CINEMA
O viajante Bernardo Vorobow, por Walter Salles
1
livros
CIDADES

O Rio de Oscar Niemeyer
Por Wilson Bueno

O arquiteto expõe os erros urbanísticos cometidos na capital e sugere soluções num comovente e inútil libelo de 1980, agora reeditado

Para quem imagina Oscar Niemeyer um plácido, apesar dos incuráveis posicionamentos comunistas pré-Gorbachev, se engana redondamente. Preferindo sempre “fazer”, que mais não seja pelo "fabbro" que é, em toda extensão do termo, do que atirar-se a polêmicas –de resto estéreis– , na atrapalhada República das Bruzundangas, seu papel, sabemos, é o de um “construtor”.

Já a ebulição pessoal que faz de Niemeyer bem mais do que um homem longevo e aparentemente sereno, esta fica visível no texto de sua autoria que a editora Revan acaba colocar nas livrarias brasileiras.

Sob apurada concepção gráfica, temos agora o fac-símile do manuscrito, apoiado por inúmeros croquis e desenhos, de “Rio - Da Província à Metrópole”, publicado em 1980. Com direito a um poema-prefácio, de Carlos Drummond de Andrade, feito na ocasião especialmente para a obra.

Em plena atividade, e um dos maiores arquitetos de todos os tempos, Oscar Niemeyer faz aqui o que talvez seja o seu único testamento “literário” –uma carta ao Rio. Carta atravessada de paixão e saber, indisfarçável declaração de amor à cidade onde nasceu e vive há mais de um século.

Sem deixar, evidentemente, ou por isso mesmo, de denunciar suas tribulações e misérias, de exaltar-lhe a geografia bailarina e sobretudo de amargar a culpa –que é de alguns e também de todos–, pela literal destruição do burgo que foi, um dia, quem acreditar há-de?, elegante e aristocrático reduto tropical às margens do mar brasileiro.

A infância e adolescência de Oscar ainda pegaram o Rio antigo, o das primeiras décadas do século passado, com sua atmosfera romântica e vivaz, a ambiência do respeitável Distrito Federal, com seus poetas e cafés, seus políticos e palácios herdados do Império, e a onipresença do mar ainda não engolido pelo cimento e o asfalto. E muito menos pela sanha da especulação imobiliária, que à sombra da nefasta ditadura militar brasileira (1964-1985) acabou por liquidar de vez com a cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro.

Último titã do século XX tupiniquim, Oscar Niemeyer, mesmo não fosse o gênio insuperável que construiu cidades e, mais que prédios, verdadeiros monumentos públicos, sob o império de um estilo inimitável que é a sua maior marca, seria, quisesse ou não, testemunha privilegiada de nosso tempo.

Nascido em 1907, no então bucólico bairro das Laranjeiras, Oscar assistiu de perto aos fluxos e influxos do século passado, aqui ou alhures. E não ficou deles alheio em nenhum momento.

Concorde-se ou não com suas posições dinossáuricas a respeito de política, numa coisa Oscar Niemeyer é incontestável: sua profissão de fé num mundo melhor, e mais palatável, nunca o abandonou, ou nunca foi por ele abandonada. Se, para muitos, Niemeyer se equivoca nos meios, os fins, impossível negar, são movidos por aposta quase perturbadora no que se convencionou chamar “humanismo”, por utópico que isso seja, e por diluído se encontre, a cada dia, o conceito iluminista que tem por alvo um mundo mais justo.

Não poderia ser diferente em “Rio - Da Província à Metrópole”. Tomando o Rio de Janeiro do início da década de 80 como ponto de partida, o que Niemeyer propõe, desde o princípio, neste breve texto, alguma vez comovente, são esboços de solução para os já então aflitivos, senão também já insolúveis, problemas que dilaceram as cidades humanas –de Tóquio a Varginha; de Bombaim a Pindamonhangaba.

O livro, ao fotografar a caligrafia regular e escorreita de Niemeyer, confere, à recepção do texto, um surpreendente grau de intimidade e torna ainda mais flagrante o empenho sincero do mestre em fazer do Rio uma cidade menos injusta, e da Terra, um planeta mais habitável. De ponta a ponta, entanto, além de vazado pelas reminiscências de um homem saudoso da cidade de sua infância, o que Oscar propõe chega a ser uma utopia alarmante, senão extensamente sonhadora.

Há momentos, ao longo do texto, que parece estarmos lendo não o arquiteto Oscar Niemeyer, mas um poeta que sonhasse a sua cidade, pelo simples gosto de sonhá-la ou que a reconstruísse ao sabor da imaginação e das delirantes propagações da noite, um Italo Calvino, talvez, a pensar "As Cidades e os Olhos", "As Cidades e as Trocas" ou as insólitas "Cidades Delgadas".

É claro que o construtor de cidades no deserto ou fora deles, no planalto central do Brasil ou no ressequido chão africano, está sempre presente, com mão certeira, quase técnica, a desembrulhar as metamorfoses que o Rio foi experimentando. Aí é capaz de diagnosticar, sob agudo olho clínico, a passagem de uma paisagem, os desacertos e os descaminhos.

Vai a d. João VI nosso arquiteto-escritor para lembrar o “pecado” original, quando, raiz de todo problema, a mudança das casas individuais para habitação coletiva se fez a esmo, de qualquer modo e de qualquer jeito, no improviso que é o nosso maior defeito de existir. Não se pensou, um só momento, em densidade demográfica, tráfego, áreas verdes. E, ora direis, ouvir estrelas, a “conveniência de um plano diretor” que preparasse o Rio para as transformações que fatalmente viriam...

Isto sem falar da absoluta indiferença quanto à construção de zonas livres, praças, passeios, inteiramente descurada pela administração da cidade desde a origem. Deu no que deu: com o fim do Império, amontoaram-se as casas senhoriais transformadas em sórdidos cortiços. Isso até o dia em que a especulação imobiliária, protegida a sete chaves pela ditadura militar, pôs abaixo o velho casario e se apossou, com sanha assassina, dos hipervalorizados terrenos. Pipocaram os espigões, new-bregas, new-kitsch...

Curioso: o texto de Niemeyer é de ainda ontem, 1980, quando tudo já estava perdido. Basta um pouquinho de memória para lembrar que o Rio estava no chão muito antes disso e que já se constituía numa cidade sem solução à vista.

Quase 30 anos depois, a oportuna reedição do texto, põe o leitor ainda mais perplexo face aos descalabros, pois de lá para cá os problemas urbanos do Rio, e não só dele, como da maciça maioria das grandes cidades brasileiras, só fez aprofundar. E quanto ao Rio em particular, dizer que se agravaram de forma alarmante, ainda é, sabemos, insuficiente.

Depois de desancar o parque do Flamengo, sem citar nominalmente Lota de Macedo Soares ou o paisagista Roberto Burle Marx, insinuando, de modo irônico, que fizeram dele um espaço público para usufruto individual, se Niemeyer exagera no varejo, acerta em cheio, contudo, no atacado. O parque do Flamengo é o mais significativo movimento das “elites” para tornar invisível ao povo o mar do Rio de Janeiro.

Muito antes disso – e Oscar não esquece de registrar, com argúcia– também o Passeio, a Praça XV, mirantes cariocas para o oceano, já haviam se pautado pelos mesmos erros e desaprumos. Hoje, sabemos, não se vê o mar do centro do Rio de Janeiro, a não ser dos aviões que, do aeroporto Santos Dumont, fazem a ponte aérea...

Num paroxismo urbanístico que vai às raias do delírio, não fosse a pura poesia de um homem apaixonado por “soluções”, mesmo que inviáveis, Oscar Niemeyer chega a propor no texto de 1980 que todo o tráfego do Rio, norte-sul-norte, se faça pelas encostas dos morros, em grandes vias de alta velocidade. Exeqüível? Esse é outro assunto, de somenos importância...

Mais: sugere que uma quadra inteira de Copacabana, entre as ruas Francisco Sá e Souza Lima, venha abaixo, numa “corajosa” experiência-piloto, com a criação de cinco torres de apartamentos residenciais e vastas áreas verdes, tornando em calçadão a já alargada avenida Atlântica, a fim de que “se construa” ali ampla vista para o mar. O carioca foi separado do mar –insiste, a todo o tempo, o poeta-arquiteto, o arquiteto-escritor. E radicaliza: os hotéis Othon deveriam ser imediatamente implodidos para devolver o mar do Rio ao Rio...

E por aí segue esta carta, rebelde e indignada, a rebeldia de um já então octogenário que viu a sua cidade lhe escapar dos olhos e das mãos. E o espantoso nisso tudo é que Niemeyer não culpa só a ditadura militar e os que nababescamente dela usufruíram para a prática de falcatruas inomináveis. Todos somos culpados, conclui –dos barões do Império aos incorporadores corruptos ocultos à sombra dos generais da tortura; da juventude dita revolucionária ao próprio povo que preferiu a asfixia dos ônibus lotados na hora do rush a pegar em armas e pôr os governos (capitalistas) no chão.

Não o diz isso de todo, e nem explicitamente, o autor de “Rio - Da Província à Metrópole”, tão comovente quanto inútil libelo contra os desmandos com que a inépcia aliada ao lucro vai destruindo, uma a uma, as cidades dos homens, especialmente em países periféricos como o Brasil. Mas diz muito a voz que se não ecoa como um grito, vibra feito um lamento, o lamento do arquiteto Oscar Niemeyer sobre tudo o que poderia ter sido mas não foi...

Trinta anos depois, senhores, sequer o lamento se faz ouvir baixo o ruído muitos decibéis acima da média permitida no centro da cidade.


Publicado em 12/9/2008

.

Wilson Bueno
É escritor, autor de, entre outros, "A Copista de Kafka" (ed. Planeta).

 
1