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a.r.t.e.
GRAPHIC NOVEL

Os quadrinhos redescobrem o Cabeleira
Por Denise Mota


Imagens de "O Cabeleira", quadrinhos desenhados por Allan Alex
Divulgação

A história do bandoleiro nordestino narrada por Franklin Távora em 1876 inaugura série da editora carioca Desiderata

Para modelar um antecessor de Lampião, as mãos escolhidas foram as de um homem acostumado a transitar confortavelmente pelo mundo marginal do Rio de Janeiro; na capital fluminense, a vida, os amores e os vícios de uma prostituta de Copacabana estão na ponta da pena de um gaúcho mergulhado no “lado B” do bairro desde os tempos de estudante.

O bandoleiro nordestino e a garota carioca são os embaixadores de uma nova série que chega às estantes brasileiras a partir de fevereiro de 2007, desenvolvida com o propósito de colorir o universo graficamente construído dos quadrinhos com olhares contemporâneos matizados pela experiência pessoal.

O projeto, da editora Desiderata, configura um novo selo dedicado exclusivamente à narrativa de histórias sob a forma de graphic novels e à publicação de trabalhos de autores nacionais.

Ex-agente comunitário, ex-professor de capoeira, ex–ogã no candomblé, ex–fervoroso adepto da doutrina evangélica, ex–ilustrador da revista em quadrinhos do Flamengo e ex-leonino (“Depois dos 30 anos, todos os jornais passaram a incluir o 22 de julho no signo de Câncer”), o fiel morador da Central do Brasil e sempre desenhista Allan Alex, 41, é um dos profissionais recentemente contratados pela casa editoral para ilustrar a saga do Cabeleira, personagem do século 18 que dá título ao volume de abertura do selo.

Inspirado no romance escrito por Franklin Távora em 1876, baseado nos cordéis sobre a vida do assassino pernambucano José Gomes, o roteiro de “O Cabeleira” é assinado por Hiroshi Maeda e Leandro Assis, ambos de 32 anos e publicados pela primeira vez.

Do livro de Távora, ficaram nessa nova versão as descrições do Brasil colonial. Saiu o romantismo. “Este é considerado o primeiro romance regionalista brasileiro. Era um objetivo do autor retratar a época, o lugar e seus personagens com realismo. Foi essa a principal característica que quisemos manter. Por outro lado, o livro tem momentos melodramáticos e românticos demais para o público de hoje. Então procuramos atualizar o tom da história”, detalha Assis, que já havia lido o romance anteriormente e que, por gostar da história, impulsionou sua reedição em quadrinhos na editora.

Para Maeda, um dos trunfos da narrativa é que, apesar de concluída há mais de cem anos, ela mantém uma estrutura eficiente até os dias de hoje. “Está repleta de flashbacks, violência e ação. Procuramos manter esse clima no roteiro”, afirma. A representação de um homem atormentado pela culpa foi eliminada. “O que descartamos foi basicamente a idéia de que o Cabeleira era um bandido arrependido. Para nós, ele era um homem cruel, um assassino que aterrorizou Pernambuco.”

Sobre a prancheta, Allan Alex não só concorda com essa abordagem como vai definindo o personagem com traços carregados pelas reflexões que acumula no dia-a-dia: “Priorizei a humanização do Cabeleira. Ele era um homem perverso, um desequilibrado, mas havia um porquê para tudo isso. Não creio na santidade do papa nem na perversidade pura de um demônio qualquer de maneiras tão absolutas”, diz. “Como agente comunitário, entrei nas piores favelas do Rio de Janeiro, vi pessoas que matavam e ao mesmo tempo ficavam preocupadas se havia uma criança chorando de fome. Do ponto de vista de quem toma o tiro, o bandido é um facínora. Para aquele a quem o bandido mata a fome, ele é um herói.”

Assim é como -crêem os autores de “O Cabeleira”- foi visto o bandoleiro do Brasil setecentista por alguns de seus contemporâneos e, por isso, concluem, sua história sobreviveu apesar dos poucos relatos existentes sobre sua vida.

“Sempre me interessei pelo fenômeno do cangaço, e o Cabeleira é uma espécie de predecessor dos cangaceiros. Sua história tem todos os elementos do banditismo: vingança, violência excessiva, autoridades incompetentes, religiosidade, fome e pobreza”, enumera Assis. “Enquanto todo mundo dá destaque para Lampião e Maria Bonita, vimos no Cabeleira uma história original -ele foi o primeiro”, diz Maeda.

Para Alex, mais do que haver se antecipado aos reis do cangaço, o personagem tem o atrativo de haver representado as “vontades reprimidas de uma parcela do povo”: “Todos nós temos um lado psicopata, controlado pela educação, pela cultura. Mas imagina isso em 1700 e algo, uma pessoa sem pai, sem carinho de mãe, um cara forte com uma arma na mão. O Cabeleira é isso, essa força natural. Alcançou ápices de ícone, assaltou a igreja em uma época em que as pessoas tinham até medo de olhar para um padre, por exemplo”.


Copacabana noir

A outra graphic novel na qual os profissionais da editora estão mergulhados é “Copacabana”, roteirizada por Lobo -publicitário, diretor de arte e editor da coleção de quadrinhos da Desiderata- e com desenhos do ilustrador Odyr.

Quadrinista e escritor extraem de suas vivências pessoais o rosto, os passos e as surpresas que estarão reservadas a Diana -a protagonista da trama- a cada página da história. “Diana foi inspirada em três pessoas. A primeira foi uma garota que conheci muitos anos atrás, de quem a personagem herdou o nome e a capacidade de manipular os homens. A segunda, de quem ela herdou parte da vida e parte dos sonhos, foi uma puta chamada Carla, que hoje vive na Suíça. A terceira, também prostituta, colaborou com a beleza física”, conta o gaúcho Lobo, 36, que desenvolveu a história durante três anos e também tem nesta HQ o primeiro trabalho publicado como roteirista.

As múltiplas características do bairro, a um só tempo cartão-postal, eterno cenário de boemia e berço de um submundo emoldurado pela av. Atlântica, são os elementos que emergem da narrativa, prevista para preencher 150 páginas e, portanto, render ao redor de cinco meses de trabalho final aos realizadores.

“Copacabana é um lugar mítico, uma síntese do mundo. Aqui, de tudo tem um pouco. Na dinâmica social do bairro, a velhinha judia convive com o travesti, o português da padaria, com o intelectual; o militar, com o traficante; o garoto de rua, com o milionário. Mas a Copacabana de ´Copacabana` mostra a fauna noturna, que sobrevive da cadeia alimentar da indústria sexual. É uma Copacabana sem mar e sem sol, que tem sabor de suor e de chope”, descreve Lobo, que passava as férias de adolescência no bairro, antes de se mudar definitivamente, há quase duas décadas, da Porto Alegre natal para o Rio.

Os encantos de Diana se farão visíveis graças ao igualmente gaúcho Odyr, 39, que, a exemplo de seus companheiros, também tem na série uma estréia: “Copacabana” será seu primeiro trabalho publicado em livro. Ilustrador e quadrinista, Odyr está centrado agora em, sobretudo, “evitar o clichê, uma idéia mental que a gente tem e que costuma estar atrasada 50 anos”.

Recém-chegado à Cidade Maravilhosa, o também diretor de arte, incorporou à rotina passeios fotográficos -com registros mentais ou de câmera- à orla de Copacabana, de olho na paisagem e em seus moradores, de pacatas senhoras carregadas de sacolas de compras a atarefados travestis entre os afãs da vida diurna e os feéricos compromissos noturnos.

“A cidade rende muito. Estou fotografando as ruas, lugares específicos que são importantes para a história. Nada disso é usado depois literalmente, mas dá uma base para quando você vai desenhar. Trata-se de aprender a mentir com fluência.”

(Publicado em 8/1/2007)

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Denise Mota
É jornalista. Vive em Montevidéu.

 
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