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o futuro, sem disfarces, O seu resumo do dia é, assim, feito de “derrotas”, de saldos negativos. Ou como ele escreve em “Poema nº 3”: “foi um dia/ sem, assim”. Ou ainda, como observa em outro poema (“Em torno de”), no qual também há um registro do dia como algo que se repete enfadonhamente: “continua/ a agonia do futuro”. Como poucos poetas, Calixto sabe se vestir seus versos com a linguagem da cidade -mesmo sabendo que há nisso uma perda (“pior: essa é a linguagem”, como apontou no poema já citado)- para falar de uma experiência particular e dividi-la com o leitor. Uma perda que ele irá transformar em riqueza de imagens. Num poema como “Horário do almoço, Mauá”, que sabemos ter nascido de uma experiência do poeta -do tempo em que ele trabalhava numa biblioteca pública na favela Oratório, em Mauá-, ele alcança imagens que repercutem com intensidade no leitor, como na passagem que se segue: (um menino me dá um tiro. eu vivamente morto: Ou ainda, em “Oratório”, certamente composto na mesma fase, ele escreve, com impressionante precisão, nos primeiros versos: meninos jogam Não seria preciso dizer mais nada depois desta “epígrafe”, que fala tanto sobre a nossa realidade e nosso presente. Poderia ainda citar muitos outros momentos fortes de sua poesia, com imagens trabalhadas cuidadosamente. Mas seria tirar do leitor o sabor da descoberta. Claro que a poesia de Calixto não trata só do cotidiano da cidade: outros assuntos também entram (sim, na poesia de Calixto há assuntos, há conteúdo, há coisas que são ditas e que precisam ser ditas de alguma forma, esse é o risco que ele corre, sem se perder no vazio formalista). A família, os amigos, as paixões literárias e musicais soam aqui e ali nos seus versos. É uma “música” difícil, densa, mas que toca nas feridas do presente. Sem ser apenas crônica da vida imediata, sem ser apenas poesia das coisas, ou dos objetos, a poesia de Calixto não perde a qualidade lírica, ou melhor, arrisca o lirismo do possível -o que, repito, não é pouca coisa-, buscando na linguagem deste “declínio civilizado” sua forma poética e sua expressão particular, na qual nos reconhecemos em nossa fragilidade e em nossa própria história. *** “Pasmo diante da realidade cruel e imbecil” Você diz que “Música Possível” é o livro da crise. Que tipo de crise? Você poderia comentar? Fabiano Calixto: Bem, é a minha, pessoal e intransferível, crise do verso. A crise do meu pensamento sobre poesia -o que, por extensão, é a crise do meu pensamento sobre o mundo. Logo após o lançamento de “Fábrica” e o desencanto com algumas propostas estéticas que então eu cultivava, pensei, durante muito tempo (creio que até hoje!), sobre qual caminho a seguir, que tipo de poema eu queria compor, qual a finalidade de um poema em tempos funestos como o nosso, enfim, essas coisas todas. A angústia era e, posso falar no presente, é grande. É certo que agora, depois de convívio e digestão com outras múltiplas formas de pensar o objeto estético, tenho algo mais claro, mais próximo daquilo que almejo para meus poemas. Veja bem: apenas “mais claro” e não “certo”, “definitivo”. Você pode notar essa minha crise no próprio livro, a multiplicidade de formas e estruturas e tudo o mais foi essa tal de minha crise quem ditou. Minha possibilidade de canto neste mundo, esta aí: “Música Possível”.
Calixto: A relação entre minha poesia e a música é imensa, até porque eu comecei a escrever poemas a partir de audições ininterruptas de John Lennon, Chico Buarque e Caetano Veloso (mais tarde, Bob Dylan), isto é, a canção popular sempre me tocou profundamente, e esse encanto gigantesco logicamente deságua, de alguma maneira, nem que seja pela recusa, em minha poesia. Talvez eu mesmo não saiba evidenciar onde essa relação é mais forte, mais intensa, mas existe sim, sem dúvida. Agora, a minha “música possível” é o carpir do sujeito contemporâneo, o lamento de um sujeito do Terceiro Mundo, pasmo diante de uma realidade tão cruel, imbecil, imbecilizante, nojenta, de um sujeito descontente com sua rua, com seu bairro, com seu país, com seu continente, com seu planeta, com sua alma. “O início e o fim de qualquer atividade artística é a reprodução do mundo à minha volta através do mundo dentro de mim”, assim, certa feita, escreveu Goethe. Creio ser essa relação a minha “música possível”, a minha possibilidade de canto, na medida do impossível, para lembrar Torquato Neto.
Calixto: A beleza fica sem pai, nem mãe, naturalmente.
Calixto: No lugar de se pensar suinamente cultura (porque isso faz parte de um projeto cultural, é óbvio), as pessoas envolvidas nesse processo (professores, produtores culturais, educadores, pensadores, políticos etc.) deveriam ter um pouco mais de boa vontade, um pouco mais de conhecimento do labor, um pouco mais de, perdoe-me a expressão, vergonha na cara. Não se brinca com isso, a não ser num país de inumeráveis brincadeiras de extremo mau gosto, como é nosso caso brasileiro. É preciso mudar isso. É preciso pensar na imbecilidade dos cabides de emprego partidários, é preciso acabar com ações anódinas e cobrar atitudes mais ativas e duradouras. Além disso, creio que o currículo de literatura deveria ser repensado, pois, antiquado, gagá -isso se falando não só de ensino médio, mas também superior. Acho que o incentivo a boas leituras (sim, devemos adjetivar, pois de más leituras os metrôs, os ônibus, as megastores, os centrso culturais em geral, e afins, estão cheios). Quando falo de boa leitura, falo em deixar, definitivamente, de perder tempo com bobagens como Casimiro de Abreu ou Cecília Meireles, e ir buscar a compreensão de obras como a de Guimarães Rosa, Machado de Assis ou Haroldo de Campos. Isso não é apenas uma questão de escolhas aleatórias como pode parecer, mas sim uma questão de reflexão, de apuração, de ter a humildade (sim!) de buscar, além do difícil, o dificílimo, para usar de um poema de Antônio Risério. Há, certamente, outras medidas, outras muitas coisas a se fazer (e que se faça logo!), mas, se eliminarmos os parasitas politicamente apadrinhados e repensarmos o currículo, aí então poderemos começar a pensar em fazer essa vergonha virar uma nação (como disse certa vez, se minha memória não me trai, Caetano Veloso). *** Poemas de Fabiano Calixto TAKKA TAKKA entre arcos, carros, pactos, a vida escorre a luz, redimida do inferno, estilha a ternura fria com que a madrugada nas sobras da cidade (da noite)
do lado de dentro do vento
“Vossa excelência é a máfia pudibunda escoa seu scotch como sempre (para sempre), (poemas inéditos do livro em preparo “Sangüínea”) *** Antologia pessoal De “Fábrica” - Fábrica
- I – “escrever a palavra amor num pedaço de papel”
- Da cidade . Heitor Ferraz |