A procura da poesia registrada em “Zona de Sombra” prepara o terreno para “Corola”, lançado em 2000, pela Ateliê Editorial. As flores ganham um significado mais amplo, abarcam outros problemas que não apenas diretamente os do corpo (da comparação das formas florais com as formas do corpo) e do desejo, nem as aproximações e os detalhes de exuberante beleza. Elas ajudam a representar um mundo fechado –em alguns momentos, claustrofóbico.
A própria Claudia relatou em entrevista que este livro é o “deságüe de várias experiências dolorosas –entre elas o seqüestro da minha única irmã (felizmente, com a volta dela, na íntegra, tanto física quanto mentalmente) e depois de um período de ‘retiro’ de quatro meses numa fazenda fora do Rio”.
O livro quase que inteiro parece que foi escrito dentro de um quarto, ou de um jardim fechado a quatro chaves, onde os ruídos da rua pouco ou quase nada penetram. Quando penetram, não são suficientes para romper o confinamento doloroso da voz poética -e esse sentimento perpassa todos os poemas, inclusive os que se querem contemplativos.
A contemplação será a partir daí sempre difícil, sempre suspensa por algo que a impede. Logo no primeiro poema, isso já fica bem evidente: “O dia inteiro perseguindo uma idéia:/ vagalumes tontos contra a teia/ das especulações, e nenhuma/ floração, nem ao menos/ um botão incipiente/ no recorte da janela/ empresta foco ao hipotético jardim”. Diante desta barreira, em que nada brota, nada surge, o “eu lírico” resolve, então, descer no “poço do silêncio”, quase que numa anulação de si mesmo (“Longe daqui, de mim/ (mais para dentro)”). Esse sentimento se repete dentro do livro, várias vezes (“na tarde igual a todas as outras”, como ela escreverá em outro poema).
A natureza que a cerca não é mais a da revelação, mas é a que pontua o ambiente fechado. Num poema bastante representativo deste livro, podemos ler:
Amor-emaranhado, labirinto
apartado de mim pelo fôlego das rosas,
pensas, no jardim.
Dos pés na grama me ergue um calafrio,
e tudo é muro, palavra que não acende
neste anelo em que me enredo.
Para que tijolos, toda esta geometria,
que faz da paisagem um deserto de cintilações espontâneas?
De linhas retas apenas
o fio que desenrolo,
exausta embora atenta,
sem conhecer a mão
que o estende na outra ponta.
A poesia, neste livro, parece ser a salvação (“na borda das palavras,/ tentando não morrer”; ou “minha voz âncora”; ou “Escrita/ é sempre você que me resgata/ do limiar do iminente nada”). Diante de um mundo que se fechou, que impede a contemplação, a poesia vira âncora, apesar do cansaço da poeta -“exausta embora atenta”.
É também bastante significativa a presença de dois poetas românticos como Novalis e Wordsworth. No romantismo, a natureza é o espaço por excelência da reflexão e da meditação. Num poema muito bonito, um dos mais tocantes, a poeta fala de uma noite em que ela ficou imprimindo o “Hinos à noite”, de Novalis. E de como aqueles poemas chegavam, 200 anos mais tarde, ainda vivos, ainda úmidos. É um dos poucos momentos em que o prazer (aqui, o prazer da leitura de um grande poeta) irrompe nestas páginas -mas com melancolia.
a Novalis
Ainda úmidas sobre a folha,
orvalho escuro que pousa
na pele,
imperiosa e nua.
Mal desgarradas da pena,
cada pequena curva
tatua as idéias na superfície ácida.
Isto imagino,
se te vejo debruçado
sobre a mesa penhasco
olhos anoitecidos
despencando no hiato das ventanias.
Isto, enquanto imprimo
os teus Hinos à noite
nestas folhas ordinárias,
palavra por palavra coagulando
na brancura ininterrupta, saídas
da boca da máquina
como uma carta pela fenda da porta
duzentos anos mais tarde e
úmidas, ainda.
Este confinamento –que é o do homem contemporâneo– faz com que a poesia mude, a sensibilidade mude. Ler um poeta 200 anos depois é registrar uma nostalgia da contemplação hoje barrada.
Pelos poemas mais recentes, publicados aqui e ali, em revistas, percebe-se que o mundo de fora, da vida cotidiana e dos fatos, que é o mundo que entra em conflito direto com a contemplação, passa a circular mais intensamente na poesia de Claudia, criando ruídos e atritos em sua “hipotética” natureza-morta.
Neste ano, Claudia participará de uma mesa de poesia na Flip (Festa Literária Internacional de Parati) e promete, para logo, a publicação de “Margem de manobra”, reunindo seus novos poemas, livro que, segundo ela, já está prontinho.
***
Antologia pessoal
de “saxífraga”:
bãdinjâna (a beringela)
tomatl
os frutos da terra (frieda kahlo)
space-writing
ele:
de “zona de sombra”:
no teatro
voz
fósforo
no éden
em surdina
chama
de “corola”:
Suspenso na rede do sono...
Sob o fermento do sol...
Conhecer,
Teia de aranha, galho seco da roseira,
Escrita,
O que mora em minha boca
O náufrago
***
Poemas de Claudia Roquette-Pinto
E ela soube que tinha sido atravessada por uma trilha luminosa, varada, instantaneamente, de um quadrante ao outro, por um clarão fugitivo que o pensamento só podia seguir no encalço.
E o que havia ali para ser entendido, era o corpo que entendia – num viés absolutamente novo, onde as imagens se estendiam sobre as sensações – ou, antes, se enlaçavam a elas. E a culminância para onde ela (em cada um dos seus corpos) convergia, ao abrir-se em pétalas, tornava inseparáveis a queda aniquiladora do seu próprio corpo, entregue ao corpo que estava ali, e o vislumbre, simultaneamente doce, do outro corpo, ausente.
Opaco
Obscura aurora desse corpo
na luz desacordada.
O que, além de mim, desperta
no quarto vago, vaga
entre a onda iluminada sobre a hortênsia
e o pensamento, opaco:
mais um dia a atravessar do avesso,
comendo pelas beiradas
a papa fria das conversas,
as caras de tacho e borracha
chapadas contra o meu céu
(onde bóiam as coisas de verdade:
espirais de fogo,
sua boca contra a minha,
as palavras do sonho, que perdi).
Margem de manobra
Eu me cubro com o A da palavra farpada
eu me cubro com o A que traslada
(e a memória é a ignição de uma idéia
sobre dunas de pólvora).
Eu me deito na décima-terceira casa,
eu me deito sob a letra de mãos dadas
M: escondo entre escombros
o sentimento que sobra.
Isto, sim, me comove,
o anel, quando soa
e engloba, envelopa,
remove a pessoa
- letra O, de vertigem e pó,
que soçobra.
Eis o despenhadeiro,
gargalo da fera,
eis o R que trai, apunhala,
desterra – eis o último tiro
sem margem de manobra.
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link-se
Poesia Presente: Tarso de Melo, por Heitor Ferraz - http://p.php.uol.com.br/tropico/html/textos/2567,1.shl
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Heitor Ferraz
É poeta, autor de "Coisas imediatas" (Coleção Guizos, Ed. 7 Letras), que reúne toda a sua poesia até agora.