CINEMA
O viajante Bernardo Vorobow, por Walter Salles
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prosa.poesia
INÉDITOS

Ponto cego e outros poemas
Por Simone Homem de Mello

Ainda às voltas/ com certa flor,/ enovelada em/ Novalis, o avisto/ no oco abismo


PONTO CEGO

à cause de ce mensonge
de dire que la mer
est noire
M. Duras

 

Encerrado

no círculo

vicioso-sísmico

(talvez apenas a sombra

de um outro, traçado

a beira-mar, a areia mar-

cada a compasso, pacto

de fronteira, com beiras

ainda), ele cisma consigo,

mas sou eu que abalo

e assim o releio:

Mesmo às cegas,

a retina

ainda neblina

que um anjo

tingiu de azul

(eye, with a film over it),

tento revê-lo

em outro relevo,

o de sua letra ferina,

a que fende e não cicatriza,

mas meu olho filtra

(with a hideous veil over it )

e trai a escrita,

por não querer

jamais perdê-lo

de vista.


Ainda às voltas

com certa flor,

enovelada em

Novalis, o avisto

no oco abismo,

buraco negro

sem escape,

mas no meio

do redemoinho

só reconheço

o que seu diabo

tem de prismático:

apesar de tão

lúcido-suicídio

(a dúvida cortante

de dois machados),

ele só faz,

a meu ver,

transluzir

azul.

E assim perco o foco

do oco desvio, o olho

(the damned spot)

às escuras, adormeço

no desejo de descegá-lo

desse desassossego

e, em sonho, ao menos,

sou eu que o embalo

e assim me enleio.

DOS TERRITÓRIOS

(UM ROTEIRO)

Prestes a romper

o cerco,

não mais contra-

cenar com seus

senos e co-

cientes.

Sem pensar

duas vezes, dis-

pensar sentidos

e sentinelas, re-

baixar a guarda

de fronteiras,

proscrevê-la.

Abolir alfândegas,

clãs e destinos.


Sem prós e pós-

tumos túmulos,

decepar a rosa

dos rumos,

dissipar ventos

(oito deles),

despir-se de

pares e díspares.

Minar

a margem

(terceira)

de um rio

anônimo.

Extra-

ditá-lo.

 

 

 

 

 

 

KOUROS I

De quem adia

com os olhos

(visionário)

o que acabou  de

se gravar à pele:

deitado ao chão,

o mármore

semilapidado,

dissimula-se às tantas

curvas do relevo,

esquecido do cinzel.

Divaga

(lisa malícia essa,

a que seus lábios

acabam de esboçar)

ainda ao alcance

das mãos, ainda

pouco depois de

a pedra romper,

quem o esculpia

se ausentou

a meio caminho:

e ele,

ele, tosco,

no descampado.

Do mármore, o grafismo

marca traços ausentes,

sua face, sempre outra,

à contraluz. sob um sol

eclipsado,

obscurece, repentino,

ele,

ofuscado pela sombra

interina

(que tanto se pensa

infinda quanto passa),

deslembrado

de cada réstia

de luz já vista.

Aquele instante era sem prazo:

lapso do restante,

não consentia

nenhum depois –

enquanto

o Kouros de Naxos

dorme em Melanes,

sob tamariscos.

Aquela sombra o cegou.

E a boca, entreaberta,

(seus lábios incharam)

soletrou

que o êxtase

é um corte.

 


NOTURNO DE ALT-MOABIT


a maria thereza alves
& jimmy durham


No teto, a guirlanda,

flora única ao redor.

O meandro em gesso,

era mero engenho

do que não cingia:

Elipse de um silêncio de -

marcado a dedo,

suspensa à cabeça,

a esfinge decifra só

o que o dígito devora.

Ela olha, aquém da voz

:en_voi:la!notte:

dança noturna, a negra e

a taça, (who is the person? )

ainda por libar o vinho,

acrobático jogo de (shut up!

it´s dizzy´s soul
) corpo,

outro gesto dela,

a adejar a cabeça,

acena em branco

:aqui jaz:

o que o silêncio circunscreve.


Em volta do fogo ausente,

as cadeiras eram arestas

a serem limadas por sinais

amenos (wouldn´t you come

emitidos de longe:    closer? )

um certo tecer de fio indistinto en-

leia, ao eixo do retrós, imóvel rede-

moinho de sílabas,  segredos a fio,

(a drop of something?) des(no,)vela

e, lenta,  retrossegue

(not yet.), sem ceder.

A voz dele sela à cera

(impossible to draw... )

o que a dela silencia.

De um arabesco celta

onde o fio da meada?

(...a woman)

Entre abismos, só

o vestígio do fogo:

a fumaça ascende,

e, corredia, indica

o grito

ex-

tinto,

re-

vestindo

o vale

de ruído

branco,

ao invés.


thinghappeningtillyoucould
makeawhat?wasIsupposed
tosoundalittlebitmaybenoon
eiswhatyouthinki´maboutm
idnighthesaid:getonwithit´
soverthepointis,heexisted,
unlessyouweredeaf,ofcourse,
whois,moreoverdead,notint
heleast,buttoforgetthe



Enquanto o traço dele

delineia    (impossible

to draw)  outro círculo:

um raro, com vértices.

Desvia

o olhar

do alvo

aponta

a seta:

but to forget the desire - that´s dirty

acerta

a mira


(It´s me. )

Foi o coiote que inventou a morte.

Anunciou a sua,

para mover os mudos:

que cada qual ecoe,

para acuá-la

– ao canto! –

e, adiada a vinda,

desinventá-la.

(I am the ethnic person)

Foi o coiote.


A gaita fala.

                                                                                                           Will the circle

(

by and  by, by and by

you can picture ‘round

the fireside long ago one

by one their seats were

emptied  one by one

they went away will the

)

be unbroken


O peiote, para muitos,

(isn´t for a single one)

traz à tona o que não

houve,   mas se finge

extraviado:

revisitar o invisto.

Não um percurso refeito

pelos aposentos, passos

espaçados pelo átrio,

rumo à rua (

a chuva cessara

), mas sim o

halo em torno

de lua alguma.


Vista da rua,

a  guirlanda

era um arco.

 

 

 


FACING THE SUNLESS DEAD

(OUTRO ÓRFICO)

Retornou

do Orco,

como raros,

a prenunciar

o que a morte

oculta.

Em vão, ela

quis selar

seus olhos,

eclipsá-los,

a bálsamo

cegá-lo.

Mas ele mirou.

Perfurou,

com olhos

argutos,

„o rombo

no tecido

do espaço“ –

e entreluziu.

Fáustico, voltou-

se, viu-a

no vão, ele,

no meio do

vórtice-vertigo.

Só, ele

retornou

do negro

Orco com o

branco koan

aos cegos:

um cristal

de neve (r

more).


DE UM POSTAL DO PARAÍSO DE CREUZFELDER,

EXTRAVIADO NAS ÁGUAS DE PIEGNITZ

À guisa da serpente,

ela seduz, sibilina,

ou simula traduzir

ao invento (Adão atenta)

o intento do artífice.

Por um fio, seus muitos,

Eva reconduz, ardilosa,

a mão de quem forjou

da argila (adamah) à forma,

e a remodela: verte o gesto,

a dedos, em reticência.

Da tríade intérprete

translitera, em ofício ofídio,

o código do artífice

em antídoto,

e protela (Adão aguarda)

o que no princípio.

Em mímica ambígua,

diz e dissimula,

inocula, precisa,

a dúvida, finca

a presa, desnuda

a falácia da língua

dita adamítica.

Ela protrai a palavra

(Adão retrai),

e por um sopro,

converte o molde

em verve sinuosa.

Eva desvirtua:

enquanto o verbo

dilui-se em deflúvio.

 

 

 


 

Simone Homem de Mello
É graduada em Letras na USP e mestre em literatura alemã pela Universidade de Colônia. Trabalha como jornalista, tradutora e libretista. Vive em Berlim.

 
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