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CENA
Veredas da imagem ![]() Cena de "Splendid's", peça de Jean Genet em montagem do grupo Motus
Divulgação O curador Luca Scarlini, que participa da Mostra Mediterrâneo, em SP, faz um panorama do teatro italiano hoje Máquina trípode montada sobre os alicerces da imagem (vídeo, cinema e instalação), da tradicional palavra e do carisma do ator, o teatro italiano contemporâneo tem avançado com ritmo por todo o território europeu desde o advento do terceiro milênio, penetrando -com seus novos dramaturgos e companhias estáveis firmadas nos anos 1990- até mesmo a exclusivista cena teatral inglesa. Entre os eventos que acolhe em sua maratona de agosto de 2005, a “Mostra Sesc de Artes – Mediterrâneo” tornou visível ao menos a ponta desse iceberg cultural e peninsular, que já atravessou o Atlântico e contemplou as praias de Nova York. As propostas “Como um espelho – videoteatro na Itália 2000-2005”, um ciclo de vídeos, e “Olhares provisórios sobre a dramaturgia contemporânea italiana”, série de leituras, partiram de um jovem ator radicado no Brasil, Alvise Camozzi, formado na famosa escola de teatro Paolo Grassi, de Milão. Com o Sesc-SP, Camozzi convidou um dos mais brilhantes e prolíficos teóricos do teatro da atualidade, Luca Scarlini, 39 anos, para apresentar duas palestras e curar mostra de videoteatro no Sesc Pinheiros, em São Paulo, entre 23 e 27 de agosto. Além de amostras em vídeo de cinco companhias da região da Emilia Romagna, o Sesc Pinheiros exibe em seus espaços a video-instalação “Os olhos da ‘Viagem ao fim da noite’” (referência ao livro de Céline), da Socìetas Rafaelle Sanzio, de Cesena, em colaboração com os videomakers Cristiano Carloni e Stefano Franceschetti. No espaço do teatro acontecem leituras dramáticas de cinco autores italianos jamais encenados no Brasil, por companhias paulistas convidadas por Scarlini. Há quase duas décadas Scarlini visita o Brasil como professor-palestrante de cursos universitários. É o atual diretor do festival italiano de teatro e vídeo TTV, da cidade de Riccione. Tem publicados dezenas de livros na Europa -sobretudo ensaística e traduções de teatro. Trabalha entre Itália e Inglaterra e colabora diretamente na dramaturgia de alguns dos autores e grupos teatrais citados na entrevista abaixo.
Antes de nos situar sobre o papel da dramaturgia contemporânea italiana no mundo, fale-nos do trabalho de um dos grupos melhor representados na mostra de videoteatro que tem sua curadoria, a Companhia Rafaelle Sanzio. Luca Scarlini - A idéia da “Tragedia endogonidia”, um dos mais ambiciosos projetos da Socìetas Raffaello Sanzio, é trabalhar contemporaneamente o conceito de tragédia. Há um núcleo dramatúrgico inicial que depois é desenvolvido por toda a companhia, à maneira de uma obra em progresso. O argumento inicial é de autoria dos irmãos Claudia e Romeo Castelucci, e passa-se inteiramente no interior de um corpo humano, como se assistíssemos aos eventos da lâmina de um microscópio. Os Castellucci são uma família à antiga, como um “ensemble” cômico do Oitocentos italiano, pois são dez filhos que trabalham juntos em Cesena (cidade vizinha a Bolonha), na Emilia Romagna. Desde 2001, a “Endogonidia” é encenada em cidades européias, transformando-se completamente segundo o lugar visitado. Em Paris, Bergamo, Cesena, Roma e tantas outras cidades, o que se viu foi, a cada vez, um espetáculo diferente. O grupo sempre trabalhou com o cinema e há alguns anos foi premiado no Festival de Cinema de Locarno com o curta-metragem “Brentano”. Depois de encerrada a turnê da “Tragedia endogonidia”, a idéia do grupo é fazer desse projeto um longa-metragem em bitola larga. Os videomakers Cristiano Carloni e Stefano Franceschetti, que antes faziam um desenho animado de arte muito especial, extremamente lento, acompanharam todo o percurso da “Tragedia” e realizaram um trabalho muito particular, com uma ótica absolutamente original. Todos os grupos de teatro que selecionamos para esta mostra são importantes internacionalmente e produzem trabalhos em várias países da Europa. Alguns começaram a trabalhar nos anos 1980, outros nos 1990. Todos, no entanto, dirigem sua linguagem a uma confluência do teatro com o cinema, ou até para o próprio cinema. Tanto que se reuniram e fundaram uma associação chamada LUS, destinada a produzir filmes que serão exibidos não apenas em circuitos de arte ou em festivais, mas também em cinemas comerciais. A idéia é constituir uma espécie de Sundance Festival italiano, de produções independentes, pois o Sundance norte-americano é feito sobretudo de autores de teatro que decidiram fazer filmes... Enfim, todo esse percurso é uma espécie de narrativa de um teatro que caminha, de várias maneiras, para o cinema.
Scarlini - Não. Eu diria que se vai mais em direção da performance e das artes visuais. Mas é certo, sim, que se verifica um renascimento da ópera no mundo. A companhia Rafaelle Sanzio, por exemplo, fez um espetáculo próximo dessa linguagem, o “Combattimento”, trabalho baseado na ópera “Tratto da combattimento di Tancredo i Clorinda”, de Claudio Monteverdi, porém reescrita pelo compositor-residente do grupo, Scott Gibbons. A obra foi apresentada na Bienal de Arte de Veneza há alguns anos. Gibbons é famoso por sua música tecno de clubes, mas também faz música erudita contemporânea. Assim, o espetáculo de que falo era metade Monteverdi e metade nova escritura, com as referências da tecnomusic. A idéia de fundo é a de um combate dentro do sangue, pois o espetáculo é visto como se fosse através de um microscópio.
Scarlini - Sim, lembra também esse filme, que aliás na Itália virou até desenho animado. Quanto à música, há ainda o grupo Fanny & Alexander e o seu “Réquiem”, que não é bem uma ópera, mas uma nova forma de teatro musical, de um compositor muito importante de Roma, o mestre da música eletrônica Luigi Cecarelli. Eles utilizaram uma série de trabalhos apresentados antes por Cecarelli no Festival de Ravena, dirigido pelo maestro Ricardo Mutti. O “Réquiem” baseava-se numa peça de Gian Battista Marino intitulada “Amore & Psyche”. Já “Villa Venus”, desse mesmo grupo -um trecho em vídeo está sendo exibido na mostra do Sesc Pinheiros- foi baseado na famosa novela de Vladimir Nabokov, “Ada ou Ardor”, sobre a qual o grupo trabalhou por muitos anos.
Scarlini - Há muita diversidade, mas podemos apontar características em comum. Os autores que trouxemos para a série de leituras de São Paulo estão entre os 25 e os 70 anos. Renato Gabrielli e Spiro Scimone têm por volta de 40, Fausto Paradivino, 28, Letizia Russo, 25, e Antonio Tarantino tem uns 70, mas este já era pintor muito famoso e começou a escrever tarde. Todos surgiram nos anos 90 e são bastante encenados também fora do país, até mesmo na Inglaterra, que não costuma importar teatrólogos. Tarantino já foi traduzido para o alemão. Além deles, pode-se citar Enzo Moscato e Annibale Ruccello, napolitanos, Franco Scaldati, palermitano... Tanto Tarantino como Letizia Russo são autores de uma “arte visual", no sentido de uma escritura que se confronta também com a imagem, enquanto Paradivino é autor próximo do “teatro inglês”, com uma carpintaria de muitos diálogos, como um filme, e pode-se dizer que é um autor “pouco italiano”. Letizia Russo encontra-se neste momento em Lisboa, convidada para uma produção do Teatro Nacional Dona Maria. Gabrielli também é um caso particular, pois trabalha agora em Edimburgo (Escócia), escrevendo tanto em inglês como em italiano: suas peças multilíngues são encenadas por uma companhia muito importante de Glasgow, a Suspect Culture.
Scarlini - Também pela razão básica de que muitos desses autores estudaram ou construíram parte de suas carreiras fora da Itália. E há, ainda, aqueles cujo propósito é levar sua cultura original para um confronto, por exemplo Letizia Russo e Fausto Paradivino, que foram estudar no Royal Court Theatre, de Londres, enquanto Gabrielli foi para Glasgow etc. Há sempre uma tendência de confrontar-se com os sistemas exteriores.
Scarlini - Sim, Paradivino escreveu “Gênova 01” sob encomenda do Royal Court Theatre (encenada em 2002), sobre a pavorosa tortura de centenas de manifestantes que protestavam durante uma reunião do G8 na capital da Ligúria, torturas que desembocaram na morte do jovem Carlo Giuliani. Essa peça está recebendo uma leitura dramática em São Paulo. Por outro lado, eu diria que o conceito de “italiano” é sempre múltiplo. Veja, por exemplo, Spiro Scimone, que escreve em dialeto siciliano de Messina. Sua peça “A Festa”, também lida aqui em São Paulo, teve enorme sucesso em toda a Itália. A identidade italiana é múltipla e, ainda que se conte histórias bastante específicas, persegue-se sempre a idéia de uma Itália em relação com o mundo. A palavra mágica, que no Brasil ainda não é usada, embora na Itália esteja tão de moda, é “glocal”, quer dizer: um pouco global, um pouco local. Conta-se histórias que, apesar de falarem de uma pequena cidade, comunicam-se com o resto do mundo. Veja, por exemplo, o caso de “Stabat Mater”, de Antonio Tarantino, também lida em São Paulo. A peça, baseada em fatos reais, conta a história de uma moradora de rua de Turim, mas já foi representada na Espanha, Grécia, França e em outros países, sempre com grande sucesso.
Scarlini - Certamente. Mesmo os grupos de imagem tratam freqüentemente de temas políticos. A Companhia Rafaelle Sanzio encena fortes situações de confronto e nos anos 80 chegou a sofrer um corte de patrocínios, sob a acusação de extremismo, tanto nos temas como na forma.
Scarlini - Sim, é possível. Porém, depois do final dos anos 60 e para adiante a vanguarda teatral italiana sempre esteve muito ligada à presença da imagem, que sob certo aspecto vence a palavra. Depois, nos anos 80, a palavra retorna e surge uma maior quantidade de bons textos teatrais. Antes, porém, ou seja, entre 1973 e 1980, houve na Itália o chamado fenômeno do “teatro-imagem”, cujos modelos eram Bob Wilson e a arte performática. Posso citar a “body artist” Gina Pane como exemplo importante para essa vertente.
Scarlini - Certamente Pina Bausch foi importante para a Itália, porém um pouco depois da época que citei, já que ela nos visitou com seu “Café Mueller” no final dos anos 70, ao passo que Bob Wilson chega a Itália incrivelmente cedo, em 1970. Apenas um ano antes, ele havia ficado famoso em Nova York, com a belíssima montagem “Deafman’s Glance”. Bob fazia, então, trabalhos de longa duração e encenou em Roma uma peça com nove horas de duração, com atores italianos...
Scarlini - Na Itália, a dramaturgia de texto explode nos anos 80, com muitos autores de sucesso. Já a geração mais recente promove uma mescla desse “teatro da palavra” com a “arte visual”, ou seja com a performance e tudo o mais. Eu, por exemplo, trabalho com Letizia Russo e sei perfeitamente que, para ela, as referências mais importantes vêm de filmes, e não de textos. Seu “Binario Morto” (“Fim de Linha”), texto que está sendo lido esta semana em São Paulo, tem uma estética de mangá, coisa aparentemente muito estranha para o contexto italiano.
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