CINEMA
O viajante Bernardo Vorobow, por Walter Salles
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Mazzini: Leio e gosto muito de muita gente. Minha poesia favorita atualmente é a de Armando Freitas Filho, com absoluta certeza. Dois livros dele, “3x4” e “Números Anônimos”, de modo especial, são muito significativos pra mim. Adoro os poemas de Marília Garcia, extraordinários, lugares sempre muito novos de exploração e vista. Gosto muito de ler Carlito Azevedo, o amigo Aníbal Cristobo, Andrea Catrópa, Francisco dos Santos, os grandes chapas Diego Vinhas e Danilo Bueno (ambos cuja poderosa poesia me agrada tanto quanto a amizade), Leonardo Gandolfi, os estimados Carlos Augusto Lima, Fabiano Calixto e Júlio Lira, o Manoel Ricardo de Lima.

Como você pode ver, a lista, na verdade, é bastante abrangente. Aprecio muito a escrita de alguns poetas envolvidos com o setor de poesia da University of Pittsburgh Press, como Jeffrey McDaniel e Bob Hicok. Gosto demais de uma poeta chamada Greta Stoddart. Também de Charles Bernstein, do cubano José Kozer, de Andi Nachón. Muitos nomes. Muita poesia formidável.


Sua poesia é extramente metafórica –em alguns momentos, ela chega a se fechar, num aparente hermetismo, como se você procurasse mesmo a imagem. A sua poética é a da metáfora e suas possibilidades?

Mazzini: Eu quero acreditar que a minha poética é a da imagem em relevo sob uma luz quase crua. Acho mesmo que as possibilidades são bastante inconstantes dentro disso, que me apóio na imagética, como pano fundamental do poema, e o poema que escrevo acaba atado à multiplicidade angular da imagem, o que pode ser bom e ruim, e que varia muito sob as condições próprias de quem lê.

Admito que o resultado, muitas vezes, é turvo. Acredito que, nos meus poemas, a composição e a transmissão destas imagens que tento sugerir representem o conjunto imperfeito de coração, ossos e nervos da minha escrita. A carne e os músculos ainda estão se desenvolvendo, e num ritmo bastante lento.

Tenho consciência desse hermetismo ao qual você se refere, e sei que ele é decorrente de uma teimosia minha em insistir apontando que a recorrência de certas imagens e modos, e a maneira como tudo isso se arma (também insistentemente) em alguns poemas é uma coisa quase biológica, o que, dentro da minha visão e da minha possibilidade de escrita, com suas cismas e limitações, acaba sendo algo certamente inescapável.


Em muitos dos seus poemas, você afasta o lirismo em primeira pessoa. Será uma estratégia poética? Ou falar sobre as coisas, criar imagens inusitadas, já é tratar deste “eu” lírico arredio?

Mazzini: No meu livrinho há mesmo, em muitas partes, essa fuga para a terceira pessoa, ou para a desexposição tentada, esse pretender um desapego da primeira pessoa, um afastamento de sensação e percepção propriamente em primeira pessoa. Acho que foi mesmo um pouco premeditado. É que eu queria dissolver a biografia nos/dos poemas. A “personagem crucial” que eu queria para os textos era o lugar, fixo ou móvel. No fim das contas, não sei mesmo se consegui o que eu estava pretendendo.


Falando em “fixo ou móvel”, neste trânsito de imagens, passemos para o trânsito empírico: sua poesia é um registro desses choques, mas estes choques são de uma experiência urbana. Você vive numa cidade de interior que, no imaginário de muitos, afasta-se do imaginário da grande cidade.

Mazzini: Temos cerca de 33 mil habitantes vivendo aqui em Santa Fé do Sul. É uma cidade típica do interior, mas de bom “porte urbano”, se é que posso pôr nesses termos. Como se fosse uma cidade grande em miniatura, guardadas as devidas proporções, e não absolutamente livre de violência, mas sem a polaridade opressiva de um grande centro.

Você pode ir de um lugar a outro a pé sem grandes dificuldades. Mas é como em qualquer outro lugar: há alguma gente bem pobre, trabalha-se muito, há barulho, há pessoas com problemas (quase todo mundo, como em quase todo lugar), a vida é apressada. Agora, não saberia dizer se há projeção direta disso sobre a escrita. Quer dizer, a abordagem é a do lugar, isso aqui é o que eu conheço bem, é onde minha vida se baseia, meu campo de existência. Mas talvez os poemas apenas simulem um pouco, absorvam a vida de algum outro lugar, compartam ficção do real. Eu realmente não sei responder a isso.


Voltando ao trânsito: em “Dois Trânsitos” parece que se trava uma luta entre a interioridade e a exterioridade, o mundo subjetivo e o objetivo, como se houvesse uma impossibilidade do trânsito da intimidade.

Mazzini: Eu queria que “Dois Trânsitos” fosse um retrato um pouco vago de uma situação de não conseguir dizer. De olhar algo de perto, algo que chama uma solução ou reconstrução impossível através da resposta ou da manifestação de linguagem, e da impassividade diante disso, da engrenagem de tudo continuar correndo, rodando, com lugares preenchidos e expectativas percorrendo os objetos, os contornos do fixo, as respirações das pessoas. Mas com um elemento, talvez até ignorado, sendo disfuncional, quebradiço, distópico no campo do pessoal, do importante para si. Como uma desilusão presumível, ou um rasgo na rotina de conforto, um porta-abandono, uma mudez até do gesto.


Você também traduz muito. Qual a sua relação com o exercício da tradução?

Mazzini: A minha relação com a tradução é a do apreciador-leitor que quer fazer algumas coisas boas circularem entre amigos e pessoas interessadas. É coisa bastante amadora, orientada por critérios pessoais, uma busca algo constante de solução e acesso a prazer e aprendizado dos mecanismos de escrever poesia.

Traduzi alguma coisa do que gosto de ler em poesia de língua inglesa, principalmente poesia estritamente contemporânea, e veiculei através de um blog, o “Chopsticks”, que eu e a Ana (Guadalupe, minha amiga, poeta extraordinária) idealizamos e tocamos com constância por algum tempo.

A última atualização data de bastante tempo atrás, mas os poemas traduzidos até então estão lá, e, para meu espanto, algumas pessoas ainda lêem, visitam o blog com certa freqüência. Mas não sei como vai ficar. Eu queria voltar a postar lá, mas o tempo não está ajudando.


Além deste blog, hoje você está cuidado do “escolhasafectivas”. Como você chegou nos “escolhasafectivas” e qual a sua função hoje no blog?

Mazzini: A coisa na verdade foi bastante inusitada. Numa conversa de messenger com o Aníbal, perguntei sobre o blog, sobre a intenção dele de reativar os trabalhos, já que fazia um tempo que não entravam novos posts, pois ele andava meio atarefado. O Aníbal me disse que estava considerando a possibilidade de transmitir a operação do blog a outra pessoa, alguém para dar continuidade à coisa. Por brincadeira, e na maior cara de pau, me ofereci para assumir. Ele disse que tudo bem, o que recebi com um grande “!!!”. Então, trocamos algumas breves idéias sobre o andamento futuro do projeto, e comecei dali.

Minha função é, basicamente, a de fazer os convites aos poetas indicados, receber o material dos que concordam em tomar parte e organizar estes textos, biografias e indicações para postagem. Além disso, quando tomo conhecimento de um bom poeta que, imagino, as pessoas gostariam muito de ler, ou que seria interessante que lessem, também o convido, mesmo sem uma indicação inicial.

Não é como se eu impusesse meu gosto pessoal, pois essa escolha “fora” acaba independendo muito das minhas predileções. É, sim, uma pequena brecha, que inclusive tem o aval do Aníbal, na dinâmica originalmente concebida para o blog, mas que se justifica num fim maior: veicular boa poesia na rede, trazer esses textos até os tantos leitores que apreciam/apreciariam ler tudo isso.


TRÊS POEMAS INÉDITOS


As cortinas

decido resumir um percurso íngreme
entre você e as alternâncias de uma
fileira de postes, de um desagravo no
eixo de gravidade da Terra, de uma sonda
espacial, um peixe retalhado sobre uma tábua
de carne ou outra sonda, para administrar
alimento a um velho, através da garganta, rente
ao pomo. as mãos já sabem
calar. dirigem uma impressão de tato às
cegas sobre uma superfície pegajosa,
e isso perturba você, decupa finíssimas
linhas de identificação sobre a sua testa,
franzir delicado de pele de (outra
vez) peixe, mas não desacelera nada:
seu pulso, sua respiração, permanecem.
um encontro elementar entre duas nuvens pesadas
algumas dezenas de metros acima de sua janela
induzem um derradeiro (na manhã) movimento
de cabeça para cima e o restante do dia ou
da vida seus olhos (me parece) repousarão
(concentrados, austeros como o asfalto recapeado)
sobre as páginas de um livro ou caderno

*

baixo: o dia, o tom. notas esmiuçadas
também. de uma distância de talvez seis
metros tenta reavaliar o choque, o rasgo,
o declive: enterrando uma árvore crescida
com a copa compressa num envelope ou
sacola plástica concreto adentro, uma de
duas espécies de piada: a que contam ou
a que sentem; e a árvore sendo um símbolo
(se trancafiada a beleza definha também de
um jeito belo) que contenha seus anos todos
numa única expressão – as letras em decalque
na folha hermeticamente vedada para que ninguém
leia, (não, nenhum, nunca)

*

(desentranhar da página um só
pássaro, coagi-lo a tomar formas:
que seja a bengala para tirar
de cena pelo pescoço o verão,
desde a propulsão anti-gravitacional
das folhas despencando dos galhos
já metade-secas, até a sílaba
semi-pronta que estala trovões no
céu; sabe-se dos relâmpagos só
a linha luminosa e serpenteante
e) todo trovão, sem exceção,
é oco.


link-se

http://www.renatomazzini.blogspot.com/

http://poesiacomchopsticks.blogspot.com/


Publicado em 8/12/2008

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Heitor Ferraz
É poeta, jornalista e professor de jornalismo cultural na Fundação Cásper Líbero. É autor, entre outros, de "Coisas imediatas" (Coleção Guizos, Ed. 7 Letras), que reúne toda a sua poesia até agora.

 



 
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