Leia, em tradução de Nelson Ascher, um poema de Jerome Rothenberg, que fará uma leitura de seus trabalhos neste sábado, no MIS
Um dos principais poetas norte-americanos da atualidade, Jerome Rothenberg, lerá seus poemas no MIS (Museu da Imagem e do Som), em São Paulo, no sábado, dia 4 de dezembro de 2004, às 11h30. Traduções em português de seus poemas também serão lidas pelo poeta e ensaísta Nelson Ascher. O evento é uma realização da Secretaria de Estado da Cultura, com o apoio da revista "Cult" e de Trópico. Rothenberg é autor de "The Case for Memory" e "14Station", entre outros livros, que não foram ainda traduzidos no Brasil por completo. O endereço do site do escritor é http://epc.buffalo.edu/authors/rothenberg/. Leia a seguir um poema de Rothenberg, "Dos geshray (O grito)", traduzido por Ascher.
DOS GESHARAY (O GRITO)
Erd, zolst nit tsudekn mayn blut un zol nit
kayn ort zayn far mayn geshray
(Job 16.18)
"exercite seu grito" eu disse
(por que é que o disse?)
porque era o grito dele & não o meu
o grito pairava entre nós ofuscando
nossos sentidos sempre ofuscante
ocupava o centro
outrem apareceu então & fitou-o
fundo nos olhos onde achou uma lembrança
de cavalos num galope veloz as rodas pintadas
de vermelho a segui-los os poloneses haviam
marcado um dia de festa mas o judeu
trancado em seu armário gritava
em seu colete um grito
que não tendo som
espiralava-se ao redor do mundo
tão desvairadamente que despedaçava pedras
ele fez os sapatos empilhados diante da porta
esparramarem seus pregos as coisas testemunham
-a lei o declara-
sapatos & os objetos mais queridos
como cabelos & dentes o fazem
por sua presença
não sei se compartilham a dor
ou se a revelam nem sequer as fotos
das quais as expressões dos mortos saltam aos olhos
as muletas e próteses por seu acúmulo
testemunham os óculos testemunham
as malas os sapatos de crianças os turistas alemães
no palco montado de oshvietsim se tornaram
as letras ardendo ainda sobre seus portões
ainda proeminentes
ARBEIT MACHT FREI
& quase ao lado HOTEL
e BAR GASTRONÔMICO
o espírito do lugar se dissolvendo
indiferente à sua presença
ali com os outros fantasmas
o tio de luto
suas pálpebras se empardecendo um olho
projetando-se de suas ancas
este homem cujo corpo
é o de um caranguejo
suas tripas expostas
a carne rósea de seus filhos
que seus joelhos deslizando empurram
pendurada nele
para estes não existe
holocausto mas somente khurbn
a palavra ainda usada pelos mortos
que dizem meu khurbn
& o khurbn de meus filhos
é a única palavra que o poema
permite pois é a deles
a palavra como prelúdio ao grito
que entra
pelo ânus
circula entre as tripas
sobe à garganta
& irrompe
num grito num berro
é o berro que chorando
em oshvietsim me abala
& permite que o poema venha
Tradução de Nelson Ascher
DOS GESHRAY (THE SCREAM)
Erd, zolst nit tsudekn mayn blut un zol nit
kayn ort zayn far mayn geshray
(Job 16.18)
"practice your scream" I said
(why did I say it?)
because it was his scream & wasn't my own
it hovered between us bright
to our senses always bright it held
the center place
then somebody else came up & stared
deep in his eyes there found a memory
of horses galloping faster the wheels dyed red
behind them the poles had reserved
a feast day but the jew
locked in his closet screamed
into his vest a scream
that had no sound therefore
spiraled around the world
so wild that it shattered stones
it made the shoes piled in the doorway
scatter their nails things testify
-the law declares it-
shoes & those dearer objects
like hair & teeth do
by their presence
I cannot say that they share the pain
or show it not even the photos
in which the expressions of the dead shine forth
the crutches by their mass the prosthetic limbs by theirs
bear witness the eyeglasses bear witness
the suitcases the children's shoes the german tourists
in the stage set oshvietsim had become
the letters over its gates still glowing
still writ large
ARBEIT MACHT FREI
& to the side HOTEL
and GASTRONOMIC BAR
the spirit of the place dissolving
indifferent to his presence
there with the other ghosts
the uncle grieving
his eyelids turning brown an eye
protruding from his rump
this man whose body
is a crab's
his gut turned outward
the pink flesh of his children
hanging from him
that his knees slide up against
there is no holocaust
for these but khurbn only
the word still spoken by the dead
who say my khurbn
& my children's khurbn
it is the only word that the poem allows
because it is their own
the word as prelude to the scream
it enters
through the asshole
circles along the gut
into the throat
& breaks out
in a cry a scream
it is his scream that shakes me
weeping in oshvietsim
& that allows the poem to come
Jerome Rothenberg