CINEMA
O viajante Bernardo Vorobow, por Walter Salles
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Depois, largou o jornal e fez mestrado em teoria da literatura, na PUC do Rio Grande do Sul, sobre a poesia de Murilo Mendes (dissertação que foi premiada, em 2004, pela Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Letras e Lingüística, como o melhor trabalho de mestrado em estudos literários dos quatro anos anteriores). Em 2001, saiu de Porto Alegre e começou seu doutorado na Unicamp, estudando desta vez “Vita Nova”, de Dante Alighieri -tese cuja defesa já está prevista para junho deste ano.

Quando ele e Veronica chegaram em São Paulo, não conheciam quase ninguém por aqui. Passavam horas estudando o mapa da cidade e descobrindo novos bairros. “Como somos, os dois, andarilhos convictos, ficamos às vezes caminhando em ziguezague por um bairro durante quatro, cinco horas, tentando conhecer cada rua, cada prédio (acho incrível que os prédios mais bonitos de São Paulo, feito nos anos 40 e 50, estejam entre os mais desvalorizados e uns monstrengos arquitetônicos, porque novos, façam tanto sucesso)”. No momento, conta ele, o casal está desvendando os labirintos da Aclimação. “O genial de São Paulo é que, mesmo depois de cinco anos aqui, sempre descobrimos coisas novas.”

A cidade também já entrou definitivamente na sua poesia, não só com sua arquitetura “de sigilos -de segredos-/ desdobrados”, como ele diz em “Relâmpago” (poema inédito em livro), mas com sua violência, sentida na pele e registrada com intensidade lírica, como se pode ler no belo poema “Jogo”:

depois do primeiro chute
é fácil alguém pergunta
pra que tanta violência
aos poucos vai até
serenando como se
entranhasse a contragosto
a lâmina do sono
suja do próprio sangue
do sangue do outro
aos poucos vai até
afogando no sono
que desce pela garganta
vem dos ouvidos
só pensa
proteger os olhos
proteger a nuca
proteger a têmpora
parece que sorri
à espera do último
que não vem
à espera do próximo
é fácil é só
esquecer
que aquela é
a sua
(só) a sua cabeça

*

UMA ENTREVISTA COM EDUARDO STERZI:
“Não se deve impor limites temáticos à poesia”

Em seu primeiro livro, o título já é uma provocação: “Prosa”. Você acha que existe uma fronteira entre a poesia e a prosa?

Eduardo Sterzi: Manuel António Pina começa um poema com o verso: “Poesia, saudade da prosa”. Se eu conhecesse esse estupendo verso à época em que dei o título ao livro, certamente ele se justificaria mais facilmente. De qualquer modo, eu conhecia já a matriz de que partem todas as considerações modernas e contemporâneas neste sentido, matriz que se encontra naquela noção dos românticos alemães de que -como resume Walter Benjamin- “a Idéia da poesia é a prosa”.

O título é, de fato, provocativo. Mas quero crer que esta provocação não é leviana. Este título, afinal, concentra preocupações teóricas que à época (final dos anos 90) já me obcecavam, e com as quais ainda hoje estou lidando na minha tese de doutorado sobre a “Vita Nova”, sobre este livro no qual Dante recupera os sonetos e canções escritos ao longo dos dez anos precedentes, envolvendo-os numa moldura narrativa e exegética em prosa. (Aproveito para adiantar, mesmo não tendo sido perguntado, que, como se vê, muitas vezes as mesmas questões guiam tanto minhas pesquisas em crítica e teoria quanto minhas experiências em poesia. No fundo, é tudo pesquisa, investigação, e é tudo escrita. Não há bom teorema, nas ciências do homem -entre as quais eu incluo os muitos modos de estudo da literatura-, que não seja, do modo que for, também um poema. O único problema quanto a isso é que, conforme já argumentou Giorgio Agamben, a identificação entre crítica e poesia, desde que a poesia moderna renunciou à “criatividade”, não pode consistir em a crítica se fazer “criativa”, mas sim em ela se fazer também, como a poesia de hoje, “negatividade”.)

Mas voltando às suas perguntas: por que “Prosa”? Lembro que, assim que eu comecei a organizar o livro, lá por volta de 1999, a partir de alguns poemas já escritos, tentei pensar num título que tivesse alguma força -de preferência apenas uma palavra-, mas que fosse ao mesmo tempo inespecífico a ponto de dar conta de um livro tão heterogêneo, de um livro que se veio formando ao longo dos 10 ou 11 anos anteriores (o paralelo com a “Vita Nova”, que só agora percebo, é casual).

Não recordo o momento exato em que cheguei à solução que vingou, mas ainda hoje acho um bom título. Interessante é que, assim que defini o título, acabei escrevendo mais uma série de poemas que o levam em conta e que ou o corroboram (insistindo em algum aspecto prosaico nos poemas) ou, contrariamente, o contestam (mobilizando a música -tão essencialmente antiprosaica- como metáfora, por exemplo). O livro todo é muito irônico (uma característica dele que poucos leitores, pelos menos dentre aqueles que escreveram a respeito em jornais e revistas, destacaram), e, quando digo que é irônico, quero dizer que é um livro que não põe muita fé nas posições que, vez por outra, adota.

É por isso que, apesar de se intitular “Prosa”, não é um livro resolutamente prosaico (no sentido em que são prosaicos, por exemplo, alguns livros de João Cabral, ou mesmo de Drummond). É antes um livro que quer pôr em questão esta “idéia da prosa”, ou “saudade da prosa”, de que a poesia sempre acaba se fazendo, na medida em que, na sua origem, estão sempre uma imagem do mundo e algumas palavras que a esta imagem querem aludir (o que Hegel chama de “prosa do mundo”).

Quanto à sua pergunta sobre se existe ainda uma fronteira entre prosa e poesia, acho que existe sim, sempre existirá. Mas fronteira sempre instável, móvel, pelo menos quando abordada por um bom poeta ou um bom prosador.


Certa ver, num debate, você chegou a dizer que a memória é um problema. Tanto é que no seu poema “Prosa de um domingo” você a problematiza. Você poderia falar mais sobre isso?


Sterzi:
A memória me parece um problema, não só poético, basicamente por dois motivos: primeiro, porque, quando tentamos recuperar algo de nosso passado, a memória nos entrega só o que ela quer e quando ela quiser; segundo, porque, quando queremos, ao contrário, esquecer um fato, a memória pode insistir em trazê-lo de volta, à nossa revelia. Ou seja, é a insubmissão da memória que é um problema. Mas essa insubmissão, é claro, é também sua grandeza, é o que faz dela uma espécie de existência paralela: fantasmática, irreal, às vezes incômoda, outras vezes reconfortante. Existência bastante propícia à poesia, ou antes bastante afim a esta.

No entanto, pelo menos para a minha poesia, interessam sobretudo os estados intermediários, que não são nem os de recordação indesejada, nem os de esquecimento implacável. O poema a que você se refere, “Prosa de um domingo”, trata justamente de um desses estados ou momentos: o corpo, resumindo-se aos sentidos, apega-se apenas ao “cheiro de chuva” que permanece quando a tempestade acaba; neste momento, talvez motivada por este cheiro, a recordação de uma dor antiga -“a dor de ser/ sem ter / sido”- vem engastar-se “no tempo presente”; esta dor, agora recordada, era já dor de uma ausência de memória (“ser/ sem ter/ sido”), ou seja, é a própria ausência de memória que é agora recordada, o que desestabiliza, revelando sua vacuidade, a recordação presente; o poema acaba, pois, com a constatação de que “nada” -nem mesmo a súbita “sensação de uma outra vida” proporcionada pela memória involuntária- “pode, fugaz, dar-me a garantia de ter vivido”.

A “infância” -esta “outra vida”, “dor secreta do poema”- permanecerá para sempre como uma espécie de pátria a que nunca mais retornaremos. A memória, ao acenar com uma possibilidade de retorno, só acentua a dor do exílio. Vale acrescentar que em momento algum do poema se diz, casimirianamente (“Meus oito anos”), que o tempo da infância era feliz em oposição ao presente doloroso. Pelo contrário, a pátria da infância é desde sempre (e para sempre) “dor” e vacuidade, “visagem” (fantasma).


Deste livro inicial, “Prosa”, no qual se destacava uma matéria cultural como fonte mesma da poesia, você passa para esses novos poemas, do ainda inédito “Aleijão”. Até o título já apresenta outro caráter, nada sublime, mantendo a provocação, mas de outra ordem. Por que este título?

Sterzi: Não acho que “Prosa” seja um título propriamente “sublime”. Mas é claro que “Aleijão” trabalha num registro diferente, mais “baixo” (se pensarmos na antiga divisão retórica dos estilos). E o livro mesmo, de fato, parte de uma espécie de rasura do cultural, que contribui para que se firme algo como um sermo humilis (ou quotidianus, communis, sordidus...).

Rasura provisória, pois acredito que não se deve impor limites temáticos à poesia, todos os assuntos lhe são pertinentes (ou, antes, todos estão sujeitos à sua impertinência), e acredito ter ainda algumas coisas a dizer em poesia sobre temas “culturais”. Mas, seja como for, de fato, nestes últimos poemas, quis reduzir a um mínimo (nem sempre consegui, pois a poesia é antes de tudo, inevitavelmente, um discurso sobre poesia, que, às vezes, se permite ser também sobre outros assuntos) as citações, as referências literárias, musicais, pictóricas. Ou, melhor dito, torná-las discretas, quase invisíveis.

Trata-se de uma medida tática, com diversos objetivos superpostos: queria, antes de tudo, provar para mim mesmo que eu conseguiria escrever poesia sem apoiar-me explicitamente em freqüentes alusões culturais (as quais, muitas vezes, podem funcionar como muletas para o poeta iniciante, quando deveriam, antes, ser enxertos ou implantes -veja-se aí a metáfora do aleijão já funcionando...); mas queria também encontrar formas mais aptas a dar conta de uma série de experiências por que passei nos últimos anos, experiências, muitas delas negativas e mesmo violentas, que estão na origem do título “Aleijão”.

Basta dizer, resumidamente, que, durante um ano, sofri inúmeras hemorragias nasais, algumas verdadeiramente assustadoras, sem que nenhum médico conseguisse identificar com segurança a razão daquela sangria. Quando finalmente descobriram o porquê, fui submetido a uma cirurgia, cujas seqüelas até hoje me incomodam um pouco. Passou mais um ano, e eu e a Veronica fomos agredidos por dois marginais, levamos muitos socos e chutes, ficamos com cicatrizes. O “Aleijão” é filho de tudo isso (mas espero que não se reduza a testemunho disso).


Você se lembra de algum poema que nunca conseguiu fazer? Ou que sempre o persegue, mas não há meio de encontrar o tom e a forma?

Sterzi: Uma maneira rápida de responder à sua pergunta seria dizer que o natural de meus poemas é eu não conseguir fazê-los. Mas dá para desdobrar um pouco essa resposta sumária. Há, de fato, estes poemas que pedem para nascer sem que eu consiga encontrar, pelo menos por muito tempo, um modo de tirá-los de mim: os mais encruados não passam nem das primeiras e muito rudimentares anotações. E quase sempre acontece isso com poemas cuja primeira intuição deles, cujo primeiro lampejo que me leva a querer escrevê-los, parecia prometer que finalmente sairia um poema bacana, um poema em que enfim conseguiria dizer algo que tinha de ser dito (e que, espero eu, mereceria ser lido).

Há um frase de Prospero, em “A Tempestade”, frase que o Philip Roth transformou em epígrafe de “O teatro de Sabbath”, e que é mais ou menos assim: “De cada três pensamentos, um será dedicado ao meu túmulo”. Pois é: um poema encravado, engasgado, é como se fosse uma espécie de túmulo, a que dedicamos, se não um de cada três pensamentos, pelo menos um pensamentozinho que seja por semana. E quase sempre o pensamento não é “tenho de escrever aquele poema”, mas “ainda não é hora de escrever aquele poema”.

Posso citar um exemplo concreto: há um poema que pretendo intitular “Lloança del fang” (roubando o título de um belíssimo poema de Mariano Manent traduzido por João Cabral na sua antologia de poesia catalã) e do qual só tenho, além do título, alguns esboços de versos, nos quais falo de meus avós e de roldanas (lembro que um dia fiquei um bom tempo observando impressionado o funcionamento do sistema de roldanas de um portão de garagem). Talvez eu ainda não tenha escrito este poema porque até hoje não esclareceu para mim a conexão, que intuo como muito intensa, entre a imagem das roldanas e a saudade que tenho de meus avós -tanto dos já mortos quanto daqueles que apenas estão distantes de mim, morando em Porto Alegre.

 
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