CINEMA
O viajante Bernardo Vorobow, por Walter Salles
2

o futuro, sem disfarces,
coube antipático sobre
a linha do horizonte às cinco da tarde.

O seu resumo do dia é, assim, feito de “derrotas”, de saldos negativos. Ou como ele escreve em “Poema nº 3”: “foi um dia/ sem, assim”. Ou ainda, como observa em outro poema (“Em torno de”), no qual também há um registro do dia como algo que se repete enfadonhamente: “continua/ a agonia do futuro”.

Como poucos poetas, Calixto sabe se vestir seus versos com a linguagem da cidade -mesmo sabendo que há nisso uma perda (“pior: essa é a linguagem”, como apontou no poema já citado)- para falar de uma experiência particular e dividi-la com o leitor. Uma perda que ele irá transformar em riqueza de imagens. Num poema como “Horário do almoço, Mauá”, que sabemos ter nascido de uma experiência do poeta -do tempo em que ele trabalhava numa biblioteca pública na favela Oratório, em Mauá-, ele alcança imagens que repercutem com intensidade no leitor, como na passagem que se segue:

(um menino me dá um tiro.
imaginário.
calibra os passos.
dispara risadas.

eu vivamente morto:
respiro).

Ou ainda, em “Oratório”, certamente composto na mesma fase, ele escreve, com impressionante precisão, nos primeiros versos:

meninos jogam
capoeira
em frente ao muro da creche
onde, escrita a tiros,
lê-se a epígrafe destes dias.

Não seria preciso dizer mais nada depois desta “epígrafe”, que fala tanto sobre a nossa realidade e nosso presente. Poderia ainda citar muitos outros momentos fortes de sua poesia, com imagens trabalhadas cuidadosamente. Mas seria tirar do leitor o sabor da descoberta.

Claro que a poesia de Calixto não trata só do cotidiano da cidade: outros assuntos também entram (sim, na poesia de Calixto há assuntos, há conteúdo, há coisas que são ditas e que precisam ser ditas de alguma forma, esse é o risco que ele corre, sem se perder no vazio formalista).

A família, os amigos, as paixões literárias e musicais soam aqui e ali nos seus versos. É uma “música” difícil, densa, mas que toca nas feridas do presente. Sem ser apenas crônica da vida imediata, sem ser apenas poesia das coisas, ou dos objetos, a poesia de Calixto não perde a qualidade lírica, ou melhor, arrisca o lirismo do possível -o que, repito, não é pouca coisa-, buscando na linguagem deste “declínio civilizado” sua forma poética e sua expressão particular, na qual nos reconhecemos em nossa fragilidade e em nossa própria história.

***

“Pasmo diante da realidade cruel e imbecil”
Uma entrevista com Fabiano Calixto

Você diz que “Música Possível” é o livro da crise. Que tipo de crise? Você poderia comentar?

Fabiano Calixto: Bem, é a minha, pessoal e intransferível, crise do verso. A crise do meu pensamento sobre poesia -o que, por extensão, é a crise do meu pensamento sobre o mundo. Logo após o lançamento de “Fábrica” e o desencanto com algumas propostas estéticas que então eu cultivava, pensei, durante muito tempo (creio que até hoje!), sobre qual caminho a seguir, que tipo de poema eu queria compor, qual a finalidade de um poema em tempos funestos como o nosso, enfim, essas coisas todas.

A angústia era e, posso falar no presente, é grande. É certo que agora, depois de convívio e digestão com outras múltiplas formas de pensar o objeto estético, tenho algo mais claro, mais próximo daquilo que almejo para meus poemas. Veja bem: apenas “mais claro” e não “certo”, “definitivo”. Você pode notar essa minha crise no próprio livro, a multiplicidade de formas e estruturas e tudo o mais foi essa tal de minha crise quem ditou. Minha possibilidade de canto neste mundo, esta aí: “Música Possível”.


É evidente neste livro e em “Fábrica” a sua ligação com a música. Qual a relação que existe entre sua poesia e a música? Que “música possível” é essa?

Calixto: A relação entre minha poesia e a música é imensa, até porque eu comecei a escrever poemas a partir de audições ininterruptas de John Lennon, Chico Buarque e Caetano Veloso (mais tarde, Bob Dylan), isto é, a canção popular sempre me tocou profundamente, e esse encanto gigantesco logicamente deságua, de alguma maneira, nem que seja pela recusa, em minha poesia. Talvez eu mesmo não saiba evidenciar onde essa relação é mais forte, mais intensa, mas existe sim, sem dúvida.

Agora, a minha “música possível” é o carpir do sujeito contemporâneo, o lamento de um sujeito do Terceiro Mundo, pasmo diante de uma realidade tão cruel, imbecil, imbecilizante, nojenta, de um sujeito descontente com sua rua, com seu bairro, com seu país, com seu continente, com seu planeta, com sua alma. “O início e o fim de qualquer atividade artística é a reprodução do mundo à minha volta através do mundo dentro de mim”, assim, certa feita, escreveu Goethe. Creio ser essa relação a minha “música possível”, a minha possibilidade de canto, na medida do impossível, para lembrar Torquato Neto.


Nossa época é marcada pela violência. E esse é um dos seus temas. Como você mesmo chega a dizer num poema: “meninos jogam/ capoeira/ em frente ao muro da creche/ onde, escrita a tiros/ lê-se a epígrafe destes dias”. Diante desta violência, de uma sociedade marcada pela desigualdade, como fica a beleza procurada pela poesia?

Calixto: A beleza fica sem pai, nem mãe, naturalmente.


Você disse que na sua casa não tinha livros. Alguns anos depois, você trabalhou numa biblioteca pública numa favela de Mauá. O que é preciso fazer para despertar nas pessoas o desejo, ou a necessidade, de ler literatura?

Calixto: No lugar de se pensar suinamente cultura (porque isso faz parte de um projeto cultural, é óbvio), as pessoas envolvidas nesse processo (professores, produtores culturais, educadores, pensadores, políticos etc.) deveriam ter um pouco mais de boa vontade, um pouco mais de conhecimento do labor, um pouco mais de, perdoe-me a expressão, vergonha na cara. Não se brinca com isso, a não ser num país de inumeráveis brincadeiras de extremo mau gosto, como é nosso caso brasileiro. É preciso mudar isso. É preciso pensar na imbecilidade dos cabides de emprego partidários, é preciso acabar com ações anódinas e cobrar atitudes mais ativas e duradouras.

Além disso, creio que o currículo de literatura deveria ser repensado, pois, antiquado, gagá -isso se falando não só de ensino médio, mas também superior. Acho que o incentivo a boas leituras (sim, devemos adjetivar, pois de más leituras os metrôs, os ônibus, as megastores, os centrso culturais em geral, e afins, estão cheios).

Quando falo de boa leitura, falo em deixar, definitivamente, de perder tempo com bobagens como Casimiro de Abreu ou Cecília Meireles, e ir buscar a compreensão de obras como a de Guimarães Rosa, Machado de Assis ou Haroldo de Campos. Isso não é apenas uma questão de escolhas aleatórias como pode parecer, mas sim uma questão de reflexão, de apuração, de ter a humildade (sim!) de buscar, além do difícil, o dificílimo, para usar de um poema de Antônio Risério.

Há, certamente, outras medidas, outras muitas coisas a se fazer (e que se faça logo!), mas, se eliminarmos os parasitas politicamente apadrinhados e repensarmos o currículo, aí então poderemos começar a pensar em fazer essa vergonha virar uma nação (como disse certa vez, se minha memória não me trai, Caetano Veloso).

***

Poemas de Fabiano Calixto

TAKKA TAKKA
Para Zhô Bertholini

entre arcos, carros, pactos, a vida escorre
viscosa, com o veneno da esperança,
já sem biografia, sem a umidade dos dedos
degustando-a em contorno de dicionário.

a luz, redimida do inferno, estilha
sobre a coragem do dia-a-dia, cai,
desaba. a luz é uma sangria. porém,
grita (outra luz) sonhos e coleção
de casamentos, onde a felicidade
acaba antes do noticiário. nítidos, todavia,
socos nos tímpanos, formigas de chumbo
a escavar as vísceras, pântano no estômago.

a ternura fria com que a madrugada
desperta a manhã -sem canhões, distanciando-se
com seus pesados passos, guardando suas
tralhas no esquecimento das estrelas.

nas sobras da cidade (da noite)
um rosto esguio, juvenil, debaixo
de olhares nublados de sono,
ponteado a benday, já-ido,
vaza


E-MAIL A TORQUATO NETO

do lado de dentro do vento
um cisco no olho do furacão
anjo fáustico declamando ácido sulfúrico
colhe um vocábulo em cada lábio
alivia a lira com a saliva da dríade
não revela ressalvas ao poema
escancara o riso da partida
sabendo que o fim não tem fim
deseja a linda ítaca na língua da morena
recita a ira ácida deciana (geléia geral)
para incitar o demônio dentro da vulva da devota
toma partido do caminho do passeio
lava a palavra lírio com o sangue do tiroteio


TRAMÓIA TRAPAÇA E TRETA

“Vossa excelência é
mais transparente do que
o líquor de uma pessoa
que não tem meningite!”
: orgulha a goela do nobilíssimo
ao naco patético do sufoco nacional.

a máfia pudibunda escoa seu scotch
à paisagem de nádegas especuladas
da abundante suruba monetária.

como sempre (para sempre),
a pátria pária patina na escória.
- diante tal disparatada partilha
(fundadora já antiga de desastres,
perfeita má fé que a tudo anula)
ser seria um refrão pequeno, mínimo,
aziago?

(poemas inéditos do livro em preparo “Sangüínea”)

***

Antologia pessoal

De “Fábrica”

- Fábrica
- Máquina (Fábrica 2)
- Último dia (Fábrica 3)
- Espera
- João Cabral de Mello Neto
- 17:49
- O vôo da baleia


De “Um Mundo Só Para Cada Par”

- I – “escrever a palavra amor num pedaço de papel”
- VI – “numa tarde indecisa”


De “Música Possível”

- Da cidade
- Poema N.12
- Quanto,
- Quatro peças

.

Heitor Ferraz
É poeta, autor de "Coisas imediatas" (Coleção Guizos, Ed. 7 Letras), que reúne toda a sua poesia até agora.

 
2