que agora parecia até meu  benfeitor me faltasse de repente, sim, sumisse, embora ele dissesse que me levaria até seu local de trabalho... Iria abrir sua vida assim para um estranho? Mas tudo poderia acontecer, ele talvez não passasse de um blefe, há de tudo no mundo, indivíduos de todas as espécies, alguns que se vingam de toda uma nacionalidade, no caso a brasileira, porque nunca lhes faltam razões, estão sempre cobertos delas; não duvido, eu faria até o mesmo se fosse ele, me deixaria só em Londres, sem a grana do que ele chamava de bolsa, sem como pagar o aluguel daquela casa que eu ainda não conhecia em Hackney, me deixaria justamente assim, com os pulsos em oferenda para o primeiro policial me algemar, deportar, pior, não me soltar jamais.


 

João Gilberto Noll
É escritor, autor de “A Fúria do Corpo”, “Hotel Atlântico”, “A Céu Aberto”, entre outros livros.



 
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