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audiovisual
CINEMA
A amazona de Salta ![]() Cena de "O Pântano", filme da argentina Lucrecia Martel
Divulgação Uma conversa com a diretora Lucrecia Martel sobre sua terra natal, piscinas, religião e o seu novo filme, “La Mujer sin Cabeza” Lucrecia Martel aprendeu os primeiros truques de câmera filmando os irmãos em casa. Durante a infância em Salta, cidade natal da diretora localizada no norte da Argentina, ela passava horas com a filmadora ligada na cozinha, registrando as andanças dos parentes. “As questões mais sutis do cinema eu aprendi ali. O espaço e o som em off, a hierarquia narrativa dos personagens e a forma com que, por educação, se ocultam as emoções”, revela Martel em entrevista a Trópico, durante sua passagem pelo Brasil para dar uma palestra na Academia Internacional de Cinema de São Paulo. Até os 14 anos, ela brincava com os irmãos de se embrenhar no mato feito uma amazona, vestindo sempre “um cinto com revólver na cintura e circulando pelo telhado da casa e no meio das árvores”. Não era uma cinéfila de carteirinha quando menina, mas gostava muito de filmes de piratas e faroestes. Foi desse ambiente típico de classe média que Martel resgatou as recordações para montar o cenário particular do seu cinema. Seus dois longas-metragens de estréia, “O Pântano” e “A Menina Santa”, foram rodados na cidade de Salta. E não é apenas uma escolha aleatória. Ambos os filmes carregam uma atmosfera de estranhamento, seja pelo caráter misterioso do realismo projetado na tela, pelos barulhos enigmáticos ou pelo aspecto sensual que envolve o corpo dos personagens. Martel fala da cidade onde nasceu, em 14 de dezembro de 1966, como um “lugar inexplicável”. Diz que encara sua antiga casa como um destino do qual “necessitamos nos afastar e que ao mesmo tempo necessitamos voltar desesperadamente”.
Apesar de ter se mudado aos 19 anos para Buenos Aires, onde cursou a faculdade de Comunicação Social na Universidad de Buenos Aires (UBA), ela conta que sempre volta a Salta quando está escrevendo alguma coisa. “É um espaço que condensa os afetos, os medos, todas as idades que vivi e a comida que mais me agrada.” Dos elementos mais notórios extraídos de sua época de infância, destaca-se a relação com a religião e o questionamento da devoção incondicional dos personagens provincianos. Quando todos alardeiam a recorrente aparição da Virgem numa caixa d’água, em “O Pântano” (premiado no Festival de Berlim de 2001), Momi (a jovem atriz Sofia Bertolotto) resolve olhar de perto aquilo que soava como um milagre. Ao retornar a sua casa, já no fim do filme, senta-se na piscina junto da irmã e conta que não conseguiu ver nada. A mesma reticência a respeito do meio católico aparece no seu projeto seguinte, “A Menina Santa” (2004), em que um erotismo enigmático, perpassado pelo mito, começa a aflorar entre personagens banais num hotel, durante um congresso de medicina. “Cresci em um meio católico, como a maioria dos latino-americanos. Na adolescência, me interessei muito pela teologia e, quanto mais seriamente uma pessoa se interessa pela teologia, mais se desapega das religiões, por sua mesquinhez”, ela diz. Apesar de o pai ser ateu, Martel viveu muito próxima dos hábitos fanáticos da mãe, que, segundo ela, “tinha uma admiração mais perto da devoção popular do que propriamente da hierarquia da igreja”. Não é com as instituições religiosas que Martel está preocupada, mas com a manifestação da religiosidade no indivíduo e no caráter mágico que envolve essa relação. Existe nos filmes da diretora um sentimento mítico por detrás do realismo sisudo do cotidiano que ela mostra.
A água e especialmente as piscinas têm um papel de destaque na obra de Lucrecia Martel. São apresentadas ora como ponto de encontro da família, ora como uma estância abandonada. Contrasta, sobremaneira em “O Pântano”, com o clima de calor e suor instalado na casa de campo. Apesar de negar que seja uma obsessão, Martel reconhece que a piscina é um lugar interessante por sua ambigüidade. “É um espaço onde a nudez e a promiscuidade estão legitimadas. Um espaço de prazer privado numa sociedade cheia de exclusões. Esta é a própria natureza de uma piscina”, afirma. E completa, criticando o caráter excludente que a piscina pode ter. “Sou a favor das piscinas municipais. Penso que ter uma reserva de água só para um punhado de pessoas é uma idéia mesquinha.” É assim que ela retrata a piscina na casa de campo do seu filme de estréia: sempre imunda e abandonada, sem possibilitar o banho da família, que circula pelas bordas arrastando cadeiras e tomando vinho. Por outro lado, Martel expõe como é possível acontecer uma integração entre a família de classe média e os amigos da ajudante Isabel (interpretada pela atriz colombiana Andrea López), quando a turma se junta para brincar em um grande reservatório de água turva, próximo de uma barragem. A “nudez legitimada” é explorada também no âmbito familiar, com insinuações incestuosas por trás das cortinas. Os personagens estão sempre em contato íntimo de pele, espalhados na mesma cama, ou tomando banho juntos. Há sempre um aspecto sensual ocultado na rotina da família. “Uma família é um conjunto de corpos que compartilham muitas horas nos mesmos espaços e, por razões sociais, têm vetado o desejo entre si. Nunca vi um cenário tão frágil e interessante”, diz Martel. Com 40 anos e agora longe de figurar como uma novata e abre-alas do novo cinema argentino, Lucrecia Martel aprumou o seu terreno e pretende experimentar outras temáticas. Seu mais novo projeto, o terceiro longa da diretora, “La Mujer sin Cabeza”, está prestes a fechar as contas de produção e ter suas filmagens iniciadas. O roteiro fala de uma mulher que acidentalmente atropela um cachorro na rua. Esse episódio desencadeia nela um sentimento crescente de estranhamento em relação às pessoas com as quais convive. É um thriller mais uma vez rodado na cidade natal da diretora. “Esta história e um outro filme de terror que estou escrevendo se passam em Salta”, conta. Martel também está trabalhando em um projeto de filme infantil que, segundo ela, “seguramente será rodado em estúdios”.
. Fernando Masini
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