CIÊNCIA
O catálogo universal da vida, por Paula Sibilia
2

José Gil: Claro que há filósofos, que há uma filosofia da mente nos EUA, que há pensadores da filosofia analítica. Também há um retomar da fenomenologia, sobretudo em França, muito importante, que se pretende inovador. Entretanto, nenhuma dessas novas correntes que estão a despontar tem a importância ou a grandeza, eu ousaria dizer, do ponto de vista daquilo que pretendem, do pensamento da geração de Deleuze, Foucault etc.


A imigração é hoje um dos maiores medos da União Européia. Como o sr. avalia essa questão?

José Gil: Uma única coisa que lhe posso dizer é que a UE vive na idéia e na realidade de se constituir a ela própria como uma fortaleza. Essa fortaleza sente-se ameaçada de tal maneira, que se houver uma liberalização extrema na admissão de imigrantes estrangeiros, todos os benefícios sociais, econômicos etc. vão por água abaixo. De onde o fato de haver resistências enormes à entrada da Turquia na UE. Erguem-se paredes para que não ntrem os imigrantes de África e dos países da Europa do Leste, que não estão integrados na UE.

Tudo isso faz com que a idéia de uma Europa fortaleza se consolide, apesar das forças em contrário que existem, que são minoritárias e menos importantes. Penso que isso faz parte de todo um modelo de sociedade. Por que há essa onda, esse assalto à fortaleza vindo de África e vindo de outros países? Porque, de uma maneira global, vivemos em uma economia capitalista, e é essa economia que faz com que o nível de vida europeu seja a riqueza da Europa. Como contrapartida, temos a pobreza de África. Isso é um problema global, e que no Brasil se conhece muito bem, pois, realizaram-se fóruns sobre a globalização. Isso só pode ser pensado globalmente.

A globalização impõe esse pensamento global, e esse pensamento global passa por um pensamento que não apareceu ainda. Depois do afundamento, do desmoronamento parcial do marxismo e do pensamento de toda a esquerda na Europa, não houve nada que os substituísse. Toda a esquerda européia está a viver de restos, de pequeninos restos de pensamento marxista-socialista-democrático, mas não tem pensamento. À direita, o capitalismo não precisa de qualquer pensamento, é a própria realidade.

Globalmente é preciso um pensamento da esquerda, um pensamento que pense um outro mundo. Precisamente Deleuze ajuda-nos com fios de pensamento, para que um dia apareça um que se possa opor e propor novas soluções globais para um mundo globalizado.


A pressão por resultados que é imposta pela União Européia pode ser de fato uma forma de choque contra a não-inscrição?

José Gil: O movimento de não-inscrição não é só português, é geral, até porque nós estamos a viver em uma sociedade cada vez mais pobre em elementos culturais e afetivos. Vivemos um progressivo anestesiamento afetivo, que modifica completamente as relações humanas, as relações da sexualidade, as relações de amor e amizade, as relações de camaradagem e de companheirismo.

Esse empobrecimento é sinal de que qualquer coisa é excluída da afetividade, qualquer coisa que vai pertencer ao campo da não-inscrição. Nós não inscrevemos porque não sabemos exprimir e expandir a nossa afetividade, porque ela já não existe em relação, por exemplo, aos meus camaradas de trabalho. Em um escritório onde deveria haver um clima de afetividade muito forte porque somos humanos, não há.

A simples realidade do escritório é muito antiga, aparece em Kafka, depois em personagens de Beckett. Essa anestesia afetiva é da ordem da não-inscrição. Por outro lado, e em contrapartida desta não-inscrição que nos empobrece terrivelmente, há uma insistência e uma focalização em certos dados que devem ser inscritos e que vão condensar e substituir. Vão aparecer no lugar de tudo que nós perdemos na não-inscrição. E isso é o que chamam de dados, os resultados quantificados, a avaliação, o homem avaliado.

Nós somos avaliados segundo certos critérios, e a avaliação é da competência, dos parâmetros, o que vai transformar a subjetividade do século XXI. O homem do século XXI será o homem avaliado. Isso é uma transformação da subjetivação que me parece catastrófica, pois você vale segundo os critérios de avaliação. Você pode ter um emprego segundo esses critérios de avaliação, você pode ter uma mulher e filhos, uma casa. Segundo os critérios de avaliação, você pode ter ou ser qualquer coisa. E isso já não é da ordem da inscrição, é de uma falsa inscrição. É da ordem da marca, pois, o homem avaliado é um homem marcado, como se marca a besta.

A influência da UE nisso ainda não é mensurável, mas é certo que a UE está com a sua potência econômica e política, se bem que não forme uma entidade política ainda. Está a ter um peso extraordinário na transformação subterrânea de Portugal, pois não se vê ainda bem. Nós estamos a perder cada vez mais pedaços de soberania aqui e ali, e vamos chegar ao ponto em que, espero que não, a soberania será puramente simbólica. E quem mandará nos programas do ensino superior europeu, como já manda, é Bolonha, quem mandará na economia, como já manda em parte, são as decisões de Bruxelas etc.


A comunicação social em Portugal está realmente passando por um processo de “berlusconização”?

José Gil: Não sei se está a passar, mas que a tendência para a “berlusconização” se manifesta fortemente, manifesta-se. É uma tendência muito má, estou a falar sobre a mídia televisiva. Há um pequenino esforço de melhoramento nos canais oficiais, mas no geral a televisão portuguesa é muito má, mas a televisão européia também é. A diferença é que Portugal é muito pequenino, e em grandes países como França, Inglaterra, Alemanha e Espanha podem haver bolsas de excelência, assim como no Brasil.

O Brasil é um enorme país e possui bolsas de excelência, todo o resto pode ser cultura de massa criticável, mas há bolsas. Em Portugal, o espaço para bolsas de excelência na televisão quase não existe, e é verdade um bocado para o resto. Estou a pensar na investigação, a nossa massa crítica de inteligência é pequena.


“Ter opiniões é estar vendido a si mesmo./ Não ter opiniões, é existir./ Ter todas as opiniões é ser poeta.” Essas três linhas foram extraídas do “Livro do Desassossego”, de Fernando Pessoa. Por que tudo é sem intensidade em Portugal?

José Gil: Pessoa já dizia que os portugueses não eram um povo de intensidades, como os espanhóis. Portugal é um país que tem horror ao vazio, não gosta do vazio, tudo está cheio. As decorações das casas estão cheias, as paredes estão cheias, o que é preciso é encher uma vida, encher de pequeninas coisas, não de grandes coisas, porque, se as coisas são grandes, acaba-se com a síndrome de Liliput e aparece o vazio.

Portanto, enche-se uma vida com pequeninas ocorrências que não chegam a ser acontecimentos, porque o acontecimento poderia ser grande, e isso é uma ameaça. Realmente esse povo não é de intensidades, porque preenche seu espaço interior e exterior com uma repetição de presenças de pequenas coisas fragmentadas, mas povoando o espaço inteiro, ao ponto de impedir um fluxo de intensidade, e não há intensidade sem fluxo.


(Publicado em 2/4/2007)

.

Renato Mendes
É correspondente internacional em Lisboa e escreve sobre cultura e atualidades.

 
2