CINEMA
O viajante Bernardo Vorobow, por Walter Salles
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Scarlini - Sim, há um grande repertório de referências cinematográficas mundiais. Veja, por exemplo, Fausto Paradivino, que estreou agora como diretor de cinema, com o longa-metragem “Texas”, a ser exibido em São Paulo em dezembro próximo, numa mostra de cinema organizada pelo Instituto Italiano de Cultura. Apesar desse título tão norte-americano, o filme é sobre a cidade do Piemonte onde Fausto nasceu, Nuove Ligure, localizada numa planície habitada, mas muito triste, que o filme se dedica a contemplar. Também será exibido no Festival de Cinema de Veneza, em setembro, e já está sendo comercializado para várias distribuidoras da Europa.


A Itália é um país de fortes tradições histriônicas. Para os brasileiros, foram referências culturais marcantes os nomes de De Sica, Zavattini, De Filippo, Totò e outros comediógrafos. Mais recentemente Dario Fo...

Scarlini - Itália e Brasil se assemelham em muitos pontos. Hoje vi na TV, por exemplo, esse “Cabaret Palocci”, uma coisa bastante ítalo-brasileira. Na Itália pós-Berlusconi tornou-se muito difícil fazer comédia e sátira, pois já é demasiado estranho ter um primeiro-ministro que está sempre fazendo piadinhas no vídeo. Além de tudo, Berlusconi tem essa tragédia de ser calvo. Assim, a cada cinco meses faz um transplante de cabelos, fato que ocupa, dia após dia, o tempo das TVs, transformando-se numa espécie de cabaré. Portanto, é muito difícil fazer sátira na Itália, porque Berlusconi faz rir o tempo todo.


Em tempos recentes houve o papa-teatrólogo, João Paulo II. E o cardeal Ratzinger, o papa Bento XVI, ele seria bom para o teatro?

Scarlini - Sim, João Paulo escreveu “A loja do ourives”, uma peça horrível. Já Bento XVI não fez nada com o teatro mas é muito bom para o seu próprio teatro, que ele pratica muito. Você não o viu, nesta manhã de domingo, na televisão? “Mamma mia”, ele tinha ouro em toda parte! Até me lembrou a Gloria Gaynor, com aquele excesso de glamour.


Então não se pratica mais a sátira, a comédia rasgada, na Itália?

Scarlini - Renato Gabrielli faz rir bastante... A comédia, na Itália, foi muitíssimo importante até final dos anos 70 -o diretor de cinema Dino Risi é, para mim, um gênio-, mas depois torna-se horrorosa, uma chanchada baixa. Todos os escritores importantes da Itália, como Goffredo Parisi e tantos outros, trabalharam também como roteiristas de cinema.


Por que há tantos autores teatrais nascidos em Nápoles?

Scarlini - Nápoles foi, ao menos durante três séculos, a capital do teatro italiano, junto com Veneza. Goldoni, por exemplo, escrevia em dialeto veneziano e depois seus textos eram traduzidos para o italiano. Nápoles também forneceu muitos autores no 1700, possui uma tradição fortíssima.

De Filippo, por exemplo, é um napolitano filtrado pelo italiano. E há, ainda, um napolitano pouco conhecido no Brasil, mas que, para mim, é um dos maiores do Novecentos: Raffaele Viviano. Se alguém o conhece no Brasil é porque o compositor Cartola adaptou para o português uma canção napolitana, “Bamenella”, tristíssima. Nápoles é como o Rio de Janeiro, onde tudo funciona à volta da baía.


O Piccolo Teatro de Milão foi uma influência entre os brasileiros no século 20, com Giorgio Strehler, que trouxe várias vezes sua companhia a São Paulo e foi um dos modelos para o Teatro Popular do Sesi (SP), entre outros.

Scarlini - Bem... São grandes encenadores que não têm um interesse específico em dramaturgia italiana. No entanto, Strehler pediu uma vez um texto a Dino Buzatti -que aliás é um grande contista, mas não um grande autor de teatro-, chamado “Um caso clínico”, e, um pouco antes de morrer, há sete anos, encenou uma peça maravilhosa de Eduardo De Filippo, “La grande magia”. O herdeiro de Strehler no Piccolo Teatro, Luca Ronconi, também não tem grande interesse pela dramaturgia contemporânea e encena coisas muito “distantes”.


Esses grupos que figuram na mostra “Como um espelho”, curada pelo senhor, são companhias de teatro ou de videoarte?

Scarlini - São propriamente companhias de teatro, e fazer vídeos ou filmes é parte de seu trabalho.


Elas estão concentradas na região da Emilia Romagna e na área de influência de Bolonha. Por quê?

Scarlini - Porque, de um lado, a municipalidade e o Estado investem nesses grupos e nessa difusão cultural...


E por que não em Roma?

Scarlini - Há, aí, uma situação muito complicada. Existem muitos teatros que fazem puro entretenimento, e Roma é atualmente a capital italiana do music-hall. Há um teatro chamada India, que promove companhias com pesquisas muito interessantes, mas em Roma há, sobretudo, os chamados “narradores”, uma forte característica do teatro italiano contemporâneo.

Trata-se dos “one-show-men” que narram, sozinhos, contos inteiros, com um talento muito especial, como, por exemplo, Ascanio Celestini. Esse é um dos mais famosos narradores, quase um rock-star, sempre com mais de três mil pessoas na platéia. Os narradores tratam de fatos políticos e memórias sociais de uma forma brilhante e estão sempre ligados a temas e episódios populares.


Roberto Benigni também trabalha nessa vertente?

Scarlini - Benigni era um “narrador” nos anos 70, trabalhando com o diretor Giuseppe Bertolucci, irmão de Bernardo e filho do poeta Atillio Bertolucci. O que há de interessante agora na Itália é que essas três tendências estão se encontrando: o pessoal do videoteatro, os autores da palavra e os atores-narradores. Percursos que antes eram distintos começam a se entrecruzar.


O senhor nasceu em Florença, não?

Scarlini - Sim, mas me considero de fato um “giramundo”...


Um “globe-trotter”? E esteve várias vezes aqui no Brasil, ensinando...

Scarlini - Sim, sou sobretudo isso, um “globe-trotter”. No Brasil dei cursos de uma ou duas semanas na Universidade de São Paulo (e isto foi, já, há 17 anos), além da Universidade Estadual de Campinas, Federal do Rio de Janeiro e Fundação Armando Álvares Penteado. A última vez no Brasil foi no ano passado. Atualmente estou no National Theatre de Londres.


A dramaturgia inglesa ainda é muito vigorosa? Quais são os principais autores na atualidade?

Scarlini - Sim, ainda é forte. Não é uma temporada fantástica, como há dez anos, porém ainda é muito forte. Para mim, Martin Crimp é um dos melhores. Traduzi para o italiano vários textos dessa geração de Sarah Kane, que é muito representada na Europa.


Autores como Philip Ridley, Howard Barker...

Scarlini - Barker é um pouco mais velho, tem uns 60 anos e é considerado o maior dramaturgo inglês depois de Beckett. É uma espécie de poeta da violência.


Como um Francis Bacon dos palcos?

Scarlini - De fato, Bacon tinha grande admiração por suas peças. “Judita”, por exemplo, é uma peça maravilhosa baseada na personagem Judite de Holofernes.


E na França?

Scarlini - Do ponto de vista da francofonia há uma situação interessante. Assim como existe a lusofonia, composta das línguas faladas no Brasil, em Cabo Verde, na África etc., há essa francofonia composta de autores oriundos da Argélia, da África ou das Caraíbas. Entre os autores de língua francesa, há um autor de referência, Valère Novarina, nascido na Suíça, e que está publicado em português pela Companhia das Letras, com o livro “Antes da Palavra”. Ele é o teórico de uma dramaturgia onde a palavra é o único elemento, e que praticamente anula a cena. Parece-me que, no próximo ano, virá ao Brasil. É uma espécie de mestre de cerimônias da palavra e sempre encena ele mesmo os seus textos.


Por que o senhor saiu da Itália?

Scarlini - Porque é necessário me converter no “giramundo”, caso contrário não consigo entender o meu próprio país.


A vanguarda representada pelos vídeos que a mostra nos traz dá-nos, talvez, uma idéia de escritura teatral esgotada depois do marco Samuel Beckett.

Scarlini - Não creio, penso que este é um momento muito feliz para o teatro, porém é preciso buscar as melhores coisas. Um dos mais interessantes países no momento é a Polônia, onde os autores erigem narrativas contemporâneas absolutamente não-tradicionais. Em Vroclaw, por exemplo, acontece anualmente, em outubro, o Festival Dialogue, que é realmente notável.


Grotowski ainda trabalha em Pontedera, na Itália. Ele ainda é uma grande influência?

Scarlini - Eu diria uma influência limitada. Era muito forte nos anos 70, quando significava uma alternativa para Bob Wilson.


Por que se diluiu?

Scarlini - Porque quis criar, afinal, uma espécie de grupo de ascetas, que funcionou bem por certo período, mas depois...


Seu próximo livro será publicado na Inglaterra ou na Itália?

Scarlini - Na Itália. Trata-se de um projeto bastante delicado, chamado “O medo preferido”. Fala da manipulação da “fobia muçulmana”, ou seja, do medo do universo islâmico e da cultura moura, desde o Renascimento até os dias atuais, e da representação do Islã na Itália como instrumento político.


Os venezianos são mestres nisso, não?

Scarlini - Sim, porém ainda mais os artistas e autores de Livorno.


Há o “Otelo”, apesar de ser Shakespeare...

Scarlini - Sim, mas antes de ser de Shakespeare, a história do mouro de Veneza foi escrita pelo italiano Giraldi Scinzio, cujo “Hecatomiti” (“Cem contos”), obra que inclui a história “O mouro de Veneza”, já foi traduzido para o português. Naturalmente, Shakespeare é melhor, mas Scinzio é muito divertido.

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A programação

Dia 23, 19h: conversa sobre o vídeo-teatro com Luca Scarlini

Dia 23, 20h: Leitura: "A festa", de Spiro Scimone, com Os Fofos Encenam, direção de Marcelo Andrade, tradução Jorge Silva Mello.

Dia 24, 19h: conversa sobre a dramaturgia contemporânea italiana com Luca Scarlini.

Dia 24, 20h: "Stabat Mater", de Antonio Tarantino, com Juliana Pikel, direção de Alvise Camozzi, tradução Alvise Camozzi.

Dia 25, 20h: "Cartas à noiva", de Renato Gabrielli, com Manifatura Suspeita, direção de Mauricio Paroni De Castro, tradução Mauricio Paroni.

Dia 26, 20h: "Binario morto", de Letizia Russo, com Cia. Elevador de Teatro Panorâmico - Ademir Emboava, Carolina Fabri, Gabriel Miziara, Heloísa Cintra, Juliana Pinho, Marina Vieira, Pedro Hadad, Rodrigo Spina, Thiago Fidanza, Tathiana Bott. Direção de Marcelo Lazzaratto, tradução Pedro Marquez.

No Sesc Pinheiros: r. Paes Leme, 195 - tel. 011 3095-9400


link-se

Mostra Sesc de Artes Mediterrâneo - http://www.sescsp.com.br/sesc/mediterraneo/?CFID=4044660&CFTOKEN=34313172

Site Opera Prima (com a programação da mostra italiana) - www.operaprima.art.br/teatroitaliano.html

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Alvaro Machado
É jornalista, autor de "A Sabedoria dos Animais" (ed. Ground), tradutor de “A Linguagem dos Pássaros” (ed. Attar) e organizador de "Abbas Kiarostami", "Aleksandr Sokúrov" e "Amos Gitai - Percursos" (ed. Cosac & Naify), entre outros títulos.

 
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