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dossiê
HISTÓRIAS MUNICIPAIS
Paulo e as cãibras Paulo acordou cedo, mas ao tentar abrir os olhos viu (ou não viu, já que eles não abriram): estavam grudados. A poeira sob as pálpebras ardendo nas retinas, braços rígidos feito concreto e um estrondo crescente nos ouvidos, além do zumbido de helicópteros, de buzinas, da lentidão dos carros que longe podia pressentir e o cheiro podre da xepa lá embaixo, o fedor da rua, e a rua. A rua. O extremo dos dedos quase mortos. Mortos. Estranho como podemos usar o verbo em tais condições. ”Viu“ pode significar apenas ”sentiu“. Foi o que rolou naquele dia -Paulo nada viu. Apenas sentiu. De onde teria vindo a cegueira inesperada? E a sensação de estar no alto, como se a cama houvesse crescido, os espaldares atingissem o céu? O céu. Quase morto. Ah, morto. Morto. Toda aquela fumaça no ar, como se a poluição invadisse a casa, seu quarto, como se uma chaminé se instalasse bem acima de sua cama? Paulo primeiro tentou chamar alguém, engasgou. Insistiu de novo. Nada aconteceu, além duma vibração longilínea através do corpo e o ribombar de vesículas, igual ao de água dentro de canos compridos. Paulo pensou que uma calha parecia despejar a enxurrada. Ao longe. Uma enxurrada. E mais enxurrada. Paulo procurou se mexer, espreguiçando pernas, pernas e pernas, esticando braços quase mortos, braços e braços. Seus braços. A sensação de imobilidade se repetia, até os estardalhaços metálicos e ensurdecedores, seguidos da algazarra de freios, braços. Pernas. Asfalto zunindo e pernas. Pernas. Entretido com sirenes de braços e ambulâncias e pernas e alarmes disparados de carros, Paulo desistiu das suas tentativas. A dolorosa cãibra o fez mover os dedos da mão direita. O dedão. O dedinho. Cãibra. Cãibra. Existe palavra mais linda? Cãibra. A cada vez que procurava se movimentar, uma sucessão de rumores o precavia. Estuque se descolando, fragor de tijolos ou de lajes. Gritos sucessivos e mais berros (berros, berros!) como se pessoas fossem atingidas por estilhaços, e o fracasso que aumentava cada vez mais e mais, como se Paulo mergulhasse no burburinho da multidão e não nos alvíssimos lençóis da sua cama duplex. Paulo então pensou que talvez estivesse apenas sonhando. Uma festa ruidosa. Um sonho. Nada de cãibras. São Paulo não pode parar. Cãibras. Porém, durante todo o tempo em que sem sucesso procurou sem sucesso levantar-se ou fazer com que sem sucesso o ouvissem, apenas uma obsessão tomou Paulo. Cãibras. Cãibras. Alguém soletre esta palavra, por favor? Paulo madrugou para sair e lamber testas de crianças e bochechas de senhoras. Não mais aquela cama onde padecia num sonho ou pesadelo: São Paulo não podia parar. São Paulo não podia parar. Paulo não se conformou com a rigidez de membros, com aquela ausência de voz, e pior: escuridão total não era para ele, que tanto prezava a iluminação pública. E mais uma vez Paulo tentou chamar alguém, ”Alguém irá me ajudar, somente Alguém poderá me socorrer”, pensou. E na sua mulher. Mas apenas um novo despejar de líquidos no interior de seu corpo duro se repetiu, e o estrondo de canos de plástico, nada mais, nada mais. Água suja nos canos. Nada mais. Paulo não se deixou abater e, numa brusca tentativa de ficar em pé, ergueu a coluna, ou os alicerces que haviam substituído sua espinha dorsal, àquela altura. E conseguiu enfim abrir as pesadas pálpebras, e viu diante de si o horizonte destruído do centro de São Paulo, uma saraivada de carros sobrevoando prédios, e pessoas à distância, em pleno vôo, atravessando o sorriso cristalino dos candidatos nos outdoors. E ao observar seu corpo delgado feito um intestino, percebeu que não era um sonho, e que ao acordar naquela manhã, ele, Paulo, viu-se transformado em nada, a não ser ele mesmo. Joca Reiners Terron É escritor, autor de "Não Há Nada Lá” (romance, 2001), ”Hotel Hell” (novela, 2003) e ”Curva de Rio Sujo” (contos, 2003), entre outros.
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