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Jomard: Nossas querelas com Ariano Suassuna já foram bem retratadas e documentadas no livro de José Telles, "Do frevo ao mangue beat". Do ponto de vista mais argumentativo temos a dissertação de mestrado de Maria Tereza Didier de Moraes, "Emblemas da sagração Armorial" (ed. Universidade Federal de Pernambuco). Dois livros que podem valer como o outro lado da lua da "Verdade Tropical". Quando A.S. (amado sofista?) defende como fundamento do Armorial "uma arte erudita brasileira a partir das raízes populares", seu projeto estético-ideológico está bem definido. Paradigma transdogmático. De Euclides da Cunha a Mário de Andrade, ultra(re)passando o integralismo de Plínio Salgado. Ou não, como ainda repetiriam os indóceis bárbaros. De qualquer entre-lugar do planeta mangue-dendê-olodum-aparelhagem. Ariano Suassuna, em termômetro global do "conteúdo Brasil", representa a vitória ou hegemonia do nacional-popular: tanto do ponto de vista fervoroso da esquerda católica e do catolicismo sertanejo (sic) como da mais-valia do riso globalizado. Pela intervenção audiovisual de Guel Arraes chegamos ao clímax misericordioso do Neon-Armorialismo. O "Auto da compadecida" enfrentando não apenas as guitarras elétricas da arqueologia tropicalista, mas também desmascarando todas as terras em transe e bandidos da luz vermelha. Em nome do Pai e do Brasil Profundo. Muito além e aquém dos "dogmas mentais" e metaleiros. Muito pelo contrário: transpondo e transbordando as teorias da complexidade. Pós-Freud. Pós-Marx. Pós-Morin. Ariano par-lui-même. Das comédias singelas sobre esperteza popular ao refinamento do balé Stagium. Da rabeca do mestre Salu ao "Grial" da bailarina Maria Paula Costa Rêgo. Da capa dos folhetos de cordel às gravuras de Samico e às iluminuras do próprio Ariano. Dos folguedos populares às transfigurações intersemióticas (argh!) de Antônio Carlos Nóbrega. E muitos outros Suassunas por afinidades eletivas. Ariano-unanimidade. Dramaturgo. Poeta. Artista plástico. Professor-ensaísta de estética. Músico. Personagem televisivo no Canto de Ariano (Ne/Tv 1ª edição, Globo-Recife-Pernambuco). Palestrante. Criador de aula-espetáculo. Ficcionista. Contador de "causos". Inventor de sertões... A.S. já defendeu a monarquia. Hoje é do PSB do dr. Arraes. Católico praticante. Nunca foi nem será caótico.
Ao leitor-internauta, sem hipocrisia nem hipocondria, complementar a resposta ouvindo a música de Fred 04, "O Ariano e o africano".
Jomard: Por toda a cidade transpira-se a "efervescência" referida na pergunta. E talvez muito mais. Um trabalho de resistência cultural relembrando o que foi experimentado nos tempos do Movimento de Cultura Popular, do Movimento de Educação de Base (MebB), do Serviço de Extensão Cultural (SEC/UFPE), quando a perspectiva antropológica estava inserida, organicamente, nos projetos de educação conscientizadora. Movimentos de participação dos artistas e intelectuais nos processos de transformação via reformas de base e planejamento desenvolvimentista. Decantados anos dourados que se fulminaram como anos de chumbo: inícios da década 60 do século passado, depois de todas as tensões do golpe dentro do golpe, 67/69, pelo AI-5, até a reconquista da redemocratização. Interminável. Quase insuportável. Além dos cinismos e nepotismos. Mesmo que o grupo Mombojó irônica e autocriticamente declare que convivemos com o "Nada de novo", a movimentação musical-performática vem revelando uma presença marcante na mídia nacional/internacional. Impossível fazer o mapeamento de toda essa exuberância criativa. Misturando como sempre e tardiamente, já que tudo se manifesta como capitalismo tardio, misturando o S com o X das MiXturações, numa postura tão cheia de ambigüidades como a de tiete-deseducador, escutamos um caleidoscópio de ritmos alucinantes. Provocativos. Experimentais na medida de todas as "aparelhagens" e transações tecnomercadológicas. Depois dos tropicalismos -alguns ainda desacordando em berços esplêndidos- a constelação mangue beat retrabalha com todas as fusões da arte/ecologia/tecnologia de ponta/guerrilha cultural/sistema de moda além dos modismos/ dissertações acadêmicas dos interiores ao exterior do Brasil, tão longe perto de nós. O pensamento visionário de Oswald de Andrade: arte/poesia/exportação. Além e aquém do matriarcado de Pindorama. O marco zero pluralíssimo da constelação mangue beat vem sendo reinventado pelos Devotos (ex-do ódio), pelo Cordel do Fogo Encantando, pelo Mundo Livre s/a, Lenine, Lula Queiroga, Siba, Silvério Pessoa, Armando Lobo, pelos desaparecidos Textículos de Mary, pela garotada da Comuna Experimental que não teme a Música Popular Brasileira sem viseiras nem fronteiras. As palavras de ordem e desordem amorosa jogam com as pulsações do real no imaginário: cidadania, justiça social, políticas públicas, orçamentos participativos, violências, mercados, pós-utopias, pragmatismos, éticas do desejo na psicanálise selvagem... Todos inseridos e extrapolando o Cordel Virtual de Alceu Valença. Onipresença da Nação Zumbi. Recordando "Asas da América" de Carlos Fernando. Cadê Flaviola e Numa Ciro?
Jomard: Chega de saudades autofágicas e/ou antropofágicas. De poeta, músico, técnico de futebol, marxumbandista, malandro de todas as dialéticas, todos nós, brasileiros, temos um pouco, um grito rouco na garganta, um palpite infeliz, meio bossa nova, meio rock’n’roll... Atavismos e contemporaneidades. Arqueologias da malandragem. Violentações. Assim como o renascimento do cinema nacional não engoliu o teatro; nem as instalações/instaurações engoliram as artes plásticas; nem as arquiteturas pós-modernas devoraram nosso barrococó de pobres e novos ricos; nem a alta costura engoliu as altas culturas; nem a internet inviabilizou as mais ridículas cartas de amor, Pessoa para personas. Azougues da poesia brasileira permanecem ilustrando, massageando, inquietando e problematizando nossas cotidianas, cruéis, rarefeitas, desamparadas e sublimes poeticidades.
Jomard: Era um rapaz que ainda não amava Os Beatles, mas ouvia e decantava Caymmi, Noel Rosa, Ataulfo Alves etc., em ritmo de bossa nova. João Gilberto nos entusiasmava, sendo até ouvido em radiolas de ficha na zona livre das bebedeiras. Líamos Clarice, Graciliano, Drummond, Guimarães Rosa. Nesse contexto efervescente, mas discretíssimo, integramos a equipe inicial do Sistema Paulo Freire de Educação de Adultos. Transformando a rotina das aulas expositivas em Círculos de Cultura. Discutindo as interrelações da natureza e das criações humanas. Introduzindo, mesmo sem saber, conceitos antropológicos na alfabetização de jovens e adultos. Sociedades em trânsito. Nossa "época" não foi inexatamente a da Revolução Francesa, mas a do Furacão Sobre Cuba. Todos os engajamentos sartreanos entre católicos e marxistas responsáveis. Existencialismo que se pretendia Radical (ER). Paulo Freire teve a generosidade de ler em primeira mão nosso prematuro ensaio: "Contradições do homem brasileiro". Que foi retirado das livrarias pelo regime militar. Mais uma vez: não estamos falando do terrorismo na Revolução Francesa. Com Paulo Freire apreendemos, além da visceral generosidade, a trabalhar em e com grupos; a dialogar com as diferenças; a reinventar per-ma-nen-te-men-te a criticidade como projeto de amorosidade. Com o regime militar de 1964 ficamos órfãos de tudo. Até mesmo das Luzes e das sombras. Hoje sobrevivemos entre a Caetanave (isso ainda resiste?) e a constelação mangue beat. Que sobrevivência é esta? O buraco somos nós.
Jomard: Conheci Glauber antes de me identificar com Paulo Freire, mesmo no Recife. Finais dos anos 50, Glauber Rocha percorria de ônibus o Nordeste não apenas para verificar paisagens, mas para contactar pessoas. Soube que (eu) estava fazendo uma palestra sobre cinema, no Círculo Católico para o cine-clube Vigilanti Cura, nome de encíclica papal. Foi assim que nos encontramos no Recife, ele imediatamente, ou quase, me convidando para passar umas férias na pensão de dona Lúcia, de quem conservo uma amizade apaixonante. Em Salvador assisti às filmagens de "Pátio". Convivemos pelas manhãs e noites baianas: Glauber, Helena Ignez, Joca (João Carlos Teixeira Gomes), Fernando da Rocha Peres, todos da geração Mapa, revista de cultura que publicou um texto onde começava a falar em poeticidade, como Joca ainda hoje relembra. "Pátio" (1959) significou um belo enigma para mim. Alumbramento. Mas que não entendia muito bem, nem me lembro do que falava para Glauber. Algum tempo depois tive a coragem de convidá-lo para fazer uma "apresentação", cuja leitura recomendo a fim de comprovarmos, além da timidez talvez narcísica, os lances de Glauber Rocha de saber investir no valor da amizade. Toda vez que, em férias, ia ao Rio nos encontrávamos. Num desses papos, no Leme, foi Glauber quem me anunciou a vinda dos baianos com uma "revolução musical". Fiquei atento. Atento para depois praticar outros Atentados. Para o livro "Cartas ao mundo", por solicitação de dona Lúcia, enviei uma entre outras que ele me dirigira. Assim, de nosso recanto provinciano, experimentei ser uma carta ao mundo. A morte de Glauber, sem compadecimentos nem megalomanias, pode ainda ser o significante de nosso coletivo e desesperado suicídio. Sem querer apelar para qualquer "cinema de lágrimas". Joca tem razão: Glauber permanece como "esse vulcão". Desestruturando gramáticas da vida e da produção audiovisual.
Jomard: No desejante exercício lúdico-lúcido de jogar com imagens e escrituras, o que mais nos estimulou (desde que tudo sempre consistiu em tentativa de criação grupal) foram as possibilidades de intervir enquanto crítica da cultura: tanto nordestinada quanto exultante do nacional-popular. Mitos e contra-mitos de nossas famílias aristocráticas pela semiótica das bastardias. Dos "Jogos frutais frugais" fomos aos "Jogos labiais libidinais", quando o ator-professor-encenador Antonio Cadengue entrevistava personalidades de nossa mundanidade culturalista, durante uma exposição do artista plástico Sérgio Lemos. Entrevistas intercaladas com a projeção dos primeiros Jogos, os frutais frugais, e com o lançamento de nosso livro-álbum (de S.L. e JMB), "Inventário de um feudalismo cultural", que antes foi um coletivo manifesto tropicalista e também filme S-8. Hoje encaramos essas recorrências como sintomas de quase compulsão ao exercitar a crítica cultural diante de nossos monstros Sangrados.
Jomard: Os caminhos e descaminhos do vídeo digital pertencem às constelações da arte contemporânea. Experimentos de linguagem, manipulações intersemióticas, memórias replicantes, devires e devenires em busca de outras compensações, sublimações, liberações diante de nossos fracassos políticos, universOtários, pactos partidários, violências, impunidades e raros impactos de transformação ou substantiva democratização. Nada é divino-maravilhoso. E não temos tempo de temer a sorte. Porque todas as coisas estão cheias de deuses. *** Leia o prefácio de Glauber Rocha a "Do modernismo à bossa nova": |