CINEMA
O viajante Bernardo Vorobow, por Walter Salles
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ensaio
LITERATURA

O fio da meada
Por Wilson Bueno

Uma poética dos recomeços em dez narrativas, da “Metamorfose” de Kafka ao “Grande Sertão” de Guimarães Rosa

Do recém-lançado “O Sol se Põe em São Paulo”, do sempre notável Bernardo Carvalho, em que uma pergunta (“O senhor é escritor?”) deflagra toda uma metaescritura de alta voltagem, à neopalavra “Nonada”, que pode ser tudo e nada, através da qual, a partir dela, Guimarães Rosa compôs uma das culminâncias romanescas da língua, as narrativas -em qualquer literatura- não dispensam nem poderiam dispensar nunca, um começo.

Claro, dirá o leitor desavisado, sem início inexiste meio e nenhuma coisa desdobra-se até o seu inevitável desfecho, o que sugere uma assertiva acaciana por excelência, para lembrar o tautológico Conselheiro Acácio, do velho Eça, senhor e dono das mais risíveis obviedades.

Acaciano? Nem tanto -fundamentais uns, frágeis e canhestros outros, contextualizados todos, será sempre através de seus preâmbulos- e estamos falando de artesania literária que a prosa -de qualquer tempo- se propõe a contar uma história, mesmo que esta história seja uma anti-história, como em Beckett, por exemplo, ou severa alegoria da condição humana feito a emblemática novela “A Metamorfose”, de Kafka.

Na breve amostra a seguir, de clássicos inícios de contos, novelas e romances -que não pretende evidentemente esgotar o tema- intentamos uma ligeira panorâmica de algumas célebres preliminares narrativas. Todas, ao menos, e nenhuma delas de modo gratuito, umbilicalmente ligadas aos enredos que provocam, de maneira seqüencial, admiráveis histórias protagonizadas pelos humanos para denunciar, no humano, tudo aquilo que seja drama ou comédia, pastelão ou opereta, zen ou carnaval, sob o cambiante céu que nos protege.

O fio da meada. Uma poética dos recomeços. Ousado, mas indiscutível enunciar que um escritor estará sempre recomeçando o outro, do passado, do presente ou do futuro. Na exata medida em que a velha “ars litteraria” é moto contínuo cujo primeiro -e reiterado movimento- é sempre o mesmo: o de pedir licença ao leitor para contar que tudo -ontem, hoje ou amanhã- era uma vez.

Vamos a eles, pois, aos começos dos recomeços e às suas rompantes delícias capazes de recriar, no mínimo, mundos inusitados.


1. “O Sol se Põe em São Paulo”, de Bernardo Carvalho

Não vejo nenhuma metáfora no que eu digo. É como se tudo estivesse na sombra. Houve um tempo em que eu freqüentava um restaurante obscuro, que não existe mais, chamado Seiyoken, numa rua mal-afamada da Liberdade. A comida era boa, o preço honesto e o serviço simpático, para dizer o mínimo, já que nunca nos expulsaram. Quase sempre havia lugar, e não passava pela minha cabeça, nem pela dos meus colegas de faculdade, que a algazarra que costumávamos fazer depois de uns copos de sakê e de cerveja pudesse incomodar os outros clientes. Éramos muito convencidos e cegos para pensar duas vezes antes de levantar a voz e discorrer sobre o que não interessava a ninguém, a começar pelos garçons, que não só ignoravam o tom das nossas discordâncias ou, pior, da nossa autocomplacência, como aproveitavam o fato de estarmos engasgados com o que nós mesmos dizíamos, para saírem da sombra que nos envolvia e aumentava conforme também avançavam as horas e a nossa bebedeira (sem que percebêssemos, iam apagando as luzes) e encherem os copos vazios, sem que se fizessem notar, garantindo assim uma gorjeta maior no final da noite e do nosso porre. Quando dávamos por nós, já estávamos no escuro.

(...) Uma vez, lá pelas tantas, quando já não restava ninguém no restaurante, a velha que eu nunca tinha percebido saiu de trás da caixa registradora onde passava as noites -deve ter se levantado e se aproximado furtivamente, porque só a notei quando já estava ao meu lado- e foi direto ao assunto: “O senhor é escritor?”.

Está aí um começo de romance que não começa, em estrito senso, no começo, ainda que se mostre indispensável o “pré-começo” em que se funda o começo deste extraordinário “O Sol se Põe em São Paulo”, de Bernardo Carvalho (1960).

Importante a descrição da “ambiência” de um restaurante obscuro da cidade de São Paulo, onde, já como matéria de memória (o velho Seiyoken, numa rua mal-afamada da Liberdade, não existe mais) para que, em continuidade, se chegue à indagação-chave pela qual a descarnada metaprosa de Carvalho se inaugura alguns parágrafos a seguir -“O senhor é escritor?”- pergunta a velha japonesa, proprietária do restaurante, ao retardatário cliente que, ainda no estabelecimento, é lançado, por força desta pergunta-limite, ao abismo da fábula.

Que nome dar a isto que se faz trama praticamente à revelia de quem está obrigado, daí em diante, a contar uma história -por mil-e-uma razões que, aqui, não vem ao caso enunciar? Enredado pelo próprio enredo -o que sugere um pleonasmo e igualmente por mil-e-uma razões não o é, o narrador constitui, num surpreendente “revirão”, a vítima preferencial do relato- e não só pelo que se vê impelido a contar, misturando o passado, o presente e talvez o futuro, esta matéria aérea pela própria natureza.

Vítima, sim, o narrador, mas também algoz, porque capaz de engendrar, a partir de espaços díspares e tempos diversos, uma escritura múltipla, no limite da expressividade a mais exacerbada. Uma fabulante e fabulosa característica do autor brasileiro aqui enfocado, no meu entender um dos mais criativos de sua geração.

“O senhor é escritor?”, está aí o insubstituível exemplo de um relato que -literal e figurativamente-, jamais se realizaria sem este brilhante recomeço.

Recomeço? É que toda autoria literária, sabemos, para que exista, ou reexista, só acontece se, de modo direto ou indireto, tal pergunta seja cabalmente respondida. Caso contrário, será só uma titubeante resposta...

É como se em “O Sol se Põe em São Paulo”, um hipotético leitor, para abusarmos do adágio popular, cutucasse onça com vara curta. Não se mexe com quem está quieto, mormente se quem está quieto é, ou pretende ser, no caso, um escritor.


2. “Do Amor e Outros Demônios”, de Gabriel García Márquez

Um cachorro cinzento com uma estrela na testa irrompeu pelos becos do mercado no primeiro domingo de dezembro, revirou mesas de frituras, derrubou barraquinhas de índios e toldos de loterias, e de passagem mordeu quatro pessoas que se atravessaram no seu caminho. Três eram escravos negros. A outra foi Sierva María de Todos los Ángeles, filha única do marquês de Casalduero, que fora com uma empregada mulata comprar uma fieira de guizos para a festa de seus doze anos.

Neste início de uma das obras lapidares da literatura de “nuestra” América, “Do Amor e Outros Demônios”, do colombiano Gabriel García Márquez (1928), é como se fulminante zoom, realizado por uma hipotética câmera cinematográfica, atalhasse do nada (do vazio?) direto para a álacre movimentação dos becos de um mercado a céu aberto, baixo o pó e a “inolvidable soledad” de uma perdida cidade caribenha. Perdida no espaço e no tempo, mas não perdida na memória com que, a mão do mestre pinta, a tintas fortes, logo de cara e de começo, o que vai ser uma história.

Estratagemas, por sua sutileza, os mais audazes, aprisionam o leitor, sem retardo nem delongas, desde a primeira linha. Três escravos negros são mordidos pelo inquietante cão cinzento com uma estrela na testa, que irrompe pelos becos do mercado. E o que isso importa? Pela brevidade com que o autor grafa o “sentido”, é indiferente que os negros tenham sido mordidos ou não.

Outro ardil: são quatro as vítimas do cachorro, cujo principal papel parece ser o de introduzir no relato um ponto de inquietação, ainda que se constitua elemento de quarta ou quinta categoria na escala de importância do que se conta, mas não do que se vai contar... Eis, senhores, nítida, aí, a poética do começo, aliás uma das grandes virtudes do Prêmio Nobel colombiano. Quem esquecer há-de o início, entre outros inícios de mesmo quilate, de “Cem Anos de Solidão” ou de “Crônica de Uma Morte Anunciada”?

Destacada do parágrafo inicial relevante, e singular, Sierva María de Todos Los Ángeles, a filha única do marquês de Casalduero, é aqui o que importa. Mordida também foi pelo cachorro suspeito. Suspeição que se confirma logo a seguir, no texto, quando se dá a morte dos escravos, uma vez que o animal era portador da hidrofobia.

Um cachorro louco, senhores, introduz no começo do recomeço, o pasmo e a paranóia, e embaralha entre barraquinhas de índios e toldos de loterias que vão ao chão, as referências com que a novela começa, já envenenada pelo engenho a um tempo mágico e funesto de seu autor.

E é nesta atmosfera que se dá o prenúncio de que alguma coisa, algo ou alguém, a exemplo do cachorro cinzento, também irromperá, sem aviso, narrativa adentro. Marqueses, empregadas, mulatas, índios, frituras, becos, mercado, guizos, tudo se encaminha para a festa dos doze anos da mimada donzela, fruto apodrecido, desde a origem, de uma aristocracia arrogante e melíflua; cruel e fastidiosa. A suar, baixo os invariáveis 40 graus centígrados dessas aldeias à fímbria dos mares latinos, sufocantes e sufocadas.

Seguir a história se impõe, assim, como um imperativo. Impossível fugir -acaba de se agregar ao relato uma necessidade tão curiosa quanto aterradora: a de saber, a qualquer preço, o que se deu com Sierva María de Todos Los Ángeles, a única filha do marquês de Casalduero.


3. “Quincas Borba”, de Machado de Assis

Rubião fitava a enseada - eram oito horas da manhã. Quem o visse, com os polegares metidos no cordão do chambre, à janela de uma grande casa de Botafogo, cuidaria que ele admirava aquele pedaço de água quieta; mas, em verdade, vos digo que pensava em outra cousa. Cotejava o passado com o presente. Que era, há um ano? Professor. Que é agora! Capitalista. Olha para si, para as chinelas (umas chinelas de Túnis, que lhe deu recente amigo, Cristiano Palha), para a casa, para o jardim, para a enseada, para os morros e para o céu; e tudo, desde as chinelas até o céu, tudo entra na mesma sensação de propriedade.

– Vejam como Deus escreve direito por linhas tortas, pensa ele. Se mana Piedade tem casado com Quincas Borba, apenas me daria uma esperança colateral. Não casou; ambos morreram, e aqui está tudo comigo; de modo que o que parecia uma desgraça...

O argumento, o perfil, a vera “interpretação” através da qual um personagem pode se tornar personagem de si mesmo, “persona” e simulacro, já garantiriam a este célebre preâmbulo, o do romance “Quincas Borba”, de Machado de Assis (1839-1908), espaço privilegiado dentro de um possível cânone da “poética dos recomeços”...

Mais vale o que não se diz do que aquilo que se diz expressamente. Aqui, pelo viés de sofisticada ironia, o que se glosa não é propriamente o que se goza. O sujeito da blague, do chiste, da desfaçatez e do ardil retórico, não é o sempre Rubião, professor esforçado, mas o neocapitalista, a deixar-se enlevar pelo gozo perverso não de “pertencência”, mas de seu oposto -o de proprietário, o de “dono” e “pertencedor”.

Dois ou três toques, sutis alusões -nem precisa mais-, e estão ali, ainda outra vez, desde o começo, que também vamos encontrar em Sterne e em Xavier de Maistre, o puro começo do recomeço, as nunca assaz louvadas tintas da galhofa e da melancolia.

O personagem se impõe desde sempre -preciso e recortado na paisagem da baía da Guanabara, ele e sua janela, mirante onde perpetua o olhar estendido à luminosa manhã carioca. Isso num texto cujo início, diga-se logo, estabelece um tão minucioso quanto multifacetado jogo-de-olhar.

Rubião olha para si, para as chinelas, para o jardim, para a enseada, para os morros e para o céu. Num passeio cinematográfico por excelência -muito antes da vulgarização do cinema-, Machado reconstrói os “deslocamentos” do olhar com amor ao detalhe digno de um Hitchcock. Puro cinema, puro movimento nascido das dobras da linguagem, dos seus entre-vãos, do jogo matreiro com que a palavra, sinuosa, mais oculta que expõe, mais dissimula que revela. É o jogo brincante de gato e rato a desvestir, implacável, nossas mais fundas mazelas. Alta marca, aliás, de Machado de Assis.

O amigo recente lembrado no texto, Cristiano Palha, fornece bem a medida do Rubião novo-rico, que, de ora por diante, se dará inteiro -sociológica e espiritualmente-, no entrecho do romance, feito uma aranha ambígua e solerte.

A ternura, a compaixão, e por extensão, a solidariedade humanas, também aqui, neste começo antológico de relato -referencial e definitivo-, estão como que suspensas, na referência sensível e quase imponderável de um caráter, desde já singularmente ruinoso, marcado pela mediania de um século que se ainda não afundou, muito em breve afundará de vez.

Rubião fitava a enseada e eram oito horas da manhã. Precisa dizer mais? Está aí o começo, como está aí, também, o ardiloso recomeço do fim.

 
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