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LITERATURA
Conduzindo Mister Ashok Vencedor do Booker Prize de 2008 com o romance "O Tigre Branco", o escritor Aravind Adiga encara o lado escuro da Índia Às vezes ouve-se um burburinho quando um romance inquietante é lançado. O zunzum aumenta se o livro é de estréia; mais ainda se ganha um prêmio literário. “O Tigre Branco” (Nova Fronteira, 264 págs.) trilhou esse caminho. Primeiro romance do jornalista indiano Aravind Adiga, recebeu o Man Booker Prize de 2008, um dos mais importantes prêmios literários da língua inglesa. O livro chegou a ser considerado “desbravador” para a literatura indiana. Exagero ou não, é certo que “O Tigre Branco” pode agradar o leitor por várias razões; diversão debochada e afinada crítica social são algumas delas: as mais marketeiras, sem dúvida. Esses motivos, sozinhos, não seriam qualidade. Sarcasmo e denúncia social são as moedas correntes e muitas vezes baratas da literatura contemporânea. Embora “O Tigre Branco” as articule habilmente com as qualidades menos ressaltadas do romance, como a economia de termos, sentimentos e descrições, ele não se sustenta no sarcasmo e na denúncia social. Suas qualidades são o acabamento, a superestrutura do livro, cuja infra-estrutura são as ideias (ou imagens) da Índia e dos indianos para o mundo em relação às ideias (ou imagens) da Índia e indianos para os próprios indianos; precisamente, para as personagens do romance e, mais que todas, para o protagonista e narrador, Balram Halwai. Balram era um menino pobre do interior que ascendeu à posição de empresário após cometer um assassinato –talvez mais de um, “um assassinato em massa”, como ele afirma–, e o romance é o relato de seu sucesso em cartas redigidas ao primeiro-ministro da China. A motivação de Balram é antecipar-se à visita do governante chinês à Bangalore, conhecida como o “vale do silício da Índia”, e explicar-lhe a “verdadeira” essência do local. Dividindo a Índia entre a “Luz” e a “Escuridão”, é sobretudo desta última que Balram falará. O intuito do primeiro-ministro é compreender porque a Índia é conhecida como “nação de empreendedores”, a fim de aplicar seus princípios à China. Daí Balram “mimetizar” os contornos de um formato comercial mundialmente bem-sucedido –o dos livros de empreendedorismo– em sete cartas (ou lições) ao premiê. Em termos literários, as cartas não só mimetizam (ou parodiam) os livros de auto-ajuda; aludem ainda a um gênero mais antigo da literatura: o “espelho do rei” (speculum regum), bastante praticado entre a Idade Média e o século 18, mas também empregado no século 19 por um autor como José de Alencar, nas célebres “Cartas de Erasmo” a dom Pedro. Em suma, são manuais de conduta e moral, elaborados por intelectuais como aconselhamento aos governantes. Balram se dispõe não apenas a aconselhar o premiê como também a servir de modelo empreendedor para a China, a “nação amante da liberdade”, nas palavras de Balram. Sua sinceridade ao proclamar essa e outras expressões, embora ambígua, está mais distante do deboche e mais próxima de um suposto espírito indiano de “servilismo”, traçado magistralmente por Adiga, que Balram, reconhecendo ou não, possui, e do qual não consegue se desvencilhar. Essa atitude está entranhada em seu ser, e por meio dela, talvez sem o saber, ocorrerá a reviravolta em sua vida. A mudança começa quando Balram consegue um emprego de motorista. Trabalhando para o senhor Ashok, um jovem indiano recém-chegado dos EUA, e Pinky Madam, sua esposa americana, Balram aprende noções de higiene que até então, incrivelmente (como ele mesmo constata), desconhecia, entre tantas outras noções existentes apenas na “Luz”. A “Escuridão”, como nenhum outro indiano, ele já conhece. Assim, imerso na “Luz”, a sua formação se completará, deixando-o apto à melhor prática empreendedora, profundamente cônscia dos dois lados da Índia. Poderíamos dizer que a grande protagonista de “O Tigre Branco” seria a Índia; mas isso é falso: Adiga não descreve um país “orgânico”, com vida ou antropomorfizado; trata-se apenas de um cenário, no qual se passam os duros acontecimentos urbanos e rurais que conhecemos (na pele ou de ouvir falar) de outras partes do mundo. “O Tigre Branco” seria mais “internacional” que universal, pois a ideia que podemos ter da Índia enquanto território ou paisagem –para além de idílica, espiritual e turística–, no relato de Balram, foge ao conceito romântico deflagrado em todo o mundo desde o século XIX, para todos os países: das nações e dos povos como raiz e fruto de suas terras. Em “O Tigre Branco”, ocorre mesmo o contrário: são os homens que produzem, no sentido fisiológico, o seu lugar. Não é a toa que, em todo o romance, cusparadas, esgotos e uma série de outros dejetos fluam pelas páginas; todos eles constituem o panorama indiano. O produto “indiano” por excelência seria o humano por natureza. O romance –ou melhor, o relato de Balram–, diferentemente de muitos outros, não esconde os naturais produtos, mas sim os expõe, “regionalizando” o universal. “O Tigre Branco” contorce, distorce e confunde as ideias de exotismo com suas expectativas tanto por parte dos leitores indianos quanto dos estrangeiros. É nesse jogo de torções que está a grande sacada do autor. As tiradas cômicas apenas as ilustram e potencializam, como no seguinte trecho: "- Veja só isso, Ashok – disse ela. – Balram, o que estamos comendo? Sabia que era uma armadilha, mas o que podia fazer? Respondi. E os dois caíram na gargalhada. - Diga outra vez, Balram. E eles riram novamente. - Não é piJJa. É piZZa. Repita certo. - Espere aí. Você também está pronunciando errado. Tem um T no meio. Pit-za. - Não venha corrigir o meu inglês, Ashok. Não tem T nenhum na palavra pizza. Olhe aqui na caixa". Sanjay Subrahmanyam, professor de história na Ucla (Universidade da Califórnia em Los Angeles), detectou em “O Tigre Branco” uma falsa percepção da realidade indiana. Mencionando a passagem da pizza, Subrahmanyam considera que “Adiga acerta o tom somente ao escrever sobre o mundo dos burgueses”, quando “soa verdadeiro, em parte”. E prossegue acusando a falta de verossimilhança: “Há quase duas décadas, Gauatri Chakravorty Spivak escreveu um célebre ensaio, “Os subalternos podem falar?”. Na época, um folclorista teria dito: “Mais importante, os burgueses podem ouvir?”. Não podemos ouvir a voz de Balram Halwai, porque o autor parece não ter acesso a ela. O romance compartilha sua raiva pelas injustiças da nova Índia globalizada, e é bom ouvir uma voz dissonante entre o crescente coro laudatório. Mas sua personagem central parece um boneco de papel. O paradoxo é que para muitos de seus leitores essa falta de verossimilhança não importa: para eles a Índia é, e permanecerá, um lugar exótico. Esse livro coloca outro tijolo no edifício condescendente que o próprio livro quer demolir”. Subrahmanyam “soa” igualmente “verdadeiro, em parte”. Estamos carecas de saber que a realidade na ficção é outra coisa –e Adiga frisa que “O Tigre Branco” é ficção, embora tenha se empenhado em fazer viagens pelo país para conhecer a realidade. Esse empenho, matéria-prima do romance, resultará sempre, e inescapavelmente, negativo –não nulo–, do mesmo modo que Balram, ao ser questionado sobre o que os patrões comiam, sabia que eles na verdade queriam ouvi-lo pronunciar “pizza” de forma engraçada –“o que podia fazer?”. Adiga sabe que transpor a realidade na ficção é uma armadilha. Esperamos que não deixe de cair nela no próximo romance.
Conheça a seguir alguns dos principais prosadores de língua inglesa do país, em atividade: Anita Desai (Mussoorie, 1937) Filha de uma alemã e um indiano, Anita Desai é autora de romances, contos e histórias infanto-juvenis. Foi três vezes finalista do Booker Prize: por “Clear Light of Day” (HarperCollins, 1980), “Fasting, Feasting” (Chatto & Windus, 1999) e “Sob Custódia” (Rocco, esgotado), sua única obra editada no Brasil.
O mais famoso escritor indiano foi também o primeiro do país (ou o segundo, se considerarmos V. S. Naipaul indiano) a ganhar o Booker Prize, em 1981, com “Os Filhos da Meia-noite” (Companhia das Letras, 2006). Seu livro mais célebre, porém, continua sendo “Os Versos Satânicos” (Companhia das Letras, 1998), sobretudo por ter lhe rendindo a fatwa (sentença de morte por heresia), decretada em 1989 pelo aiatolá Khomeini. Em 2007, o escritor foi nomeado Cavaleiro da Ordem Britânica: novo “insulto ao Islã”, aos olhos do comando da Al-Qaeda.
Um dos mais elogiados escritores indianos, Sinha ainda não foi editado em português. Seu livro mais recente, “Animal’s People” (HarperCollins, 2007), foi finalista do Booker Prize de 2007 e vencedor do Commonwealth Prize para a Europa e a Ásia do Sul, de 2008. O romance é baseado na convivência do escritor com os sobreviventes do desastre industrial de Bhopal, na Índia, ocorrido em 1984. Muitos críticos apontaram semelhanças entre “Animal’s People” e “O Tigre Branco”, ambos narrados por protagonistas sinceros, sombrios e mordazes.
Refinado escritor, morou em diversos lugares e vive atualmente em Nova York. É jornalista, foi professor universitário e colaborador em diversos periódicos, dentre os quais “The New York Times”. No Brasil, tem editados os romances “Maré Voraz” (Alfaguara, 2008), “O Palácio de Espelho” (Alfaguara, 2006) e “O Cromossomo Calcutá” (Ática, 1998, esgotado). Seu livro mais recente, “Sea of Poppies” (Farrar Straus Giroux, 2008), também finalista do Booker Prize de 2008, é para o crítico John Self superior a “O Tigre Branco”.
Despontou na literatura internacional com um surpreendente romance de estréia, “O Deus das Pequenas Coisas” (Companhia das Letras, 1997), vencedor do Booker Prize de 1997. O livro é parcialmente autobiográfico e alia delicadeza, frescor e brutalidade. Hoje, a autora é mais conhecida pelo engajamento social: contra o intervencionismo dos EUA, pela defesa do desarmamento nuclear da Índia e pela independência da Caxemira.
Filha de Anita Desai, Kiran ganhou o Booker Prize de 2006 com seu segundo romance, “O Legado da Perda” (Alfaguara, 2007). Seu primeiro romance, “Rebuliço no Pomar de Goiabeiras” (Record, 2000), já havia arrebatado crítica e público pela energia, leveza e bom humor. Alguns desses atributos são compartilhados pelas obras de Indra Sinha e Aravind Adiga. Comentadores enxergam aí uma linha de força, talvez uma renovadora escola literária (opondo-se ao que seria o “realismo mágico” de Salman Rushdie), enquanto outros vêem nela apenas um estilo de exportação.
. Alex Miyoshi
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