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Mazzini: Leio e gosto muito de muita gente. Minha poesia favorita atualmente é a de Armando Freitas Filho, com absoluta certeza. Dois livros dele, “3x4” e “Números Anônimos”, de modo especial, são muito significativos pra mim. Adoro os poemas de Marília Garcia, extraordinários, lugares sempre muito novos de exploração e vista. Gosto muito de ler Carlito Azevedo, o amigo Aníbal Cristobo, Andrea Catrópa, Francisco dos Santos, os grandes chapas Diego Vinhas e Danilo Bueno (ambos cuja poderosa poesia me agrada tanto quanto a amizade), Leonardo Gandolfi, os estimados Carlos Augusto Lima, Fabiano Calixto e Júlio Lira, o Manoel Ricardo de Lima. Como você pode ver, a lista, na verdade, é bastante abrangente. Aprecio muito a escrita de alguns poetas envolvidos com o setor de poesia da University of Pittsburgh Press, como Jeffrey McDaniel e Bob Hicok. Gosto demais de uma poeta chamada Greta Stoddart. Também de Charles Bernstein, do cubano José Kozer, de Andi Nachón. Muitos nomes. Muita poesia formidável.
Mazzini: Eu quero acreditar que a minha poética é a da imagem em relevo sob uma luz quase crua. Acho mesmo que as possibilidades são bastante inconstantes dentro disso, que me apóio na imagética, como pano fundamental do poema, e o poema que escrevo acaba atado à multiplicidade angular da imagem, o que pode ser bom e ruim, e que varia muito sob as condições próprias de quem lê. Admito que o resultado, muitas vezes, é turvo. Acredito que, nos meus poemas, a composição e a transmissão destas imagens que tento sugerir representem o conjunto imperfeito de coração, ossos e nervos da minha escrita. A carne e os músculos ainda estão se desenvolvendo, e num ritmo bastante lento. Tenho consciência desse hermetismo ao qual você se refere, e sei que ele é decorrente de uma teimosia minha em insistir apontando que a recorrência de certas imagens e modos, e a maneira como tudo isso se arma (também insistentemente) em alguns poemas é uma coisa quase biológica, o que, dentro da minha visão e da minha possibilidade de escrita, com suas cismas e limitações, acaba sendo algo certamente inescapável.
Mazzini: No meu livrinho há mesmo, em muitas partes, essa fuga para a terceira pessoa, ou para a desexposição tentada, esse pretender um desapego da primeira pessoa, um afastamento de sensação e percepção propriamente em primeira pessoa. Acho que foi mesmo um pouco premeditado. É que eu queria dissolver a biografia nos/dos poemas. A “personagem crucial” que eu queria para os textos era o lugar, fixo ou móvel. No fim das contas, não sei mesmo se consegui o que eu estava pretendendo.
Mazzini: Temos cerca de 33 mil habitantes vivendo aqui em Santa Fé do Sul. É uma cidade típica do interior, mas de bom “porte urbano”, se é que posso pôr nesses termos. Como se fosse uma cidade grande em miniatura, guardadas as devidas proporções, e não absolutamente livre de violência, mas sem a polaridade opressiva de um grande centro. Você pode ir de um lugar a outro a pé sem grandes dificuldades. Mas é como em qualquer outro lugar: há alguma gente bem pobre, trabalha-se muito, há barulho, há pessoas com problemas (quase todo mundo, como em quase todo lugar), a vida é apressada. Agora, não saberia dizer se há projeção direta disso sobre a escrita. Quer dizer, a abordagem é a do lugar, isso aqui é o que eu conheço bem, é onde minha vida se baseia, meu campo de existência. Mas talvez os poemas apenas simulem um pouco, absorvam a vida de algum outro lugar, compartam ficção do real. Eu realmente não sei responder a isso.
Mazzini: Eu queria que “Dois Trânsitos” fosse um retrato um pouco vago de uma situação de não conseguir dizer. De olhar algo de perto, algo que chama uma solução ou reconstrução impossível através da resposta ou da manifestação de linguagem, e da impassividade diante disso, da engrenagem de tudo continuar correndo, rodando, com lugares preenchidos e expectativas percorrendo os objetos, os contornos do fixo, as respirações das pessoas. Mas com um elemento, talvez até ignorado, sendo disfuncional, quebradiço, distópico no campo do pessoal, do importante para si. Como uma desilusão presumível, ou um rasgo na rotina de conforto, um porta-abandono, uma mudez até do gesto.
Mazzini: A minha relação com a tradução é a do apreciador-leitor que quer fazer algumas coisas boas circularem entre amigos e pessoas interessadas. É coisa bastante amadora, orientada por critérios pessoais, uma busca algo constante de solução e acesso a prazer e aprendizado dos mecanismos de escrever poesia. Traduzi alguma coisa do que gosto de ler em poesia de língua inglesa, principalmente poesia estritamente contemporânea, e veiculei através de um blog, o “Chopsticks”, que eu e a Ana (Guadalupe, minha amiga, poeta extraordinária) idealizamos e tocamos com constância por algum tempo. A última atualização data de bastante tempo atrás, mas os poemas traduzidos até então estão lá, e, para meu espanto, algumas pessoas ainda lêem, visitam o blog com certa freqüência. Mas não sei como vai ficar. Eu queria voltar a postar lá, mas o tempo não está ajudando.
Mazzini: A coisa na verdade foi bastante inusitada. Numa conversa de messenger com o Aníbal, perguntei sobre o blog, sobre a intenção dele de reativar os trabalhos, já que fazia um tempo que não entravam novos posts, pois ele andava meio atarefado. O Aníbal me disse que estava considerando a possibilidade de transmitir a operação do blog a outra pessoa, alguém para dar continuidade à coisa. Por brincadeira, e na maior cara de pau, me ofereci para assumir. Ele disse que tudo bem, o que recebi com um grande “!!!”. Então, trocamos algumas breves idéias sobre o andamento futuro do projeto, e comecei dali. Minha função é, basicamente, a de fazer os convites aos poetas indicados, receber o material dos que concordam em tomar parte e organizar estes textos, biografias e indicações para postagem. Além disso, quando tomo conhecimento de um bom poeta que, imagino, as pessoas gostariam muito de ler, ou que seria interessante que lessem, também o convido, mesmo sem uma indicação inicial. Não é como se eu impusesse meu gosto pessoal, pois essa escolha “fora” acaba independendo muito das minhas predileções. É, sim, uma pequena brecha, que inclusive tem o aval do Aníbal, na dinâmica originalmente concebida para o blog, mas que se justifica num fim maior: veicular boa poesia na rede, trazer esses textos até os tantos leitores que apreciam/apreciariam ler tudo isso.
decido resumir um percurso íngreme * baixo: o dia, o tom. notas esmiuçadas * (desentranhar da página um só
http://www.renatomazzini.blogspot.com/ http://poesiacomchopsticks.blogspot.com/
. Heitor Ferraz
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