CINEMA
O viajante Bernardo Vorobow, por Walter Salles
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Na capital inglesa, o escritor ficou internado sob medicação de apomorfina, receitada pelo doutor John Dent, numa tentativa de reabilitá-lo. O próprio autor faz um depoimento acerca do tratamento, em um dos apêndices que acompanham a versão definitiva de “Almoço Nu”. “Encontrei essa vacina quando estava no fundo do poço da ‘junk’ (termo genérico para designar o ópio e seus derivados). Vivia em um quarto no bairro Nativo de Tânger. Não tomava banho havia um ano nem trocava ou tirava as roupas para nada a não ser para enfiar uma agulha na carne fibrosa, desbotada e rígida da dependência terminal, coisa que fazia de hora em hora”, escreveu.

Após o tratamento com apomorfina, Burroughs deixou a clínica e passou dois anos afastado das drogas. Ajudado por Allen Ginsberg, Alan Ansen e Peter Orlovsky -reunidos em Tânger- houve uma cooperação de todos para revisar o numeroso material bruto e organizar os capítulos. O teor das páginas escritas variava desde experiências sexuais e orgias, extensos estudos sobre tipos de narcóticos, revelações sobre o tráfico de entorpecentes e relatos de sonhos repletos de criaturas fantásticas.

Tudo sem depender exclusivamente de uma linha de raciocínio lógica, algo elaborado como uma emancipação livre do fluxo de consciência. Após ser rejeitado pelo editor Lawrence Ferlinghetti, da City Lights Books, editora de San Francisco especializada em publicações independentes, “Almoço Nu” foi publicado pela editora francesa Olympia Press, em 1959, e saiu nas livrarias dos EUA dois anos depois, numa reedição da Grove Press.

Burroughs tornou-se rapidamente um símbolo da contracultura e continuou espalhando suas idéias libertárias. Seus livros seguintes –com destaque para “Nova Express” (1963)- adotaram uma fórmula testada no seu romance anterior: o método “cut-up”. Uma narrativa que consiste em justapor palavras e imagens de outros contextos (muitas vezes apropriando-se de textos de outros autores) a fim de criar uma nova combinação informativa.

Até a sua morte, em 1997, na cidade de Kansas, Burroughs colaborou de forma atuante com diversos artistas. Fez uma ponta como um clérigo viciado em drogas no filme “Drugstore Cowboy” (1989), do diretor americano Gus Van Sant, auxiliou o cineasta canadense David Cronenberg na adaptação para as telas do seu romance “Almoço Nu” e chegou a fazer uma participação especial na gravação de uma canção do grupo grunge Nirvana.

Publicado em 11/12/2006

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Fernando Masini
É jornalista.

 
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