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Almeida Prado: A música popular caminha ao lado da erudita, mas ela tem outra proposta. Em ambos os casos pode haver compositores geniais. Não estamos falando aqui daquela “música de bunda” em moda no ano passado, da qual, mesmo quem ouvia e gostava, hoje não se lembra mais. Essa não caminha ao lado, caminha bem abaixo. Mas, certamente, a herança de Chiquinha Gonzaga, Ernesto Nazareth, Noel Rosa e outros pode figurar ao lado de uma peça de Camargo Guarnieri no Carnegie Hall. Mas, tecnicamente, a música popular apresenta soluções muito simples. Geralmente são canções estróficas ou em forma ternária. Mesmo a Bossa Nova, que apresentava sua harmonia dissonante como novidade, não tinha nada de novo, porque Gershwin já usava. Como exemplo de como os dois estilos caminham juntos, tem o José Miguel Wisnik, que se dá bem compondo tanto coisas atonais e sofisticadas, como canções ao violão. Também eu tentei fazer música popular, mas minha música popular fica no nível de um ponteio bem simples de Guarnieri ou de Guerra Peixe. Não chega ao nível que eu gostaria que fosse. Talvez porque eu não tenha a receita.
Almeida Prado: Para responder isso eu tenho que voltar a 1952. Compor era uma necessidade visceral que surgiu em mim e que eu não podia deter. Isso nunca me foi posto em questão, pois eu nunca tive crise. Eu fui fazendo, acumulando experiências e enriquecendo. Agora eu posso ter crise. Eu já tenho mais de 400 obras. Nem todas têm o mesmo peso, mas eu as compus. Eu enchi pentagramas com notas. A crise é um momento de lucidez que você tem quando tem tempo para ter. Agora, aos 61 anos, eu posso me perguntar: “Será que era isso que eu queria?”, “será que eu não me enganei?”. E isso é bom.
Almeida Prado: Não. É mais um cansaço. Um aborrecimento de ter que compor. Agora, quando você tem que compor uma sonata para ganhar dinheiro, você tira um resto de nada da sua medula, porque o dinheiro te move. Mesmo que você faça uma música ruim, por dinheiro você faz. Mas compor por compor, como eu fazia antigamente, não tenho mais vontade.
Almeida Prado: Não insiste mais. Hoje eu fico contente que meus alunos componham. E é nisso que eu me empenho agora. Quanto a mim, minha obra já é tão grande e tão pouco tocada, que eu prefiro apenas divulgá-la através de workshops, cursos e palestras, do que aumentá-la ainda mais.
Almeida Prado: Não se ensina. Se dá subsídios técnicos a alguém que já tem uma certa disposição criativa, para que ele use como quiser. Eu não posso ensinar ninguém a criar. Se o aluno não for compositor, as técnicas que eu ensinei não valerão nada.
Almeida Prado: Não. Eu procuro fazer com que rapidamente o aluno seja ele mesmo. Por exemplo, o meu melhor aluno de composição, do qual eu muito me orgulho, foi Marco Padilha. Ele ainda tem poucas obras, porém todas excelentes. Na última obra dele que eu ouvi, um concerto para viola, ele é divinamente ele mesmo. Antônio Menezes ouviu e achou maravilhoso. Hoje ele está compondo um concerto para cello para Menezes. Outros alunos mais recentes já compõem de uma maneira bem pessoal. Claro que com uma pequena influência minha, mas direcionada para outra coisa.
Almeida Prado: Quando eu comecei, não existia a possibilidade de fazer uma música independente de Villa-Lobos e Guarnieri, com exceção do Gilberto Mendes, por ele ter sido autodidata e por não ter que seguir nenhuma escola. Já a geração seguinte à minha, que conta, por exemplo, com Ronaldo Miranda, pôde ser bem mais eclética. E é uma síntese do nacionalismo, do serialismo e de outras tendências.
Almeida Prado: É difícil dizer. Mas Villa-Lobos, além do talento que tinha, teve também a sorte de chegar em Paris para divulgar sua obra num momento propício: a década de 20, quando sua música foi muito bem recebida. Guarnieri tentou fazer o mesmo, mas, quando chegou na Europa, estourou a Segunda Guerra. Quando ele tenta de novo, após a guerra, a estética vigente lá já é outra: o serialismo integral de Boulez e Stockhausen. Sua música não era mais valorizada. Só agora estão se lembrando de Guarnieri. A Osesp gravou todas as suas sinfonias e está gravando os seus concertos. Além disso, tem o fato de o Brasil não ter a força econômica dos Estados Unidos ou da França. Não há estrutura e nem vontade para se divulgar a música daqui. Para mim, ser reconhecido como eu sou, já é um milagre. Matheus G. Bitondi |