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prosa.poesia
LANÇAMENTO
Já era uma vez Leminski conta a história de uma história sem enredo, em narrativa do livro “O Gozo Fabuloso” A narrativa a seguir é um dos textos de “O Gozo Fabuloso”, de Paulo Leminski, livro que o escritor e poeta deixou pronto para a publicação antes de sua morte, em 1989, mas que só agora vem à luz, lançado pela editora DBA, na nova coleção “risco:ruído”. A poeta Alice Ruiz, mulher do escritor, assina o prefácio. A coleção é coordenada pelos escritores Nelson de Oliveira, Marcelino Freire, Joca Reiners Terron e Ronaldo Bressane, e publicará 20 livros de autores brasileiros e estrangeiros, seis deles ainda em 2004, como “Estudos de interiores para uma arquitetura da solidão”, de Cecília Prada, e “Phutatorius”, de Jaime Rodrigues.
A pobre da nossa história andava por aí pedindo: - Um enredo, pelo amor de Deus! Mas ninguém dá a mínima atenção a uma história sem enredo. E a historinha sem enredo passava por grandes histórias, cada uma mais orgulhosa do seu enredo. Uma era a história de um cavaleiro de armadura que atacava até moinhos de vento. A historinha olhava e dizia: - Puxa!, isso é que é enredo. Quem dera eu tivesse um enredo assim! Outra era a história de um médico que virava monstro e de um monstro que virava médico. Tinha também a história de um rei que tinha uma távola redonda. Todas as histórias tinham enredo, menos a nossa. Um dia, nossa história decidiu, “vou sair pelo mundo e vou encontrar um enredo, custe o que custar”. Assim, nossa história correu mundo, conheceu todos os lugares, viu cidades imensas, ouviu a queixa das pessoas, o som das trombetas e o barulho dos cascos dos cavalos do rei. Viu bandidos serem enforcados, foi presa, foi solta, foi presa de novo, fugiu. Assim, os anos se passaram, e assim a nossa história voltou ao ponto de partida. Agora, já era uma velha história, uma história que os pescadores contavam nas noites de lua, as velhas contavam para as crianças dormir, e as pessoas sonhavam quando queriam esquecer da vida. Um dia, nossa história estava para morrer. Então, ela reuniu em sua volta todas as pequenas anedotas da vizinhança, os episódios mínimos e as piadas sujas e disse: - Meus amores, antes de partir tenho uma coisa muito importante para contar a vocês, que vão alegrar os homens, fazer as mulheres chorarem e apavorar as crianças. Já era quase nada, quando conseguiu dizer: - Era uma vez uma história bem pobrezinha, tão pobrezinha que não tinha personagens, não tinha começo, não tinha meio, não tinha fim, nem enredo ela tinha. E morreu dizendo: - Para que serve uma história sem enredo? Paulo Leminski
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