CINEMA
O viajante Bernardo Vorobow, por Walter Salles
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I
Sobretudo conheceu alguém
num dia terminado que dizia roubar
frases pela rua e o homem-sanduíche
ziguezagueando em sua frente
muito antes de poder baixar ao
metrô (
o que parecia apenas o pesadelo
da primeira
noite:
no corredor o descascado
da parede e depois esquece
tudo esperando uma resposta com
seus olhos longos
e duros)
não que saiba
muito bem de onde chegam e se entra
na avenida certa pensa que do outro
lado na horizontal a plaça reial está
cheia, os movimentos seguem
a mesma direção
só que em paralelo. dizia
que as frases pegava para outro contexto.
ia indo com meias vermelhas girava
o pescoço 180⁰ na noite mais curta
do ano: pela costa se pergunta porque
foi embora justo quando podia ter
dito o certo,
tinha um carrossel na cabeça e o mais
apropriado seria não continuar fixada
nos gêmeos (
mientras uno decía
¡que hermosa estás!)

II
toda a vida uma reação real
para tornar real uma metamorfose. e c. tarkos
em montparnasse sem dizer, se esconde
atrás das árvores (a basca lhe acena
de outro poema). no bolso,
amarelo e em formato pequeno,
l’argent: a medida exata
para explodir o mundo
e fugir de tudo

Podemos ver como a poeta trabalha, com fôlego narrativo (tão caro à mesma), porém de fisionomia fragmentária, cortada e escorregadia, por sua energia poética e seus descompassos, colocando muitas vezes o verso na parede à busca de outras impressões.

Ao imaginar o curso (árduo e inominável a todo momento) da cidade variável em que se movem os sentidos, o poema trama seu território, seus espaços, ainda uma vez: deslocamentos. E esses espaços não são apenas concretos, pois as muitas vozes que habitam os poemas também criam outros cômodos habitáveis, mas sempre conflituosos.

De alguma forma, acredito que essa tensão constante que Marília cria encontra ecos na poesia de Lawrence Ferlinghetti (penso num poema como “For all I know maybe she was happier...”: “For all I know maybe she was happier / than anyone / that lone crone in the shawl / on the orangecrate train / with the little tame bird / in her handkerchief / crooning / to it all the time / mia mascotta / mia mascotta / and none of the sunday excursionists / with their bottles and their baskets / paying any / attention / and the coach / creaking on through cornfields / so slowly that / butterflies / blew in and out”), por supor um espaço, na verdade incorrigível e imutável, pode ser gerado por uma explosão e fuga ou por uma simples e delicada distração.

Cito um outro poema, o belíssimo “Ponto zero”

desde que partiu, o dia ganhou
cinco horas e o corredor cor-de-
vinho é estreito, mal cabe nas escadas
espiraladas que
em seqüência
definem o tubo de dias
para chegar.
o que restou foi
uma cidade dobrada a partir do
chão:
no alto caminha em linha
reta. embaixo só lhe resta
desviar de tudo (sabe apenas que precisa
chegar ao
point zero, de onde são
medidas as distâncias, onde
tudo começa, mas nunca encontra
a marca, tudo se dissolve quando
se aproxima)
queria que estivesse aqui
não diz porque dizer é um
deserto aberto sobre a
mala. queria que
pudesse ser real mas não é. tudo
no lugar de sempre, quase assim
tão objetivo.

Neste poema, Marília Garcia reitera a movimentação (não sem os entraves observados) por qual passa todo livro, quase que se contorcendo, poema a poema, “porque um dia esse lugar chega/ a ser” (p.73). Mas, ao mesmo tempo, absolvendo-se, intermitente, prescrevendo a si, como imagem da experiência que parece querer abolir e uma certa renúncia ao que pode ser banal, presenteando a si mesma com o mais charmoso silêncio, já que “não diz porque dizer é um/ deserto”.

Este “20 Poemas Para o Seu Walkman” é um livro em que as palavras “imaginação” e “tensão” podem ser usadas em seus sentidos mais nobres. Ambas criam espaços para novas sondagens poéticas que a autora propõe, com muita felicidade. Aqui, o lirismo difícil de Marília Garcia é também uma saudável tomada de posição estética e crítica. E como precisávamos disso neste momento.


Uma cadela elegante, necessária e latindo alto

“No pulso esquerdo bang-bang
Em suas veias corre muito pouco sangue
Mas seu coração balança a um samba de tamborim
Emite acordes dissonantes
Pelos cinco mil alto-falantes”
(Caetano Veloso)

Ricardo Domeneck é um poeta raro, desses que aparecem de tempos em tempos e, de cara, se tornam imprescindíveis à situação na qual aparecem.

Portador de um pensamento refinado sobre a poesia contemporânea e uma não menos refinada escrita, Domeneck diz, neste seu segundo livro, a que veio: agitar e usar o panorama. Além de escrever o que poderíamos chamar de poemas-teóricos e ensaios pertinentes e corajosos (num ambiente venal e medroso, que é o literário), traduz alguns autores quase que completamente ignorados no Brasil, como Jack Spicer, Lyn Hejinian ou Rosemarie Waldrop, demonstrando assim a abertura de seu foco e sua independência com relação às maçantes mesmices da imensa maioria das escolhas da geral.

Neste “a cadela sem Logos” -de cara dois dedos de prosa com “O Cão Sem Plumas” (1950), de João Cabral de Melo Neto, não sem deixar uma ironia ácida corroer o diálogo-, o autor propõe uma escritura sem referências explícitas, mesmo pondo, a seu modo, suas “iluminations”, isto é, se o impacto rítmico de sua poesia pode encontrar ecos em poetas como Gregory Corso, da Beat Generation, isso não quer dizer que Domeneck é um poeta beat (o que, “per si”, seria lamentável e extremamente lugar-comum), mas sim que ele soube ler o poeta americano e jogou outras luzes sobre essa possível conversa. Essa pulsante corrente sanguínea da poesia beat caminha, sim, aqui na carne desta “cadela”, mas, com outro coração e sem exageros.

Em sua seção primeira, desde o emblemático título, “Dedicatória dos joelhos”, o autor nos coloca em uma rede de possibilidades, em que o “corpo” é a sua principal personagem (desde o livro de estréia, “Carta aos Anfíbios”). Este “corpo” veste-se de múltiplos movimentos, pois, vivo, imprime alguns rumos chave, explorados à exaustão pelo poeta, em seu dentro-fora constante: identidade, realidade, acaso, atenção e contexto.

Esses rumos criativos estão calcados numa requintada e complexa movimentação entre semântica e sintaxe. Está parte do livro é um poema longo, dividido em fragmentos que se ligam, têm organicidade, e cuja vertigem da leitura leva (exige), muitas vezes, o leitor à leitura em voz alta -tornando, muitas vezes, mais aguda a vertigem. Vejamos o fragmento “num vôo sobre o” (p. 15):

num vôo sobre o
atlântico espera-se
muita água mas
abre-se a janela
aleatoriamente para
ver uma ilha
vulcânica “no meio
do nada” alguém
ousaria dizer não
se tenta o acaso o
nascimento desce e as
águas espelham-se pelo
chão para merecer
um nome ele diz
que beberia as águas
do atlântico no
café-da-manhã tanto
sal impede o
nascimento o
mundo simpático não
há ironia no acaso só
na vingança da
vontade o chão
é fértil demais
para o acaso
assim ele
jorra por todos
os cantos detenham-no
vontade nome grito

Nesse poema, pode-se notar como o poeta trabalha sua sintaxe, embaralhando a leitura, dando-lhe uma velocidade incrível e forjando novas possibilidades de respiração -como quer, aliás, o poeta francês Claude Royet-Journoud. Essa sintaxe “estranha” mostra-se incrivelmente funcional, pois eleva a carga semântica às maiores alturas e jamais fecha o sentido, propondo, ao contrário, um desmonte da ordem lógico através de justaposições.

No belo “o desperdício exige tanta” (p. 18), o poeta mostra como trabalha meticulosamente o poema como pensamento, não só um jogado de palavras sem noção sobre o desprotegido papel em branco, e consegue extrair dessa beleza difícil um lirismo raro (que em algum momento parece tocar aquele momento brilhante da poesia de Régis Bonvicino, de “Ossos de Borboleta”, 1996, em que o poeta paulistano põe em xeque a forma através de suas experiências lingüísticas e lhe imprimindo um não-lugar ou uma posição "em torno do quase nada", ponto onde a linguagem exala novas percepções críticas):

o desperdício exige tanta
energia e disciplina o
sacrifício começa na
garganta o sangue
conhece o aproveitamento
do oxigênio segue o
intercâmbio entre
interno e externo
da nutrição da
chance do
acaso crescem
o nome o júbilo
o jornal prediz um
bom dia todos os
meus possíveis acidentes
alegram-se o pássaro
a folha o pé escolhem
alheios o local de
pouso o chão os
encontra sempre
sinto falta das
revelações da
vontade

Com muita felicidade, as escolhas do poeta botam o leitor num ilusório exílio, já que propõem outros espaços, outro ritmo, outro compasso, outra experiência de linguagem. A poesia contemporânea acostumou-se (claro que há exceções, e estas mantêm, deo gratia!, a chama acesa) a emulações, a manter-se no mesmo local, com medo de sair da casa dos pais, requentando as mesmas fórmulas que os mestres de outrora (Bandeira, Drummond, Murilo, João Cabral, Haroldo de Campos) empreenderam com extraordinária propriedade e resultado.

Essas possibilidades foram totalmente exploradas? Essa é uma questão que se resolve com continuação reflexiva, não como cópia. Na era da “emulation literary society”, acostumou-se às mais entediantes cópias procedimentais e tudo que difere, bota abaixo os muros (“Mas todo muro é um tanto/ confuso.”, escreverá mais adiante, à p. 98) e abole (ou confunde?) as fronteiras sejam lingüísticas, sejam geográficas. E, não tendo território fixo, essas fronteiras são ilusórias. Então, o poeta funda um outro território, lapidando e vivificando o tesouro coletivo: a língua -arrebentando o discurso e sua escritura, a razão e sua retórica.

Na segunda seção, “Poema começando ‘Quando’”, os poemas são um tanto quanto mais independentes, porém, ainda assim, retomam as questões anteriores -formulando suas insistentes e consistentes opções de escolha (a forma, o elogio da metonímia, a sintaxe como aparelho respiratório e sistema nervoso, a contextualização).

Os poemas são dispostos como faixas num CD, com seu tempo de leitura e tudo. O poeta continua suas questões teóricas e estéticas (“O trabalho árduo de convencer/ a fruta/ de que já se encontra madura”, p. 111), questionando a “camuflagem falha”, parece a todo momento nos propor algo que difira, que se concentre dentro de novas possibilidades, já que “o que não / há / são palavras / 0/ Km”.

Para encerrar, Domeneck escreve uma espécie de ensaio-poroso (uma conversa textual com a magnífica “ventilated prose” de Augusto de Campos?) contendo suas idéias, trata-se de “Composição como contexto”. Com a mesma vertigem dos poemas, este texto-coisa repõe, ainda em mais uma estação, as idéias que o autor tanto preza.

Despejando conceitos e contextos, o texto vai deslocando-se muito rápido, e o leitor se sente numa espécie de leitura de “drippings”, gerando muitas informações ao mesmo tempo -“Cada momento sabe exatamente do que precisa para ser precisamente o que já é” (p. 117); “(...) o século XIX não é uma opção” (p. 118)-, para, a certos cortes de pensamento, pequenas pausas conclusivas, ejetar suas pedras às mais frágeis vidraças: “Latitudes, longitudes, contextos inúmeros. Nova opção a cada esquina. A multiplicidade do contexto não impede o indivíduo, gera-o” (p. 118); “Como Cristo pra Lázaro, o contexto para o vocábulo” (p. 119).

Mostrando muita personalidade neste belo texto, o poeta não abre mão de sua conjuntura: “E eu não hei de mudar a temperatura de minha vida só para agradar a gente que não gosta de histórias não-tropicais” (p. 121). E assume claramente os riscos de sua arte: “O risco do entusiasmo, do impulso adiante, do peito aberto” (p. 121). E, então, quando um conhecido lhe diz que “entusiasmo” significava “estar possuído pelos deuses” ou “ser habitado pelos deuses”, e as coisas, diria Tales de Mileto, estão cheia de deuses, perguntamos: será que basta apenas soprar-lhes às narinas (dos deuses habitantes das coisas todas) o oxigênio de nossas aspirações? Não, pois deve-se ter “o próprio sangue como maquiagem. Björk recorrendo à própria voz para os efeitos especiais em seu ‘Medulla’. Sim, a própria voz e o próprio sangue como efeitos especiais. Murilo Mendes: Sou meu contemporâneo, não meu sobrevivente”.

 
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