Curiosamente, o próprio Santiago, ao final do filme e a partir do pedido de Salles, conta zombeteiramente que dissera ao porteiro de seu prédio que aquelas pessoas (a equipe de filmagem) estavam indo à sua casa para preparar o seu embalsamamento. Não seria essa a função ontológica do cinema? “Salvar o ser pela aparência”, como diria o crítico André Bazin, preservando a espessura de um instante vivido e fazendo durar uma presença que, diante da câmera, ainda se move, existe e persiste.
As imagens em movimento não criam, segundo Bazin, eternidade. Elas simplesmente “embalsamam o tempo”, impedindo a corrupção de vidas que, libertas de seus destinos, estão aprisionadas em sua duração.
Porém “Santiago” não se encerra de um modo redentor ou apaziguador. Salles, ao desconfiar de sua própria memória, a mais suspeita das faculdades, questiona o motivo pelo qual uma distância intransponível teria se instalado entre ele e Santiago. Já vimos que a resposta de Salles -a hierarquia patronal- não é de todo satisfatória, ou não totaliza, por sorte, todos os sentidos.
Antes, a ambiguidade presente nessa distância diz respeito a um modo de aproximação, a uma forma cinematográfica que incorpora, em sua linguagem audiovisual, aquilo mesmo que expressa em palavras: a possibilidade da expressão de uma intimidade por meio do decoro, do resguardo e do respeito.
Por isso a opção de Salles pelo plano aberto e fixo; por isso a ausência de invasivos close-ups (a não ser aquele da dança das mãos de Santiago); por isso a referência ao cinema de Yasujiru Ozu. E, sobretudo, por isso a última recusa de Salles a um último pedido de Santiago.
Quando Santiago iria revelar aquilo que lhe era mais caro, íntimo e obscuro, o fato de pertencer a um grupo de seres, em suas palavras, “malditos”, Salles desliga a câmera e lhe diz bruscamente: “Não. Isso não precisa”. Autoritarismo de Salles? Sim, se pensarmos unicamente no momento da filmagem, se considerarmos que, lá atrás, Salles só escuta aquilo mesmo que já gostaria de ouvir -e, nesse sentido, não haveria “encontro” entre os dois, mas uma tensão, uma latência. Não, se pensarmos no efeito político dessa opção de montagem.
Não é à toa que Salles começa e termina seu filme com uma negativa. No início, ele recusa um pedido de Santiago por um “depoimento”, mesmo que “com todo o carinho”. Ao final, ele recusa um pedido de Santiago por uma “confissão”, possivelmente a confissão de um “segredo”, de algo que, por estar demasiadamente ligado a sua intimidade, lhe conferiria uma verdade ou uma identidade inescapável.
Em um momento histórico marcado por uma “indústria da primeira pessoa”, seja literária ou audiovisual, quando a exposição da intimidade é tiranicamente demandada e a declaração de uma unívoca “verdade sobre si” é requerida, “Santiago” produz como efeito político uma recusa estratégica.
Por meio de um inegável gesto autoritário, mas, sobretudo, por meio do decoro, do resguardo e do respeito como forma de aproximação, “Santiago” recusa aderir tanto às “tiranias da intimidade” quanto a uma “vontade de saber” que orienta nossa sociedade - uma sociedade que não pára de se confessar.
Como já apontara Foucault no final dos anos 70, em “A História da Sexualidade - A Vontade de Saber”, confessa-se na justiça, na medicina, na pedagogia, nas relações amorosas, na esfera mais cotidiana e nos ritos mais solenes. “Confessa-se em público e em particular; emprega-se a maior exatidão para dizer o mais difícil de ser dito; fazem-se a si próprios, no prazer e na dor, confissões impossíveis de se confiar a outrem, com o que se produzem livros”. E tantos filmes, poderíamos acrescentar.
Por sorte, João Moreira Salles suspeita das confissões, sejam as de Santiago, sejam as suas próprias na voz de um outro. Talvez, ele ainda possa radicalizar essa suspeita, nem que para isso tenha de arcar com mais melancolia -ou mais alegria. Nem que para isso tenha de ser, como “Santiago”, o filme, e Santiago, o personagem, mais aquilo que nele não-é.
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Ilana Feldman
É formada em cinema pela Universidade Federal Fluminense, onde faz mestrado. Dirigiu o documentário em média-metragem "Se tu Fores", que ganhou o Prêmio Itaú Cultural para Novos Realizadores.