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– É claro, Alice! – e foi o próprio Cássio, esmagado por um ciúme aparentemente absurdo e portanto mais ridículo ainda, quem me estendeu a caneta, porque eu menti que não tinha caneta só para que ele completasse o gesto mecânico do oferecimento, que aceitei feliz, enquanto escrevia com aquela esferográfica ruim uma dedicatória curta e inspirada sob e para os olhos de Alice. Não dei tempo – Cássio desapareceu na sombra, para não mais emergir, calculei – eu iria arrancar Alice de seus braços, e sem muito esforço, uma bela vingança, das redentoras, que viagem maravilhosa a Curitiba, eu ficaria um mês ali, um ano, se preciso fosse, e era a própria Alice que me dava todas as deixas, mesmerizada pela memória de um livro que ela havia lido três vezes e que se consubstanciava por milagre na minha figura fácil, simpática e sorridente bem diante dela, como uma dádiva. Você trabalha com textos – engraçado, eu estava justamente precisando de uma revisora que conhecesse literatura, o que é muito raro, mais que revisora, uma interlocutora – e ela me olhou com tal intensidade diante da simples idéia – alguém com quem eu pudesse trocar impressões de leitura, mais do que simplesmente, você entende? Às vezes, diante de um parágrafo, eu – Eu podia ouvir a respiração pesada de Cássio, que, civilizado, ainda tentava manter o fio da aparência, forte o suficiente para que ele ainda apoiasse minha crueldade em nome dos bons costumes – Sim, a Alice é brilhante, ela – mas ninguém mais estava interessado na palavra dele. É claro, vamos conversar sim, eu adoraria, eu – e Alice me estendeu um cartão que era um charme de simplicidade, Alice, Assessoria de textos. – Começamos amanhã? – Sim, pode ser sim! Abri finalmente o cardápio: Filé ao alho e óleo, não, hoje não; Filé na manteiga, ao ponto, com salada. Como queria demonstrar, ainda pensei, antes do novo brinde. Brilhavam os olhos verdes de Alice.
Conto publicado em 20/11/2006 . Cristovão Tezza |