CINEMA
O viajante Bernardo Vorobow, por Walter Salles
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Deixo a crítica aos leitores. Prefiro falar de Jomard Muniz de Britto, pernambucano de muitas artes escondidas atrás de uma fascinante timidez. Fascinante porque, se recolhendo continuamente, Jomard sempre deixa prever um bote; e quando larga é golpe certo, no ponto vital. O que me fez amigo de Jomard foi nossa comum paixão pelo cinema, isto já faz dez anos, na decente Recife. Depois, nosso desencontro de temperamentos criou compensações: Jomard veio escrever crítica de poesia numa revista literária que eu dirigia em Salvador, depois veio mesmo para a Bahia, onde agiu com brilhantismo e polêmica nas rodas jovens das artes e letras locais. E assim foi, se revelando palmo a palmo: o crítico de cinema era professor de filosofia, o teórico de poesia era entendido de teatro, o esteta rigoroso era jornalista, o jornalista era professor e o professor sambista, outra vez no teatro! Fascinante timidez evoluindo por meandros táticos, aqui e ali exercendo sua função precisa, conseqüente.

Outra coisa que me fascina em Jomard é sua "desaristocratização". É muito difícil, ainda hoje, encontrar tipos diplomados em filosofia & etc. que não sejam portadores de preconceitos e arrogâncias contra a chamada plebe ignara. Jomard, pelo contrário, é homem despido de princípios sagrados. Sua erudição é diluída no seu grande interesse pela vida, sobretudo pela vida que o cerca, a que vive nos inesperados caminhos de hoje. É assim que o conhecedor profundo de poesia não se inibe diante da bossa e tem o relaxamento de escrever um ensaio que fala, sem pudores, do modernismo e da bossa nova. Isto, há dez anos atrás, causaria escândalos.

O que interessa no estudo do professor pernambucano que se dá ao luxo de cruzar horas de sertão para ir dar uma aulinha de estética em João Pessoa? No seu primeiro ensaio, "Contradições do homem brasileiro", buscou nos textos de nossa prosa & poesia momentos significativos para uma compreensão cultural deste novo homem em processo. Agora, aprofundando este tema, Jomard procura estabelecer uma verdadeira interpretação deste espírito através da evolução & contradição do canto: desde o canto de 22 até o canto de hoje. Dois cantos revolucionários, o primeiro arrebentando com o academismo e o obscurantismo, o de hoje enfrentando o terrorismo. Em 22 cantavam os dois Andrades, hoje cantam Nara e Betânia. Contra os quatro, em todas as épocas, a censura e a polêmica, a recusa e o aplauso. São as vozes de uma crise, são os tumores líricos que explodem nos tempos de guerra.

Meu poeta e irmão Vinicius de Moraes, demitido de ser Valéry para ser o maior poeta popular do marasfalto, é o pai desta revolução contra as musas sofisticadas que pularam por séculos de uma a outra matriz européia e vieram sempre, anglo-germânicas, dar um sotaquezinho em nossa poesia. No samba, do outro lado, havia uma comercializante mistura com bolero e outros foxes. Vinícius rompeu as vestes das musas, deixou ver ventres mulatos e varreu o tango-bolero, carregando de poesia as vassouras de Tom, Carlinhos, Baden e outros. E se redescobriu autênticos poetas do tempo, Zé Kéti e João do Vale, nasceu Edu Lobo e da Bahia vieram Caetano e Gilberto Gil, Tom Zé e Betânia. Quem são, com mais Sérgio Ricardo e Narinha, Geraldo Vandré e Elis Regina, os poetas vivos de hoje? E mesmo ontem, não era tão grande Noel?

O grande benefício que Jomard nos presta é ombrear um poeta a outro, sem que a um core o ombrear-se ao outro. Outra vantagem de se ler com urgência este ensaio é a simplicidade de Jomard: sua pena é leve, pintor sem receios, sem necessidades de afirmar cultura ou fazer pregações de falso apóstolo. Vai com sabedoria e agudeza. Sua intenção é dar ao leitor conhecimento de causa, isto é, de poesia e de samba.

(Ed. Civilização Brasileira, Rio de Janeiro, 1966).

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Carlos Adriano
É cineasta e doutorando em estética do audiovisual na USP. Realizou, entre outros, "Remanescências" (coleção The New York Public Library), "A Voz e O Vazio: A Vez de Vassourinha" (melhor curta documentário Chicago Film Festival), "Militância" e "um Caffé com o Miécio" (exibidos no MoMA de Nova York). O Festival de Locarno apresentou em 2003 uma mostra de todos os seus filmes.

 
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