CINEMA
O viajante Bernardo Vorobow, por Walter Salles
2

Para que a poesia seja uma atividade integrante dentro de minha vida, ela tem de estar associada aos meus gostos, ao que me dá prazer. A música, o cinema, a fotografia, mas não fazendo da poesia um discurso explicativo destes outros universos, mas se aproximando deles, vendo que metodologias de outros discursos posso utilizar na poesia. É o que acontece, por exemplo, com o poema “Hija del pastizal” (“Filha do capinzal”), que é uma personagem que vai sendo revisitada em versões distintas, como se fossem arranjos musicais diferentes para um mesmo tema.


No momento, você está escrevendo os poemas de “Krakatoa”, que faz parte de um projeto amplo. Você concebe o livro antes, como um projeto, ou depois, reunindo os poemas?

Cristobo: No meu caso, é raro que surjam poemas como unidades sem conexão com um contexto que eu esteja imaginando. Poemas isolados. Em geral, funciona mais como um todo, algo que imagino. No caso do “Krakatoa”, por exemplo, tenho na minha cabeça uma idéia do livro -como se esse livro fosse um mundo com suas próprias leis: uma quantidade de poemas, uma extensão individual, um modo de serem escritos. Para pensar num outro exemplo, cito o caso dos poemas que venho escrevendo para os meus amigos no Brasil (ver abaixo, três poemas inéditos desta série chama “Brazilian Groove”). Esses poemas têm um tom particular, são muito mais discursivos, mais humorados, soltos.

Acho que me sento mais para pensar do que para escrever. Ou para mexer em fragmentos de notas, ou transcrever frases que venho escrevendo. Provavelmente, eu trabalhe mais o conceito geral do que os próprios poemas. Acho que já era assim em “Jet-lag” e em “Krill”. Antes havia outra coisa, que era parecida, mas que se fechava no próprio poema. Digamos que era uma noção, um tipo de sensibilidade. Não sei.

É algo assim: vou inventar um poema. Suponhamos que ele se chame “Lua de Saturno”. Então, começo a escrever palavras ou frases que parecem ter uma afinidade. Imaginemos que escrevo “gás laranja”, “borbulha”, “insonorizado”, coisas assim. Depois, vou armando o texto como um quebra-cabeça, com uma estrutura que me pareça suficientemente tensa, ou suficientemente interessante. Hoje, não é que não seja assim, mas o poema deve obedecer a um todo com mais clareza do que antes.


Você criou no ano passou o blog “escolhas afectivas”. O modelo, como você mesmo revelou, é argentino (www.laseleccionesafestivas.blogspot.com). Como você avalia a atual poesia do seu país?

Cristobo: Eu tenho 35 anos e faz dez anos que não vivo na Argentina. Minhas referências poéticas têm mais ou menos a minha idade: Patricio Grinberg, Andi Nachon, Carolina Jobbagy. São pessoas que, penso eu, modernizaram algumas questões, mas partindo de premissas dadas que são as mesmas que as minhas, ou pelo menos muito parecidas. Tenho pensando muito na minha relação com a poesia de lá. Principalmente, sobre certos grupos que na última década promoveram uma reviravolta “banalizadora” -para dar algum nome- do discurso poético. E apesar de não ter chegado a nenhuma conclusão, percebo que nos encontramos ao longo do caminho. Percebemos que toda a nossa teimosia em negar algo tão evidente não serve de nada. Não quero citar a existência de certas correntes, mas destacar a qualidade que muitos de seus autores têm e o fato de que tenham, conscientemente ou não, contribuído para a demolição de um tom grandiloqüente da poesia.

Veja, na Argentina, há -ou houve, não sei- uma tradição de classe média, na qual a cultura, a formação humanística, sempre teve seu valor. Então, vejo com bons olhos quando uma poeta, como Andi Nachon, mistura estes valores com um “pokemon” em seus poemas. É algo natural, inevitável, são. Se você gosta de alguma coisa, aproxime-se dela, traga-a para o seu mundo. Acho que hoje vivemos a arte de um modo muito sociológico, e às vezes o interesse que uma determinada corrente desperta tem a ver com uma curiosidade histórica do gênero. Como se disséssemos: “Que interessante é o resultado disso: depois de umas tendências oitocentistas neobarrocas ou objetivistas, surge este discurso hedonista!”.

Mas o escritor, o poeta que hoje tem 20 e poucos anos, não vê desta perspectiva. Confunde sua produção com sua pessoa, e supõe que o interesse que gera sua obra é algo inerente ao seu ser. É como um menino que festeja uma graça que ele fez, mas que não sabe exatamente o que é que está funcionando ali.

De qualquer forma, as mudanças acontecem, e os poetas mais novos parecem perguntar: “Por que deveria concordar com as premissas de sua geração?”. A verdade é que eles têm razão. Por que deveriam concordar com a premissa da beleza, ou do bom gosto, ou da polissemia, ou seja lá com o que for? Se não sentem estas coisas como algo próprio, algo que seja prazeroso para eles, não faz nenhum sentido compactuar com elas. E aí muitas vezes chegamos e, para mostrar desprezo ou desinteresse, dizemos: “Mas isto não é poesia”. Uma atitude que não passa de um exercício de poder. Na realidade, todos nós, toda a literatura, toda esta imaginação importam muito pouco. O que estamos pensando é como reagimos diante do andar do tempo.

*

TRÊS POEMAS INÉDITOS

Trópico para Aníbal Cristobo

Não acredite em tudo
o que você diz, e muito
menos no que você escreve. Você escreve

porque não sabe nada, e acha engraçado

construir uma arte da
ignorância
: “agora
você vai colocar uma citação
falsa aqui, alguma coisa

que ninguém imagina: nem
você”. Você

chama isso poesia; e o que você
mais gosta do poema
é não estar ali mais que por
um momento - escreve

só para colocar o travessão
no final. -


Entrevista para Júlia Lopes

O que você
quer saber? Pergunte para
mim: eu

não faço idéia
de nada, mas o poema é sábio. Não
este especialmente, nem
porque seja meu, senão qualquer
poema: o truque - você

domina o truque - e lê-lo
de baixo para cima, sem parar
de falar, pensando em Agamben e na praia, em qualquer
filosofia

onde apareça o sol. Isso

sim: nada de ler

pacientemente. Leia
fechando a porta do fusca, lembrando do seu
DJ, comendo bolo. O poema

atravessará seus óculos escuros, responderá
ao que você nem quis saber: “você

vai pegar catapora, vai esquecer
destes versos, vai
viajar”.-


Apócrifo para Heitor Ferraz

Rapaz, este poema não é pra você; é
seu, chama-se o erro
está na poesia. Escute: o erro
está na poesia; eu vou ter que dizer que o meu lugar

é o lugar do morto, o lugar de quem não
consegue. Você consegue, Aníbal: você escreve
estes poemas que ninguém entende; o erro
está em que eu penso muito na poesia; queria conseguir

que os cachorros fugissem de dentro
de minha cabeça, pro poema. Mas não fogem. A cena
é esta: o poeta morto passa de carro, de
noite

por um bairro onde as casas estão na rua. Eu acho difícil
justificar o morto, Aníbal. Mesmo que você
diga:

“Cria mistério. Sabe?” Não. Não

sei. Quero falar do
poeta burguês, que não entende nada, que quer falar
dessas casas na rua, mas não consegue: a posição de classe
chega primeiro, ditando a culpa, ou o que quer
que seja, Aníbal; você
vai ter que dizer: não estou falando exatamente

da sua vida pessoal, deixe
o poeta burguês, com essas linhas que você
mandou

da para fazer o seu poema. Mas não consigo
convencê-lo, não
é?

(Publicado em 16/2/2007)

.

Heitor Ferraz
É poeta, autor de "Coisas imediatas" (Coleção Guizos, Ed. 7 Letras), que reúne toda a sua poesia até agora.

 
2