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A divulgação, a curiosidade sobre um trabalho num país que dá pouca importância para a poesia é também pequena. E há outras questões. Penso nos meus livros como projetos. Não como aquela coisa calculada, articulada, administrativo-financeira, racional, não é isso, mas como resultado de determinadas experiências (e experimentos) com o texto, com a vida. “Objetos” surgiu de uma vivência muito particular com determinados interesses poéticos, com o quarto, a casa dos pais, ainda. Já esse outro livro traz uma leitura da rua, uma possibilidade de ver a cidade, a minha, como linguagem. O terceiro (que é um pouco maior em matéria de poemas) tem outros registros. Então isso me puxa para uma outra idéia, que é uma coisa que me interessa: a dissolução do poema, do registro em livro, que não tem uma permanência, que se esgarça, some, como “Objetos”. Dele rodei apenas 200 exemplares, esses exemplares foram distribuídos, e o livro desapareceu, eu mesmo só tenho um exemplar. Gosto de pensar, ainda tomando essa idéia de publicar, ou não publicar, nas reflexões do Eduardo Jorge (jovem poeta cearense), que se debate muito com isso: por que é que o poema tem sempre de acabar em livro, tem de ser publicável? Por que o poema não pode virar outra coisa? Eduardo publicou um livro com 50 exemplares (“San Pedro”), a partir da experiência dele com um prédio em ruínas aqui de Fortaleza. Depois o livro virou uma coreografia, que virou um vídeo, uma videodança. O poema está lá, mas se desdobrou em outra coisa, que não é livro, que não é ele mesmo. Talvez Eduardo nem tenha a dimensão dessa experiência, talvez ele nem tenha elaborado isso, mas é uma coisa muito forte, que dá uma dobra no conceito de muita gente supostamente “importante” a respeito de escrever e ter isso como resultado do poema. Gostaria de conseguir chegar nesse nível, nesse grau de desprendimento e transformar meu texto em outra coisa. Ainda há outro dado que me interessa muito: se o meu texto conseguir gerar alguma discussão, onde quer que ele esteja, se conseguir gerar pensamento, e eu poder discutir poesia, então, para mim basta. Para mim é muito mais importante do que publicar livro ou não. Muito mais bacana é poder estabelecer algum olhar sobre o que está se escrevendo. E vejo pouca gente realmente interessada nisso. Inclusive os poetas mais jovens, todos chegam com a ansiedade da permanência, do reconhecimento, com a ansiedade da obra, numa época em que a própria idéia de obra já foi pelos ares. Muitos dos seus versos são curtos, como se você procurasse o silêncio, a dobra entre um verso e outro -tanto é que os separa quase sempre deixando uma linha em branco. É uma poesia de acordes, de arpejos? Num dos poemas você mesmo diz: "para dentro, é preciso ficar. um silêncio,/ uma vibração de silêncio, contido, / atento e contido". É uma poesia intimista? Lima: A forma como eu escrevo tem relações muito íntimas, claro, com a maneira como eu me comunico no cotidiano. Sou naturalmente muito calado, falo muito pouco, daí meu problema com os textos acadêmicos, que exigem um esticamento que não consigo. Sou muito exato, preciso, nessas falas. O que é um problema. Mas talvez uma vantagem, pois já chego nos discursos sabendo o que vou falar, quando falar, no seu limite e suficiência. Talvez seja uma necessidade de clareza. Ou talvez seja um daqueles mecanismos de proteção. Não sei. Imagina como peno, principalmente numa cidade que é naturalmente estridente, falante, barulhenta, onde as pessoas te cobram para que você fale, se exponha, converse. Caso não, você não é capaz de cumprir determinada expectativa das pessoas da cidade. Você está fadado à antipatia. Então, os poemas tendem naturalmente para essas lacunas que você observou, esses silêncios. Tendem a ser mínimos, pois não sei me comunicar de outra forma. Invejo os poetas épicos, ou os poetas essencialmente discursivos. Nossa! Como eles devem ser pessoas interessantes, cheios de coisas para dizer. Enquanto eu, aqui, com minha narrativa mais que comum, sem grandes feitos ou embates públicos, sem volta ao mundo, sem grandes domínios das línguas nobres, o que me resta dizer é ampliar os silêncios. Quanto ao fato de minha poesia ser intimista, não concordo. De forma alguma. Não há nas coisas que eu escrevo nenhum tipo de complexidade psicológica ou filosófica que esse termo exige. As coisas são ditas de uma maneira muito simples. Prefiro dizer que se trata de uma poesia da intimidade. Não necessariamente a minha, mas a intimidade de uma condição de sujeito no tempo, hoje. Prefiro dizer. Hoje, percebe-se que há uma efervescência em outros Estados, mas que nem sempre se reflete no tão falado eixo "Rio-São Paulo". Queria que você me falasse um pouco sobre a poesia no Ceará, sobre os principais autores, sobre os diálogos que vocês armam etc. Lima: Essa idéia de “eixo cultural” é assombrosa. Assombra os que estão às margens desse “eixo” como idéia de temor e, ao mesmo tempo, deslumbre. Assombra porque é uma idéia tardia e tacanha. A idéia do “eixo”, vamos tomar assim, é sintoma da precariedade do país. Uma deficiência histórica de se pensar, de democratizar o pensamento, de produzir além das fronteiras. É fruto de uma mentalidade republicana-positivista-parnasiana que se reproduz ainda hoje. E impressiona o modo como as pessoas que vivem “fora do eixo” ajudam a alimentá-lo. O rapaz da província deseja o “eixo” cultural, lugar de legitimação do saber, da arte, da poesia. Quer ser visto e notado por aí, torna-se devoto. E criam-se os riscos. Dois movimentos: ou perpetua-se a idéia de que “o de fora”, o do “eixo”, é o melhor; ou alimenta-se uma ojeriza, um asco sobre as coisas que vêm do Rio-São Paulo. Isso é um impasse. Sintoma da nossa precariedade de cá. Mas aí você percebe que não só a idéia de “eixo”, como as próprias práticas presentes nas pessoas que lidam com literatura, dentro desse “eixo”, são tão provincianas quanto aquelas das “províncias”. O que é e o que não é provinciano? Como não achar curto a incapacidade de as pessoas de determinado “eixo” legitimador em se negar a conhecer o restante do país e o que se produz nele? Como não achar precário o deslumbre que alguns “críticos” do “eixo” possuem por aqueles poetas jovens que são muito interessantes pelo simples fato de terem morado fora do país? Como não achar provinciana determinada revista ou jornal, que pega uma dúzia de autores, que publicam em editoras do Rio e São Paulo, para dizer: este será o cânone da literatura brasileira na próxima década. Santo Deus! Acho que hoje pouquíssimas pessoas estão autorizadas a fazer um apanhado mais ou menos coerente da produção contemporânea de poesia. Algumas décadas atrás, isso ainda funcionava, quando se presenciava um êxodo inevitável ao dito “eixo”. Mas, hoje, quando se percebe uma movimentação, ou como você mesmo disse, uma “efervescência”, quando as pessoas estão se articulando, agora principalmente com o aparato da internet, que aproximou uma infinidade de gente, como só pensar a literatura a partir de um “eixo”? Para mim, é pensar curto. Pensamento limítrofe. E nós, que moramos noutras regiões, alimentamos e gostamos dessa fixação por esse aprisionamento, por essa construção de lugar legitimado que é Rio-SP. O que a gente tentou fazer aqui (eu e Manoel Ricardo de Lima) foi esticar o olhar, perceber onde se estavam apostando em possibilidades além desse aprisionamento, que é muito nosso também. Mas tudo isso, sem essa idéia de rancor, de revanche, com muita leveza. Leveza, mas com auto-estima nos ares. E, de repente, lá estávamos nós publicando no Mato Grosso do Sul, com o Douglas Diegues, ou o Manoel fazendo um livro com a artista plástica gaúcha Élida Tessler; depois veio a Virna Teixeira, publicando e articulando todo um trabalho de tradução que ela tem bem consistente, de poetas escoceses. Ao mesmo tempo, escrevíamos no jornal sobre autores do próprio “eixo”, que não tinham espaço nesses lugares. Na verdade foi uma criação de uma teia de diálogos, de interseções. Então hoje você tem um pessoal que está fazendo uma produção superbacana, que tem uma força, como Eduardo Jorge e Diego Vinhas, para quem lugar e de território são idéias muito rarefeitas. *** Poemas de Carlos Augusto Lima
baleias à porta de casa, alguns casais fazendo um juízo breve da estranheza. sexta-feira da paixão via-crúcis na praia simula devoção, lembrança, a punição suprema. o menino carrega uma cruz e um sudário roto amarrado nela. dois ou três acham graça. as mulheres entoam um cântico devoto, lembrança e punição. percebo o quanto me falta as assombrosas companhias. os meninos brincam. a via-crúcis tem muito de circo, de maravilhoso e rancor aos seis anos de idade. percorro um vento o movimento ancestral dos barcos a procissão dispersa avalanche de nuvens. dor é aquilo que não é. * * * meu pai me carrega nos braços e a praia é bonita, ponto qualquer, outro lugar fatigado e triste como um mineiro chinês resgatado depois de dias e dias e dias debaixo da terra. o noticiário das oito. reserva ambiental chamuscada vento e areia salpicam suas pernas finas e adensadas de pêlos. penitência e nenhuma fé enroscada no tronco que me guardará alegria e ira, aqui e solene até o fim dos dias. não me detém a beleza do céu, marulho, elefantes brocas petrolíferas coisas vivas amarelas e escuras os astros com nomes que desconheço. cidade rua país, quem está dentro de quem acordo. um relance me permite seu rosto fatigado, triste de chinês soterrado. luzes piscam. a lanterna lampeja e falha. o mundo é escuro. não me lembrarei que o mundo é escuro e venta muito. tudo é rocha e cavar fundo. * * * lugar há uma rasteira meteorologia por sobre imagem do móbile, origami de garrafa pet imóvel. tem gritos-silvos o pega-pega violento das crianças alguns tem parentesco com Cosme Chuvasco de Rondó tramam uma república arbórea. o canto dos pentecostais ribomba no quintal vizinho, glória e senhor e salvação e louvor. invento soletrar um hebraico impossível invento um gargarejo deprecatório cínico. o alarido na área de serviço. tem corpo de canção de amor, ondas médias opereta barata de anjos demoníacos. amor e assado de panela. amor é gorduroso. ecos magoados pela área de serviço, as ofensas partilhadas. as ofensas. todos dormem em paz. pois a janela desfolha o bairro um pedaço dele motocicletas areia devora calçada, calçada e areia homem humano disputa asfalto com bichos e pneus a entrega é de bicicleta água mineral na garupa e gás a louca que canta dez para meia-noite. não há judeus nem árabes aqui nem tailandeses ilegais num barco de bandeira malaia mulheres de camisola estendem cadeiras vida alheia rosário de dor, fronte rústica do time do coração o pavilhão de três cores imita o de um país estrangeiro sol por sobre o horizonte do muro descamado: consulado perdido no bairro pobre e feliz *** Antologia pessoal De “Eu me satisfaço com minha casa e o deserto” – “Mar para peixes”
– “havia o mar” . Heitor Ferraz |