CINEMA
O viajante Bernardo Vorobow, por Walter Salles
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em algum lugar entre
boca e estômago perdeu-se
o sono a ejeção
de material inexistente
dá-se de forma
dificultosa o pão
conhece
a convulsão do seu
destino
os elementos da equação
muito insuficientes
pela manhã para determinar
o desconhecido prefiro dormir
com alguém no cômodo
meu lençol vazio como
um filme recomenda-se
construir orações
com sujeito oculto
a seus contemporâneos
em meio à minha agitação
estamos todos calmos
pensando que Björk e
Matthew Barney realmente
amam-se
curando a faca
que abriu o corte
e no hino à possibilidade
escrevo “dois dados querem
sempre ocupar o
mesmo lugar no espaço”
sabendo que contexto é o risco
que a alegria corre e aceita
quando vejo Jean-Paul
Belmondo cruzando a Augusta
contendo mãos e pernas
só eu paro de respirar
e é
um único
segundo

Os poemas mais recentes de Ricardo Domeneck (que podem ler lidos no site cujo link vai ao final deste artigo) já mostram uma radicalização desse procedimento. Como ele mesmo diz, sua procura é pela simultaneidade. “Cada verso tem um significado em si e acaba sendo modificado pelo seguinte. O poema é a relação disso”, diz. É uma aposta na condição fragmentada e dispersa do homem moderno. Ou ainda, como ele escreve num dos poemas da série “Poema começando Quando”, o fragmentário participa ativamente do conhecimento de si e do mundo em que vivemos:

Intercalar uma série de
interrupções para melhor
compreender o calendário
dos meus dias
.

*

Antologia pessoal

de “Carta aos anfíbios”

Eu digo sim até dizer não
Os materiais, a lição: cinco variações
A pele medrosa cicatriza-se: e recomeça
Barro: o abraço / primordial já / previa o anfíbio
Breviário de secreções
Como um caule / exausto / sob copa teme- / rosa
Na contingência de suas mãos
(sem título) “onde está o quieto”
(sem título) “acordar manco”
Seis canções óbvias

*

Poemas de Ricardo Domeneck

Linear

De boca em boca
o mundo mostra
os dentes e a garganta
infecciona-se em resposta.
Atento ao ambiente como
o ambiente ignora a
minha vontade.
Mesmo equivalências
geram colisões e o eixo
do sal denuncia
o doce na boca.
“.”
O herói contra
a corrente, o herói
à vela.
Não há gran-finales
suficientes para todos,
a chuva muitas vezes
cai antes
da hora,
quer-se os créditos
e eles não sobem. Beethoven
ludibriou-nos.
É claro que em Who´s
Afraid of Virginia Woolf?

Richard Burton, não,
George, recorre ao
útero vazio
de Elizabeth Taylor,
não,
Martha, para a
ofensa última.
A escala da
nutrição não
recomeça a cada
meia-noite, segue
a continuidade
do esôfago, do
termômetro, da
maré, da
infecção, da
ascensão e queda
dos efeitos
da cocaína, da cafeína.
Filiação da fome e
as ilusões da higiene.


No centro (da aranha) a teia espera

O próprio
sangue como
maquiagem.
A não-disciplina do grito,
como é elegante
esta salina. Ou
é excluído. Sim, a própria
voz e o próprio pulso
como efeitos
especiais.
Seja explícito para pertencer
à realidade
do outro, mas o
mal-estar do ex,
o mal-
-estar do outro.
Girolamo Verwöhnaroma.
Interesse das partes móveis e
das partes necessárias
para mantê-las em suas
órbitas ou posições.
Ou é exclusivo.
Seu prazer quase
erótico em nomes
próprios o último
refúgio do século
XIX.
Pode-se diante da
árvore identificar-se
com seu crescimento e
doer-SE em cada
um
dos seus sulcos
ou,
desistindo de animar
tudo
ao seu redor,
assumir seu posto
entre os elementos.
Ao lado da árvore.
Mas expedimos a carteira
de identidade, o registro
geral das coisas.
Ou é excludente, "a person
pitying/ itself having
identified
with a / storm", por favor,
roube-me,
assalte-me como se
você mo devesse.


Proposições contra a música-ambiente

Narinas abertas ao
cheiro do ambiente, mas
eu não me esqueci
da busca do suficiente;
Christopher Hahn em minha
cama com dois
pés. 19 de fevereiro
de 2005. Veja
bem, de certa
forma, Bonnie & Clyde,
mas não
Lampião & Maria Bonita.
Proximidade, distância,
questão de desejo.
Exponha o imposto.
Relação de pessoa e núcleo, pessoa
e fonte.
A
propósito
é
ex-
tensão.
Perdeu-se. Mas se necessário,
retornar ao início e não
à última
conexão, ela soube que
jamais atingiria o mesmo
de novo. Entre. Nunca
o mesmo
duas vezes.
Condição e conjuntura.
Alhures, nowhere & ici.
Quando
entoou a voz para
o vocativo, interrompeu-se
logo
após o oh!
à procura de um
nome,
o próprio ou algo
em comum
com outro. Aqui
onde?
Expressar o que à
interpretação do
outro, que sou
eu, e todos
em comum.


link-se

Poesia Presente: Tarso de Melo, por Heitor Ferraz - http://p.php.uol.com.br/tropico/html/textos/2567,1.shl

Poesia Presente: Claudia Roquette-Pinto, por Heitor Ferraz - http://p.php.uol.com.br/tropico/html/textos/2586,1.shl

Leia mais poemas de Ricardo Domeneck - http://www.youthandpassion.de/hilda/index.html

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Heitor Ferraz
É poeta, autor de "Coisas imediatas" (Coleção Guizos, Ed. 7 Letras), que reúne toda a sua poesia até agora.

 
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