CINEMA
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entrevista
POESIA

O último dândi
Por Carlos Adriano


O poeta e escritor Jomard Muniz de Britto
Gustavo Túlio

Lições de inconformismo do filósofo pop, poeta, performer e agitador cultural Jomard Muniz de Britto

"Sobrevivemos pelo desencantamento do mundo e reencantamento das linguagens." Assim diz um poeta franco-atirador, filósofo pop, cineasta super-oitista, agitado agitador cultural, artista de colagens e bricolagens, performer almost full time. Assim, múltiplo e plural, pode se dizer de Jomard Muniz de Britto (Recife, 1937).

Irônico paladino das vanguardas, "o famigerado JMB ou o ETC do amor cortês" (como se auto-intitula) é autor de dez livros, algumas peças de teatro e mais de 30 filmes e vídeos. Formado em filosofia pela Universidade do Recife (atual Federal de Pernambuco), integrou a equipe de Paulo Freire no lançamento de seu programa de alfabetização para adultos.

Seu livro "Contradições do homem brasileiro" chegou a ser retirado intempestivamente das prateleiras por um batalhão militar em 1964. Com o AI-5, foi aposentado das universidades de Pernambuco e da Paraíba (por esta, foi ainda acusado de "manipular mentes juvenis"). Certa vez, uma palestra sobre o amor condenou-o a um inquérito policial.

Confinado na mesma cela de Gregório Bezerra, Jomard tentou ensinar-lhe francês. Durante seu afastamento, lecionou na Escola Superior de Relações Públicas do Recife e coordenou treinamentos sobre comunicação e criatividade em corporações públicas e privadas. Com a anistia, em 1984 recuperou seu posto universitário.

Representante da tropicália no Nordeste, redigiu manifestos do movimento: "Porque somos e não somos tropicalistas" (com Aristides Guimarães e Celso Marconi; "Jornal do Commercio", abril de 1968) e "Inventário do nosso feudalismo cultural", que teve entre seus signatários (além daquele primeiro trio e outros nomes), Caetano Veloso e Gilberto Gil.

O autor é cultor da incontinente arte da conversa, fala expandida. Alguns de seus livros fronteiriços entre poesia e prosa, repletos de investidas anarcoplásticas, são: "Inventário de um feudalismo cultural" (1979), "Terceira aquarela do Brasil" (1982), "Bordel brasilírico bordel" (1992), "Arrecife do desejo" (1994) e "Atentados poéticos" (2002).

Nos tais "atentados poéticos" (originais poemas em glosa), distribuídos por e-mail ou em panfletagem mão-a-mão, Jomard alia erudição e alusão a irreverência e provocação, criticando o panorama provinciano das mentalidades acomodadas em preconceitos e atrasos. A dura busca da equação entre invenção e intervenção.

Para Rubens Machado Jr., pesquisador e professor de cinema na USP, que recuperou as experiências do poeta em super-8 (mostra "Marginália 70"), "Jomard sintetiza em sua própria figura este trajeto moderno e um tanto impossível, arlequinal, que nos leva de Paulo Freire a Zé Simão, passando por Sartre, Glauber e o tropicalismo".

Na entrevista a seguir, feita por escrito, Jomard fala das relações com Glauber Rocha, que prefaciou um livro seu, e com quem trocou saborosas cartas. Numa delas, que termina com "O Brazyl vai indo. Acho quê?", Glauber sugere a Jomard fazer "um filme sobre Lampião, você mesmo fazendo o papel. Lampião Super 8". E completa: "Se você quiser eu canto uma música only for you, em ritmo nordestino" (leia uma carta de Glauber a Jomard no final desta entrevista).

Fala também de Ariano Suassuna, seu ex-professor de estética quando jovem. Conta-se que em 1968, no intervalo de uma peça, Suassuna esmurrou o jornalista Celso Marconi, alegando: "Era para Jomard, mas já que ele não está aqui, leva você mesmo".

Jomard esbanja exuberância intelectual e entusiasmo. Como um dândi elegante e galante a flanar sobre a sordidez e o imprevisto, circula pelas ruas do Recife onde é "popular" entre artistas, estudantes e figuras noturnas do lúmpen. Mito carismático, demasiado humano, afeito a contrafacções e contradicções, e aberto à disposição gozosa pelas coisas da vida.


Ultimamente, você tem dedicado sua verve irrequieta aos "atentados poéticos". Como e quando surgiu a idéia dessa ação? O que são tais "atentados" e quais são os alvos?

Jomard Muniz de Britto: O pessoal das edições Bagaço, do Recife, me convidou para fazer um livro. Isso em 2002. Eles achavam que eu estava sem editar há algum tempo. Nem desconfiavam do motivo: falta de grana de professor aposentado e radical incompetência para lidar com projetos coligados com as tais "leis de incentivo". Aliás, os da Bagaço desconfiavam, já que são do ramo e também sofrem do total desamparo diante da "cultura chapa branca".

Joguei dois títulos para o amigo-editor Arnaldo Afonso: "Panfletos da poeticidade" e "Atentados poéticos". A escolha de A.A. foi certeira no segundo. Talvez a palavra "panfletos" nos remetesse fatalmente ao Jorge Mautner, pioneiríssimo em quase tudo. Do "Kaos" ao "Maracatu atômico". Todas as caosmoses.

Explicando ainda mais, como a pergunta impõe ou sugere. "Atentados poéticos": o desejo de expor uma coletânea de textos, misturando com "s" e com "x" coisas de prosa e poesia, ensaios e entrevistas, além de um caderno de bricolagens visuais, fragmentos de antidiscursos de amorosidade e líricas per-versões.

Desta vez trocando o Mautner pelo Lévi-Strauss de "O pensamento selvagem", jamais silvestre. Deste pensamento pensante percorrendo todos os riscos da autodevoração em sessões intermináveis de "psicanálise selvagem". Entre memórias roubadas e mitologias replicantes, lacanagens pra valer.

Com responsabilidade paradidática, não paradigmática, senso lúdico, sempre com investimentos libidinais em crítica da cultura. Interdisciplinaridades tão propaladas e tão pouco experimentadas. A isso e aquilo chamamos de "língua dos três pppês": poesia, ou melhor, poeticidade, política e pedagogia. Conceitos flutuantes friccionando idéias nômades e divergentes. O eu e o nós sempre duelando e deMonstrando suas fraturas latentes, superexpostas. Desexplicando.


Como você lida com o desafio e a (im) pertinência desta intervenção hoje? Por um lado há a carga alegórica do pós-11 de Setembro e, por outro, há a ameaça de que tal idéia de atentado "poético" pode (como dizem também ocorrer com as vanguardas) ter envelhecido.

Jomard: O "amor líquido" nos atinge e contamina a todos: inventores, mestres e diluidores. Contraventores. Contra-mestres. Trans-diluidores. Liquidando e liquidificando e linkando (des) cargas alegóricas, auras em transe, fundamentalismos, contra-imagens de qualquer Vã guarda envelhecida e mesmo envilecida. Devir de vilanias. Pactos à sombra do intimismo dos poderes literários e diversionais.

Em 1973, publiquei na "Revista de Cultura Vozes", tempos do Moacy Cirne, um texto quase ensaísmo-em-processo: "Vanguarda, um tigre de papel?". Recentemente experimentei reatualizá-lo para um livro do Rubens Machado Jr., companheiro de Noemi Araújo, "minha" psicanalista (Clapp) em trânsito pelo centro de Sampa. Psicanálise selvagem, não silvestre, é isso também.

Convivendo com esses modos e manias do "amor líquido", não temos tempo de temer a sorte e morte das vanguardas (tema-problema reservado a Ferreira Gullar ou Affonso Romano de Sant’Anna). Dentro e fora do parêntese: atentamos em combate pelo Pós-tudo. Pela desnecessidade de rótulos. Para nada salvar. Nem mesmo a alegria das terapias do descentramento e dos cosmopolitismos periféricos (Angela Prysthon).


Você acha que o ambiente no Brasil está pobre ou amorfo em termos de indignação e inconformismo? O que você acha da situação atual do país em termos de debate de idéias?

Jomard: Os suspenses e decepções, surpresas e ignorâncias do governo Lula estão pré-ocupando todos os espaços de debate na mídia impressa. Os entre-lugares da cultura intelectual (!) permanecem fissurados pelo mais (ou menos) e outros suplementos que sabem dialogar muito bem com as grandes editoras.

Todos, por incrível que pareça, alardeando crises financeiras. Globais e generalizadamente. Ressalvemos os banqueiros da internacionalização monetarista. Economicídio. O que é isto? O economicismo suicidando populações proletarizadas?

Aguardemos a súbita canonização do papa imóvel. Ou as bênçãos de Mãe Nitinha com muito axé para os Severinos da "teologia da contratação". Apesar de tudo, os movimentos sociais, de abril ao ano inteiro, continuam indignados e inconformistas. Ver e ler. Escutar. Intervir.

Ilhados culturalmente, ainda náufragos de todas as signagens (Décio Pignatari). Continuamos ignorando o "Correio das Artes", do jornal A União (João Pessoa , Paraíba). Debate de idéias ainda restrito às universidades?


Você exerce o mister (o mistério?) da poesia e da filosofia, disciplinas fundamentais para a experiência humana, mas que são incompreendidas pela sociedade utilitária. Qual o sentido da poesia num país em que a maioria das pessoas é ou analfabeta, ou semialfabetizada, ou passa todo o tempo livre, não diante de livros, mas diante da televisão?

Jomard: Evitando qualquer tipo de idealização/sublimação, mas roubando uma expressão saborosa de José Miguel Wisnik, podemos confirmar que a poesia continua sendo -sem padecer nem orgulhar-se- uma "pérola para poucos".

Esquecendo os "moralismos culposos" diante da TV e afins, invocações evangélicas e transtornos de auto-ajuda, preferimos a condição ex-cêntrica e descentrada. À margem das Ondas Tsu dos imperialismos audiovisuais. Esquecendo também os mistérios e ressentimentos. Esquecendo egolatrias. Esquecendo mitomanias.

Trabalhamos com a poeticidade sem os rigores da "condensação" erzapoundeana e sem os louvores da transgressão sob encomenda bancária. "Paranóia" do Piva para nos azougar. O "Livro do avesso" do Trevisan antecipadamente desconstruindo mitologias do mais famoso Coelho. "Contracorrente" do Frederico Barbosa deflagrando a retórica dos ainda modernistas. "Brasil diarréia" de Hélio Oiticica, leitura básica para todos e ninguém. Pauleira nos misteriosos.

Quanto à crueldade do analfabetismo, consultar a professora. Maria Salete van der Pool (Ufpb) sobre as possibilidades do "letramento sócio-histórico" enquanto pedagogia trans-paulofreiriana. Na Paraíba, paraiBarroca. Historicidades contextualizadas.


Fale do livro em CD "Pop filosofia – o que é isto?", de 1997.

Jomard: Pelo fim das certezas e das certidões de nascimento. Nada de projetar ou retroprojetar um Brasil Profundo. Pro-fundo de que e de quem? Brasil Real versus Brasil Oficial? Retóricas politiqueiras. Tardios engajamentos e engasgamentos. Esquizoanálise como entre-expressões da miséria no esplendor da luminosidade. Trópicos entrópicos. Indefinidamente fome zero infinito. Abismos de todos os encobrimentos e impunidades.

O CD "Pop filosofia", nas entrelinhas dos filmes em super-8 das décadas 70/80, representou um trabalho de criação coletiva através de textos que já prenunciavam os "Atentados poéticos". Aglutinando compositores, intérpretes, instrumentistas numa produção amadorística de apenas dois mil exemplares. O que fazer?


A "pop filosofia" poderia ser a avaliação crítica de uma postura ou definição de uma estratégia?

Jomard: Talvez uma estratégia de sobrevivência além das subserviências, não apenas provinciais. Tática de agitos culturais em salas de aula com e sem paredes, pelos bares e becos sem saída ideológica. Panfletos xerocados. Recortes de jornal. Discutir face a face com a rapaziada da Comuna Experimental. E outros e outras. Escutar os sons, transfigurando gestos pela culturação das cidades. Próximas e fundacionais.

João Pessoa de repente Rio de Janeiro. Olinda barbaramente Paulicéia. Natal absurdamente Londres desnorteada. Campina Grande desgovernada por Bráulio Tavares. Joca, João Carlos Teixeira Gomes, anti-herói baiano, carbonário neo-romântico nas páginas de "A tarde".


Com toda complexidade carnavalizadora do país, quais seriam os métodos de atuação e reflexão para um intelectual no Brasil de hoje?

Jomard: Desterritorializações pela internet ou pelo telefone de Donga. Porque nossa "complexidade carnavalizadora" não pode limitar-se ao Sambódromo ou aos camarotes de celebridades em "Salvadolores", na voz gregorianademattoseguerra de Fernando da Rocha Peres.

Nós, ainda intelectuais, precisamos perder ou dispensar tanta arrogância de salão ou de televisão. Confiar menos na potência de cantos e cátedras. Suspender afãs de julgamento. Trapacear com as linguagens estabelecidas. Cultivar a ironia socrática nos aforismos nietzscheanos. Cortes epistemológicos arrebentando o núcleo das complexidades.

Além e aquém das carnavalizações reconfortantes e mercadológicas. Quem gosta de miséria é intelectual: ecoando a sabedoria de Joãozinho Trinta? Memórias roubadas, mitologias replicantes. A coisa das coisas -das Ding?- talvez seja transitar pela contemporaneidade sem medo de ser INfeliz. De qualquer maneira de amar, apostando na felicidade, desesperadanadamente. Generosidade. Disponibilidades.

 
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