CINEMA
O viajante Bernardo Vorobow, por Walter Salles
3

– É claro, Alice! – e foi o próprio Cássio, esmagado por um ciúme aparentemente absurdo e portanto mais ridículo ainda, quem me estendeu a caneta, porque eu menti que não tinha caneta só para que ele completasse o gesto mecânico do oferecimento, que aceitei feliz, enquanto escrevia com aquela esferográfica ruim uma dedicatória curta e inspirada sob e para os olhos de Alice. Não dei tempo – Cássio desapareceu na sombra, para não mais emergir, calculei – eu iria arrancar Alice de seus braços, e sem muito esforço, uma bela vingança, das redentoras, que viagem maravilhosa a Curitiba, eu ficaria um mês ali, um ano, se preciso fosse, e era a própria Alice que me dava todas as deixas, mesmerizada pela memória de um livro que ela havia lido três vezes e que se consubstanciava por milagre na minha figura fácil, simpática e sorridente bem diante dela, como uma dádiva. Você trabalha com textos – engraçado, eu estava justamente precisando de uma revisora que conhecesse literatura, o que é muito raro, mais que revisora, uma interlocutora – e ela me olhou com tal intensidade diante da simples idéia – alguém com quem eu pudesse trocar impressões de leitura, mais do que simplesmente, você entende? Às vezes, diante de um parágrafo, eu – Eu podia ouvir a respiração pesada de Cássio, que, civilizado, ainda tentava manter o fio da aparência, forte o suficiente para que ele ainda apoiasse minha crueldade em nome dos bons costumes – Sim, a Alice é brilhante, ela – mas ninguém mais estava interessado na palavra dele. É claro, vamos conversar sim, eu adoraria, eu – e Alice me estendeu um cartão que era um charme de simplicidade, Alice, Assessoria de textos.

– Começamos amanhã?

– Sim, pode ser sim!

Abri finalmente o cardápio: Filé ao alho e óleo, não, hoje não; Filé na manteiga, ao ponto, com salada. Como queria demonstrar, ainda pensei, antes do novo brinde. Brilhavam os olhos verdes de Alice.


Do livro “Contos de Alice”, em andamento.

Conto publicado em 20/11/2006

.

Cristovão Tezza
É escritor, autor dos romances "Breve Espaço Entre Cor e Sombra" e "A Suavidade do Vento", entre outros, e do ensaio "Entre a Prosa e a Poesia: Bakhtin e o Formalismo Russo", todos editados pela Rocco.

 
3